Elle, nova série do Prime Video, tinha praticamente tudo para ser um dos lançamentos mais deliciosos do ano. Afinal, estamos falando do retorno de uma das personagens mais carismáticas da cultura pop, agora em uma história que mostra sua adolescência antes dos acontecimentos de Legalmente Loira.
Produzida por Reese Witherspoon, que eternizou a personagem nos cinemas em 2001, a série encontra uma protagonista extremamente carismática em Lexi Minetree, mas também esbarra em roteiros que raramente conseguem alcançar o brilho da franquia original.
O resultado é curioso. Elle nunca chega a ser ruim. Pelo contrário, há momentos divertidos, personagens simpáticos e uma protagonista fácil de acompanhar. O problema é que quase tudo parece ficar um passo antes de realmente se tornar memorável.
Uma boa ideia que fazia todo sentido
A decisão de transformar Elle Woods em protagonista de uma série prequel sempre pareceu acertada. Se, em Legalmente Loira, acompanhávamos uma jovem subestimada por sua aparência tentando provar que inteligência e feminilidade podem caminhar juntas, voltar alguns anos para mostrar como essa personalidade foi construída é uma evolução bastante natural da personagem.
Na nova produção, conhecemos Elle aos 16 anos. Interpretada por Lexi Minetree, ela vive uma adolescência perfeita na Califórnia até que um problema profissional envolvendo seu pai, Wyatt (Tom Everett Scott), obriga toda a família a abandonar Los Angeles e recomeçar a vida em Seattle. É então que conhecemos o principal conflito da série.
Acostumada ao sol, ao rosa, ao glamour e a uma vida praticamente sem obstáculos, Elle desembarca em uma cidade dominada pela cultura grunge dos anos 90, cercada por colegas que imediatamente a julgam apenas por sua aparência.
Quem assistiu ao filme reconhecerá imediatamente a essência da personagem: uma jovem otimista, extremamente gentil e constantemente subestimada.

Lexi Minetree é a melhor decisão da série
Se existe alguém que realmente faz Elle funcionar, essa pessoa é Lexi Minetree. Ser escolhida para interpretar uma versão jovem de uma personagem eternizada por Reese Witherspoon parecia uma missão praticamente impossível. Felizmente, a atriz entende que não precisa imitá-la.
Ela captura o mesmo entusiasmo, o mesmo carisma e aquele jeito quase irritantemente positivo que sempre definiu Elle Woods, mas acrescenta inseguranças próprias de uma adolescente que ainda está descobrindo quem deseja ser.
Não por acaso, Reese participou ativamente do desenvolvimento da produção e escolheu pessoalmente Minetree para o papel. A atriz revelou, inclusive, que manteve contato constante com a produtora durante as gravações, recebendo conselhos tanto sobre a personagem quanto sobre como lidar com a intensa rotina de filmagens.
Essa mentoria aparece em tela. Lexi nunca tenta ser uma cópia de Reese, mas sim entregar uma versão própria da personagem.
O grande problema está na escrita
Infelizmente, o roteiro não acompanha o talento de sua protagonista. Existe uma sensação constante de que cada episódio apresenta excelentes ideias, mas quase sempre para no meio do caminho.
A mudança da Califórnia para Seattle cria um contraste visual muito interessante, trocando os tons vibrantes de rosa e amarelo pelos verdes, marrons e cinzas característicos da cena grunge de 1995. É uma mudança inteligente, porque também simboliza o choque cultural vivido por Elle.
O problema é que, depois dessa ótima premissa, a série passa a recorrer aos clichês mais básicos possíveis de histórias ambientadas no ensino médio.
Há a garota popular que esconde segredos, o triângulo amoroso, o novo grupo de amigos improváveis, as humilhações públicas, os mal-entendidos e praticamente todos os elementos que já vimos dezenas de vezes em outras produções adolescentes. Nada disso seria necessariamente um problema, mas o problema é que quase nunca existe um toque realmente criativo.

Falta coragem em Elle para ser engraçada
Talvez a maior ausência em Elle seja justamente o humor.
Legalmente Loira sempre foi lembrado por diálogos rápidos, piadas inteligentes e uma protagonista que fazia qualquer ambiente ganhar vida. Já Elle parece constantemente satisfeita em apenas arrancar um sorriso discreto.
São inúmeras cenas que parecem preparadas para entregar grandes momentos cômicos, mas terminam de maneira surpreendentemente tímida. Os próprios pais de Elle ilustram bem isso.
Tom Everett Scott interpreta Wyatt como um pai atrapalhado e extremamente afetuoso, enquanto June Diane Raphael faz da mãe Eva uma socialite divertida e cheia de referências culturais. Os dois têm ótima química, mas o roteiro, porém, raramente aproveita isso.
Há potencial para diálogos memoráveis, mas quase tudo termina em falas apenas funcionais. E é essa a sensação acompanha praticamente toda a temporada.
Os personagens secundários nunca decolam
Outro problema é a dificuldade em tornar o restante do elenco realmente interessante. Enquanto Elle domina praticamente todas as cenas em que aparece, seus colegas de escola acabam parecendo versões bastante genéricas de arquétipos adolescentes.
O triângulo amoroso funciona mais pela simpatia dos atores do que pela construção dos personagens.
As discussões envolvendo ativismo, diferenças sociais e identidade também surgem diversas vezes, mas muitas acabam soando excessivamente didáticas, especialmente quando colocadas em um contexto de 1995.
Em alguns momentos, o texto utiliza expressões e debates que parecem muito mais conectados ao mundo atual do que ao período em que a série se passa. Isso quebra um pouco a imersão.

Ainda assim, Elle continua sendo uma companhia agradável
Apesar de todas essas limitações, existe algo que impede a série de desandar completamente: Elle Woods.
A personagem continua extremamente fácil de gostar. Seu otimismo nunca soa artificial, e a produção consegue preservar a principal mensagem construída por Reese Witherspoon há 25 anos: não existe absolutamente nenhuma incompatibilidade entre gostar de moda, vestir rosa, ser popular e também ser inteligente.
Conforme a temporada avança, Elle aprende que nem sempre fugir dos problemas é a melhor resposta. Ela amadurece, reconhece seus erros e entende que ser autêntica significa muito mais do que apenas manter sua identidade visual. Esse crescimento emocional funciona muito melhor do que praticamente todas as tramas paralelas.
No fim, vale a pena assistir a série mas com algumas ressalvas! Quem espera uma série tão espirituosa quanto Legalmente Loira provavelmente sairá decepcionado. Já quem procura uma produção leve, confortável e protagonizada por uma atriz extremamente carismática encontrará vários motivos para continuar assistindo.
Elle acerta ao preservar o coração da personagem criada por Reese Witherspoon e encontra em Lexi Minetree uma sucessora extremamente convincente. O problema é que sua escrita raramente acompanha esse talento. Falta ousadia, faltam diálogos realmente memoráveis e sobra a sensação de que a série poderia ter sido muito mais divertida.
Nota: 3,5/5.

