Easy: a modernização dos clichês dos relacionamentos

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Antes de começar a falar sobre Easy, série lançada pela Netflix, precisamos conhecer um pouco de Joe Swamberg, o diretor dos oito episódios. Joe é um adepto do movimento cinematográfico Mumblecore que surgiu no início dos anos 2000 e que consiste em diálogos improvisados, iluminação natural, baixíssimo orçamento e filmes que falam do tédio da geração da faixa dos 20/30 anos.

Algumas produções vem seguindo firmemente essa linha, sendo Funny Ha Ha do cineasta Andrew Bujalski considerado o precursor do movimento. Apesar de ter surgido no cinema norte americano é possível encontrar algumas semelhanças em filmes estrangeiros, como em Medianeras, longa argentino do diretor Gustavo Taretto.

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Joe, que dirigiu o ótimo Drinking Buddies (Um Brinde à Amizade, no Brasil), imprimi suas fortes influências do Mumblecore em Easy, mas falha em desenvolver a individualidade e as conexões de seus personagens. Apesar dos episódios serem relativamente curtos, as apresentações as relações são boas, porém não há seguimento. A evolução de todas as tramas sofrem extremos colapsos e, talvez de propósito, não nos remete a nenhuma conclusão.

Netflix-Original-Series-Easy2O jeito informal de Easy abordar uma história por vezes causa certa chateação. São raros os momentos que a série te prende ou te faz se afeiçoar por alguma trama ou personagem. A sutileza da produção beira ao tédio. Talvez seja por culpa da intensidade do Mumblecore na tela, mas se há o comprometimento de mostrar a veracidade dos relacionamentos, você precisa criar argumentos para que o espectador se identifique.

Não adianta simplesmente modernizar clichês, muito menos maquiar e dar uma cara descolada aos estereótipos, é preciso ir mais fundo, é necessário abordar a realidade da complexidade que é viver a dois. É discutir de maneira concreta o impacto que o sexo tem na vida de um casal. Easy  passa a impressão que todos os relacionamentos são um grande acúmulo de tédio.

Easy exagera na solução dos problemas dos personagens com fundamentos anticapitalista. “O bom não é emprego fixo é ter uma cervejaria clandestina.” Não que isso não seja realmente bom, mas transformar a visão capitalista no grande vilão da geração, soa como uma Utopia bem demodé.

Easy é uma antologia e seus episódios não possuem conexão, tirando o oitavo episódio que é uma continuação do terceiro. A série tenta se emplacar com uma comédia, mas não tem nuances cômicos, ela encaixa-se melhor como drama, apesar de também não possuir uma carga emocional forte. Talvez ela se aproxime muito mais do subgênero tragicomédia do que de qualquer outro.

É difícil não comparar Easy com Love (outra produção da Netflix que também tem um episódio dirigido por Joe). Ambas tem como ponto de partida as entrelinhas dos relacionamentos e apesar de Easy ter um formato diferente, ela fica bem abaixo de Love por não oferecer novidade nenhuma. Há certa simpatia em filmar o cotidiano, mas é necessário pelo menos mostrar onde você quer chegar com tudo isso.

easy-netflix-orlandoComo nem tudo são espinhos, os atores de Easy se sobressaem ao pobre roteiro e nos entregam um bom desempenho em tela. Orlando Bloom encarna o marido perfeito em busca de diversão a três enquanto Michael Chernus é o esposo desesperado em reacender o fogo da paixão no casamento.

Para mim o encaixe perfeito de roteiro, trama e atuações deu-se no quarto episódio denominado de Controlada. Basicamente conta a história de um casal mexicano que vive em Chicago e recebe a visita inesperada de um antigo amor da personagem Gabi, interpretada pela belíssima Aislinn Derbez.

O episódio é interessante porque consegue, mesmo que em poucos minutos, trabalhar bem seus personagens, com diálogos fortes capazes de criar certa tensão no público. Além disso, ele não passa impressão de estar escondendo algo em seu final. Ao contrário dos outros que você fica procurando significados filosóficos e que na maioria das vezes não querem dizer absolutamente nada.

O grande trunfo de Easy está em ter sido corajosa em mostrar sua identidade e servir como base para futuras produções. Também dá para aliviar o tédio assistindo o tédio dos personagens em cena.

Imagens: Netflix

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