Emmy, Emmy, Emmy… pra que te quero?

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Na última quinta-feira (14/07), a Academia de Artes e Ciências Televisivas anunciou os indicados a 68ª Edição do Emmy. E como acontece toda vez que uma lista de indicados ou que uma premiação de uma das “Academias” – já que vamos falar das estatuetas, que sejam todas elas – é anunciada, a internet vem abaixo com discussões, opiniões, reclamações e toda sorte de coisas. É sempre mais… do mesmo.

De todas, esta é a parte mais trabalhosa de se ultrapassar do texto – e olhe que algumas das coisas que estão abaixo serão bem indigestas para alguns. Afinal, com este começo, fica parecendo que eu pretendo levantar mais um dos muitos manifestos sobre a desigualdade, as discriminações e o caráter elitista das indicações da Academia. E mesmo que eu concorde com cada um e todos esses pequenos itens que elenquei, não é a isso que me proponho.

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Recentemente, em “Talking for Clapping”, o mais novo stand-up (feito para e disponível na Netflix) de Patton Oswalt, o comediante disse algo que tem sido uma avaliação que eu atribuo recorrentemente a qualquer discussão que observo: tudo está mudando, mas tudo também está se tornando muito menos radical. E como não poderia deixar de ser, depois de observar por dois dias os desenrolares dos indicados e não-indicados ao Emmy 2016, a verdade do comediante se torna ainda mais verdadeira.

Foram-se os dias em que a maior preocupação do seriador deveria ser se este seria o ano em que Jack Shephard sairia da ilha, ou o quão complicadas seriam as 24 horas de Jack Bauer, ou até mesmo se este seria o último término/recomeço de Carrie e Big. Não se espera mais que o seriador se preocupe com realmente sentir, com experienciar a catarse da produção como um todo… não se espera se quer que o espectador saiba apreciar aquilo que está vendo; espera-se que ele esteja preocupado com gritar aos quatro ventos, espalhar por todas as redes sociais, esfregar na cara de todos algo superficial sobre aquilo que ele “viu”.

E, em tempos de premiação, esta epidemia de fanatismos se torna ainda pior. Sim, eu sei – e, como cinéfilo, sei há muito tempo – que as Academias são injustas, elitistas, que supervalorizam o valor comercial e tantos outros fatores que a cada dia mais são sinônimo de certa babaquice pseudointelectual. Sim, eu acredito que Tatiana Maslany, Viola Davis, Robin Wrigh e tantas outras merecem não só indicações, mas suas estatuetas. Também acho que Eva Green, Patti LuPone, Mads Mikkelsen e outros tantos foram injustiçados em detrimento de outros grandes, mas não tanto. Mesmo assim, no fim do dia este não é um problema grave, não é se quer um problema real.

O legado já escrito e finalizado de Penny Dreadful e Hannibal, assim como o legado ainda sendo escrito de Bates Motel (que não pode reclamar tanto, mas pode mesmo assim) e da excelente parceria Marvel-Netflix não perdem em nada, isso mesmo, em nada por não estarem listados entre os alegados “melhores”. Da mesma forma, Game of Thrones (e todas as suas não-tão-merecidas-assim 23 indicações), Modern Family e até a queridinha The People v. O.J. Simpson: American Crime Story não têm acrescidas a si ou a obra que construíram/constroem uma grama se quer só por serem as meninas-dos-olhos de um clubinho bem elitista.

É claro, no fator comercial, ser indicado e levar uma estatueta para casa pesa e muito na balança do futuro da série. Mas como este é um problema separado, é melhor nem descermos por esta ladeira. E no que toca ao reconhecimento… este é o argumento mais risível de todos, porque é mais uma evidencia de problemas de valores sociais que enojam quem os olha muito de perto. Se as estatuetas fossem reconhecimento, seriamos nós, e não uma Academia, a decidir quem reconhecer. Afinal, o público para quem as obras que são “reconhecidas” são projetadas somos nós.

Não pretendo levantar revoltas, muito menos lutar contra uma maré construída e preservada por muito mais do que o tempo de seriador que eu tenho. Apesar das palavras rápidas e duras, não pretendo lutar ou participar da comoção normalizada que as premiações clamam. Quando se percebe que toda obra é muito mais do que qualquer rótulo, qualquer lista, qualquer prêmio… quando paramos de desperdiçar o precioso tempo que temos para apreciar nossas séries com disputas e reclamações sobre essas coisas e, mais ainda, quando paramos de atribuir a importância que elas demandam para continuar a existir, aí sim efetuamos mudança. Enquanto continuarmos a pintar essas miudezas como verdades titânicas, elas continuarão aí, para assombrar a todos nós.

Então, sim, podemos, e em alguns casos, devemos nos revoltar. Devemos fazer esta e aquela queixa, porque talvez seja não a melhor, mas é a ferramenta que temos a nossa disposição. Entretanto, parar de procurar novas ideias, novas ferramentas… continuar a valorizar uma opinião ao invés de nos importar com a qualidade, os rumos e a real emoção produzida por aquilo que nos propomos a assistir, isso é tão ruim quanto esquecer todos os méritos daqueles cujas ausências foram notadas e devidamente reclamadas.

Mas quando chegamos aos finalmentes, justiças e injustiças serão sempre cometidas quanto se é preciso traçar uma linha, montar uma lista ou distribuir um prêmio. Sendo assim – e para terminar este já longo post – vamos deixar todas essas coisas de lado e dar play no próximo episódio. Quem sabe a próxima temporada não será mais justa divertida? Afinal, não é um prêmio – ou a falta dele – que mudará a sua opinião sobre as suas séries favoritas, so who cares?

Richard Gonçalves

Richard Gonçalves

Estudante de Letras, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em séries desde sempre. Fã de carteirinha de Doctor Who, House, Battlestar Galactica, Sherlock, 24 Horas, The Borgias, Penny Dreadful, E.R. e Lost. Aqui no Mix de Séries é editor de reviews, além de escrever as reviews de Marvel's Jessica Jones, Marvel's Agents of S.H.I.E.L.D. e The Originals.

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