Escritora de Grey’s Anatomy rebate negação de Brett Ratner sobre acusações de assédio

Imagem: Twitter/Reprodução; Kerry Brown/Divulgação

Depois de falar sobre suas próprias experiências com assédio sexual e moral no ambiente de trabalho e elucidar o outro lado da indústria dominada por Harvey Weinstein num artigo poderoso para The Hollywood Reporter, a showrunner de Grey’s Anatomy, Krista Vernoff, escreveu uma nova coluna na revista desta vez para derrubar, ponto a ponto, as negações feitas pelo diretor Brett Ratner à luz das novas acusações de assédio sexual contra ele.

As novas arguições contra Brett, que vão desde assédio e estupro até o oferecimento de dinheiro em troca de sexo e propostas a moças menores de idade, foram trazidas numa nova reportagem do Los Angeles Times publicada no último final de semana. Como toda qualquer matéria jornalística, entretanto, tal matéria trazia negações cuidadosamente articuladas pelos representantes do diretor.

Nós traduzimos tal coluna na íntegra.

Continua após a publicidade

É possível que desta vez tenha sido especial por causa da seriedade das acusações contra Ratner, mas ao meu ver as negações são tão absurdas que elas me lembraram um antigo pensamento de Billy Madison [em referência a Billy Madison: Um Herdeiro Bobalhão, longa de comédia lançado em 1995] – ‘Sr. Madison, o que você acabou de dizer foi uma das coisas mais insamente idiotas que eu já escutei… Todos nessa sala se tornaram um pouco mais burros por terem escutado. Eu lhe concedo alguns pontos e que Deus tenha piedade da sua alma“.

Aqui em Hollywood, muito de nós pensamentos todos os dias sobre, digamos, a situação de Trump e Roy Moore [candidato ao Senado pelo estado do Alabama e pelo Partido Republicano acusado de pedofilia e entre outras coisas], mas para muitos de nós ficara de longe observando esse tipo de insanidade – aquela que se perpetua através de mitos danosos e que torna o mundo um pouco mais estúpido e menos seguro para mulheres no ambiente de trabalho – acaba tomando conta da nossa indústria. Então, para oferecer outra perspectiva, aqui está a minha negação ponto por ponto de alguma das mais recentes defesas.

Para deixar claro, eu nunca encontrei com Brett Ratner ou seu advogado Marty Singer. E isso nem é sobre Singer ou Ratner. É sobre todos os absurdos ditos pela nota de Singers em defesa dos Ratners às custas de mulheres em todos os lugares. Aqui vai alguns comentários nos pontos publicados pelo Los Angeles Times.

“Em defesa do Brett, eu tenho certeza que ele não é o único homem heterossexual que flerta com mulheres no set.”

Ele detém todo o poder no set. Brett Ratner detém Todo. O. Poder. E ele não está sendo acusado de “flertar com mulheres.” Ele está sendo acusado de oferecer posições importantes para atrizes em troca de favores sexuais. Totalmente diferente. Um homem hétero flertando como uma mulher, digamos, num bar, é um comportamento natural e saudável. Um homem que tem todo o poder num set e se aproxima de outras mulheres que não têm nem puder e são cortejadas a ir num banheiro e transar com ele, tocar no seu pênis ou mostrar seus peitos em troca de uma promoção é algo cruel, sádico e abuso de poder que não tem nada a ver com sexo. Confundir os dois com o propósito de defender o seu cliente prejudica a sociedade. Prejudica homens e mulheres e particularmente jovens que lêem ao Los Angeles Times.

“O filme obviamente já estava com seu elenco fechado e já estavam filmando, então a ideia de que existia alguma discussão de tirar a moça num papel importante é ridícula,”

Hmmm…sério mesmo?

