Episódios… demais?

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Ah, como essa época do ano é fantástica… Um novo ano acaba de começar para a TV, o pavor dos cancelamentos trazido pelo UpFront já foi substituído pela ansiedade (e medo!) pela chegada de uma nova Fall Season cheia novas surpresas, revivals muitos deles que não deveriam acontecer e toda uma nova safra de TV que, provavelmente esbarrará no mesmo problema que as estreias que as precederam: o excesso de episódios.

O Contexto

É muito (muito mesmo) comum, por razões bem óbvias, que as emissoras, ao encomendarem novas produções, o façam em “parcelas”. Produtores são designados, um piloto é escrito, submetido e, com sorte, aprovado. Não entediarei vocês com as muitas partes que antecedem a chegada desse piloto ao público, porque é aqui que a coisa fica interessante. Sendo aprovado, o piloto e um conjunto de nove~doze outros episódios vai ao ar, e aí, como todos sabemos, audiência, recepção do público e a vontade dos executivos da emissora vão determinar o futuro da(s) temporada(s) da série, que pode ou não chegar a uma temporada “completa”, com até 22, 24 episódios – discutiremos isso logo abaixo – embora nem sempre tenha sido assim. A TV já foi um lugar em que as séries não se organizavam por seasons e temporadas, mas em arcos que poderiam ter 40 (e até mais) – como vimos, por exemplo, na série “clássica” de Doctor Who – episódios. Fun fact deixado de lado, assim como o formato de arcos eventualmente entrou em decadência (porque acompanhar um bloco de 40 episódios é uma tarefa Hercúlea), a temporada “completa” se aproxima cada dia mais dessa condição de falência.

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O Problema

Como Chris Anderson, presidente e curador das famosas TED Talks, apontou repetidas vezes, o limite de atenção dos telespectadores diminui exponencialmente ano após ano, e isso não é válido só para palestras, mas é uma constante muito real quando pensamos nas séries que tanto amamos. Fica cada dia mais difícil, seja pela atenção, pela falta de tempo, pelo excesso de séries na grade (quem nunca?) e por um sem-número de outras coisas, acompanhar tramas que se estendam por vinte e tantos episódios. Mais ainda, fica mais difícil, do lado de lá da coisa, produzir e manter tramas com real qualidade que possam se estender por esse período tão grande. E embora o aumento de fillers e tramas que fazem assistir essa ou aquela série questionável não seja um fenômeno presente somente em séries com temporadas “completas”, é impossível negar que é mais complicado evitar falhas de roteiro grotescas quando se tem 22~24 episódios para preencher.

Então, o que fazer?

O caráter utópico das minhas linhas é claro até e principalmente para mim. É ridículo imaginar que a TV vá, por ser uma indústria tão capitalista quanto qualquer outra, adotar temporadas menores, simplesmente para que a dicotomia quantidade X qualidade seja desfeita com a qualidade vencendo. Besides, quem não ama assistir até mesmo os episódios ruins das séries que se gosta? Então, nesse ponto, você deve se questionar qual o propósito de tudo isso. É simples: cada dia mais, (pelo menos quando desconsideramos o fator lucro) a atenção do telespectador e a repercussão que esses telespectadores, que esse fandon consegue causar (graças ao poder quase que infinito do social media), aumenta. Cada dia mais, o telespectador sabe se ele assistirá ou não, se ele quer ou não acompanhar a trama de maneira mais instantânea. E sim, algumas produções precisam de mais espaço para desenvolver suas propostas, mas se, com suas superproduções, a Showtime, a HBO e o Netflix nos ensinaram alguma coisa nos últimos anos, é que é possível sim fazer estórias sólidas com treze e até menos episódios.

Então, como seriadores, cabe a nós também pensar e questionar um pouco mais sobre aquilo que assistimos, e sobre o quanto daquilo que assistimos realmente estamos dispostos a assistir. Seja ficção, drama ou comédia, o seriador procura melhor qualidade a cada dia que passa, e nem sempre mais episódios significa episódios melhores. A TV é um lugar de possibilidade quase infinita, e embora lucro e orçamento sejam forças a serem reconhecidas, se contentar com a TV que temos nunca foi uma saída válida. Se conseguimos fazer a TV abandonar formatos, se reformular e – mesmo tendo se acomodado no quesito criatividade nos últimos anos – incluir em suas fileiras temas que, há alguns anos atrás seriam inconcebíveis, também somos capazes de esperar e pedir mais dessa TV, de findar (ou pelo menos reduzir, sejamos realistas, “acabar” é pedir demais por hora) a quantidade de episódios que desperdiçam nosso já limitado tempo.

No fim, mesmo que não sejamos nós a fazer todas as decisões que ditam o formato daquilo que vemos, aquilo que vemos é produzido pensando no horizonte de expectativa que nós projetamos. A TV é um lugar de insanidade, porque no fim do dia, nós esperamos exatamente isso dela. Por que, então, a TV não pode ser um lugar em que quantidade de dinheiro a se lucrar com um número enfadonho de episódios não seja mais uma palavra de ordem?

Enfim, mais um ano da TV começa a dar seus primeiros passos, e embora estejamos aproveitando o marasmo da Summer Season, a Fall Season logo chegará. E, mesmo que parcialmente, não devemos esquecer o quanto somos responsáveis pelo que ela trará. Pensem nisso. Au revoir!

Richard Gonçalves

Richard Gonçalves

Estudante de Letras, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em séries desde sempre. Fã de carteirinha de Doctor Who, House, Battlestar Galactica, Sherlock, 24 Horas, The Borgias, Penny Dreadful, E.R. e Lost. Aqui no Mix de Séries é editor de reviews, além de escrever as reviews de Marvel's Jessica Jones, Marvel's Agents of S.H.I.E.L.D. e The Originals.

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