Entre universos e Tulipas Brancas: Fringe

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Certa vez, em um curto parágrafo sobre Fringe em um post especial, comentei sobre o fator humano da série. Ficção científica e efeito visual nenhum vai funcionar sem este pequeno detalhe. Se não nos importarmos com os personagens, todo o projeto está condenado. Lost, Battlestar Galactica, Firefly, todas funcionam e são inesquecíveis pois contam com uma galeria de personagens e um elenco admirável. São as pessoas, no fim, que ficam na memória, que fixam na história. E Fringe tem personagens inesquecíveis. Quando um fã diz que ama Olivia, Walter, Peter ou Gene, não duvide; todos são tão bem desenvolvidos e os laços criados são tão fortes que é impossível não se aproximar e admirar aquele grupo. Universos paralelos, versões alternativas de coisas e pessoas (há mais de um de tudo), passado, presente, futuro, conspirações, viagem no tempo, tudo é pano de fundo para as relações interpessoais.

Quando lançada em setembro de 2008, parte da crítica e do público torceu o nariz. A televisão andava na ânsia de recriar o sucesso de Lost, e toda nova ideia era, também, a “nova Lost”. No fervor de uma TV que crescia sem parar e no ápice da TV aberta, Fringe agradou, mas também afastou aqueles que queriam algo mais “pé no chão”, com menos perguntas e mais preto no branco, respostas na cara. O fato é que todos se enganaram, e ainda se equivocam, quando associam Fringe a Lost, só pelo viés da ficção e por um dos produtores ser o mesmo. O ponto é que Fringe está mais para The X-Files do que para qualquer outra coisa.

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Fringe, aliás, já foi ao limite da homenagem e referência, chegando a desenvolver episódios semelhantes aos da série clássica. Ainda assim, Fronteiras, como foi chamada no Brasil, sempre primou pela originalidade. Sem querer facilitar a vida dos espectadores, a série nunca subestimou a inteligência de seu público. Quem queria respostas tinha que prestar atenção ou debater na internet sobre teorias e interpretações. Aliás, se tem algo que liga Arquivo X, Lost e Fringe isso é a capacidade de mobilizar os fãs a discutirem em fóruns suas ideias e percepções mais absurdas. Cada episódio era uma viagem diferente, cada season finale era um mindfuck incomparável.

Fringe-cast-03Outra qualidade inquestionável de Fringe, e que a distingue dentre tantas outras, é que a série teve cinco temporadas regulares, sem deixar o ritmo e a qualidade cair em nenhum momento. Além disso, o programa sempre teve uma capacidade elogiável de se renovar. A maior prova é a temporada final, diferente de tudo que havia sido feito até então. Por falar na temporada derradeira, é impossível não citar a series finale como uma das provas do fator humano. Depois de muita ação, aventuras, teorias e respostas, o final foi calcado no amor e na empatia. Não é à toa que o símbolo da série seja uma Tulipa Branca, uma flor única, difícil de ser encontrada. Delicada, a tulipa representa todo o amor envolvido na história. Um amor que atravessa tempo e universos. O lado de cá e o de lá da televisão.

O que falar de Walter, brilhantemente interpretado por John Noble. O ator, injustamente esnobado pelo Emmy, injetou uma dose considerável de loucura e outra de ternura em um dos personagens mais queridos que tive o prazer de conhecer. Seu amor e dedicação para com o filho, Peter, e seus amigos, é comovente. Seu lado infantil, sua inteligência e seus erros (era tão difícil falar Astrid?) fazem o personagem único. Olivia, a bela e decidida agente do FBI, apresentou Anna Torv ao mundo, uma atriz, aliás, que merecia muito mais espaço que tem atualmente. E ainda temos Peter, vivido por Joshua Jackson em um papel sério, adulto e cheio de mágoas, diferente de seu papel em Dawson’s Creek. Ainda temos Broyles, Nina Sharp, September, Astrid e, claro, o lendário Leonard Nimoy como Willam Bell.

Em toda a sua trajetória, Fringe sempre entregou episódios emblemáticos. Entre os que mais se destacam temos, Peter, onde descobrimos a verdade sobre o personagem, White Tulip, todas as finales, There’s More Than One of Everything, Over There, The Day We Died, Brave New World, e muitos outros. Todos com um produção caprichada, com destaque à fotografia cinematográfica, aos efeitos e à impressionante maquiagem. Tudo costurado, volto a falar, por um roteiro inteligente, uma mitologia complexa e bem construída e, claro, o fator humano. Fringe é, embora muitos não enxerguem, uma das séries mais importantes e resistentes dos últimos anos. Correndo riscos de cancelamento a cada temporada, a série era renovada com base em duas coisas inestimáveis: a qualidade do programa e a fidelidade dos fãs que não abandonavam a série por nada. Se há um bom exemplo de série defendida e venerada por fãs, que a levaram adiante apesar das dificuldades, Fringe é um dos melhores.

O fato é que Fringe é uma das “séries da vida”. Deste e de qualquer outro universo.

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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