Mês passado, em Grey’s Anatomy, eu estava assistindo um ensaio e eu decidi que eu precisava de alguém além dos meus médicos para dizer, “eu conquistei”. Eu me virei para a diretora, Debbie Allen, e disse, “Nós precisamos promover algum dos figurantes”. Eu não disse muito baixo porque um grande número de pessoas que estavam cuidando de gravações futuras viraram-se e começaram a olhar pra mim. Uma promoção é algo bastante significativo para um daqueles que estão começando. A diferença está entre fazer cem dólares por dia e fazer centenas de dólares num dia único de trabalho. É uma das razões que fazem com que um ator seja garantido ao Sindicato dos Atores. Algumas promoções e você se torna elegível para se tornar membro, o que é tudo para quem está começando. Uma promoção significa muito para um artista comum – e promoções podem acontecer num único dia em Hollywood.

Agora, imagine que eu tenha estudado todos aqueles rostos esperançosos, eu tenha me aproximado de um deles e requisitado que me acompanhasse até o banheiro, ficasse pelado e me mostrasse sua genitália para que pudesse ganhar um aumento. Esse é o tipo de acusação contra Ratner por um grande número de mulheres. Eu não posso falar por todas e dizer que ele fez ou não fez, mas quando seu advogado refuta as acusações chamando-as de “absurdo”, “não existentes” e ridículas” porque o “filme já estava fechado e estavam filmando” eu não posso, em boa consciência, deixar que isso prossiga sem desafiar. Porque é ridículo. Eu sei que esses advogados e relações públicas têm um trabalho a fazer  tudo mais, assim como essas figurantes. Eles querem trabalhar e estão prontas para isso. Será que alguém chegou perto de você no seu trabalho e pediu para que você mostrasse suas genitais em troca de uma promoção? Não? Então ele tornará sua vida um inferno.

“No set de A Hora do Rush 3, Sarah Shahi, 37, diz que em várias ocasiões, Ratner se aproximou por trás, pressionou seu corpo contra o dela e fez vários comentários sexuais.”

“Ratner, através do seu advogado Marty Singer, “Veementemente nega” as alegações de Shahi, ressaltando seus recentes contatos e providenciando cópias e emails em que ela se refere a ele como “docinho” e que se despedem com abraços e beijos. Essas contradições tornam tais acusações improváveis.”

Tudo bem, vamos falar das vastas contradições. Quando meu showrunner poderoso me perguntou, numa sala cheia de pessoas, se eu era boa de cama, eu o convidei para meu casamento. Nós mantivemos contato. Eu assinei emails com meus colegas sendo o mais cordial possível. Porque? Pois eu estava lidando com homens poderosos que mesmo sendo abusivos, poderiam fazer com que eu sumisse do mapa. O primeiro instinto, quase sempre, é ser o mais graciosa possível e seguir em frente. E muitas vezes nosso instinto é de minimizar o abuso que nós passamos e fazer com que nosso trauma não seja o foco principal do nosso trabalho. E sim, abusadores constantemente tem atributos positivos relacionados a humanidade básica. Estupradores e predadores sexuais têm grandes mentes e podem até ser artistas. Quando uma mulher é machucada, quase sempre ela acaba atraindo seu abusador ainda mais perto. É psicologia básica. E quando uma mulher é machucada por alguém poderosos como Brett Ratner nessa cidade, ela não tem nada a ganhar por torna-lo seu inimigo e muito a perder. Então quando ela entra em contato com ele, será o mais doce possível.

Quando o abuso está acontecendo e a mulher tem um trabalho a fase, ela quase sempre “segue em frente”. Por exemplo, eu estava agachada provando minha bota numa festa do trabalho quando um chefe muito bem casado de um grande estúdio – que ao final do dia seria o responsável por decidir sobre a produção ou não do piloto que eu estava fazendo – agarrou minha cintura, me trouxe para trás e em seguida disse sussurrando, “Estaria errado em dizer que essa sua posição é dos meus sonhos?” Eu levantei rapidamente, dei uma risada estranha e disse, “Hmm, como um lembrete amigável, eu não bebo então eu vou me lembrar disso tudo amanhã”. Ele gaguejou e em seguida rimos. Foi algo que aconteceu uma única vez, estávamos numa festa do trabalho, todos estavam bêbados, eu não me senti ameaçada, foi tudo muito nojento. Mas imaginem que esse tipo de comportamento tivesse continuado e eu eventualmente ter denunciado? Ele certamente teria mostrado os emails cordiais que trocamos diversas vezes.

Indo um pouquinho além um amiga meu recentemente me disse que depois que ela perdeu a virgindade por um namorado estuprador na adolescência, ela em seguida fez sexo consensual com seu predador, da mesma maneira que Asia Argento fez com Harvey. Porque? Ela me disse que sua lógica à época foi, “Se eu conseguir vê-lo como meu namorado, quem sabe eu não possa superar toda essa situação”. É claro que os homens não escutam essas histórias frequentemente. Nós mulheres ajudamos umas as outras. Mas eu penso que é hora de deixarmos todas falar e não desacreditar mulheres abusadas por pontos de “contradições”.

Em resposta as acusações de que Ratner e seu colega James Tobback convidaram modelos para uma festa na sua casa para que pudessem abusa-las: “Singer diz que alegação de que a Hilhaven Lodge era usado para comportamento inapropriado…..’não se enquadra com o fato de que há muitas pessoas ao redor e que poderiam fazer alguma reclamação ou conduta inapropriada que tenha acontecido.'”

Risos, na verdade MUITOS RISOS. Essa foi simplesmente absurda. Se eu não tivesse quase engasgado com meu café de tanto rir, eu teria gritado.

Quando eu estava com 20 anos e estava andando por uma daquelas festas grandiosas em Hollywood. Essa história não é daquelas do tipo de De Olhos Bem Fechados. Era uma festa num bar da Sunset Trip. Ninguém estava sequer dançando. As pessoas estavam bebendo e flertando umas com as outras. Como você faz numa festa normal. Exceto por um diretor muito poderoso e conhecido. Ele estava fazendo sexo oral ali mesmo, enquanto outras mulheres passavam ao redor e ele olhava e flertava com elas. O ato em si era extremamente agressivo e horrível para todas aquelas pessoas que estavam na sala. Eu virei para meu amigo e perguntei, ‘É realmente quem eu estou pensando?’ E ele disse – “Sim, ele faz todo o tipo de coisa. Ninguém dá muita importância”.

Ninguém dá muita importância.

Se bastante dinheiro pode tornar um diretor tão poderoso que todos olham para o lado num bar na  Sunset Strip, imaginem o que acontecia naquela festa que ele era o dono. Agora imagine essas jovens modelos tentando reportar qualquer abuso ao responsável pelo lugar, ou ao melhor amigo dele que, talvez, ela tenha sido abusada no banheiro.

E antes que qualquer advogado e relações públicas possam dizer que “O que elas estavam fazendo naquela casa e naquele banheiro para começo de conversa?” Por favor, me permitam a dizer o seguinte:

Nós moramos e trabalhamos numa cidade que negócios e atividade social andam lado a lado e geralmente dependem uma da outra.

Eu lembro quando eu estava nos meus vinte anos com grandes sonhos em me tornar uma roteiristas e fazer amizades e conexões com colegas homens heterossexuais que vinham até mim para dizer, “Nós vamos para minha casa assistir um documentário que meu amigo fez. E você sabe o que acontecia em seguida? Nós íamos para casa dele e….assistíamos ao documentário! Quer saber porque? Porque essa cidade está cheia de homens bons que são artistas e pensadores e não são estupradores e éramos jovens e a vida era boa.

Eu lembro fazer a mesma coisa no mesmo período em Nova York. Eu lembro em me juntar a um grupo de jovens artistas para ir ao apartamento de Ethan Hawke. Ethan Hawke era famoso e ter um convite dele era algo que me deixava muito entusiasmada. Eu parei e pensei que esse convite poderia estar carregado de alguma forma? Não, em nenhum momento. Será que eu fui ingênua em aceitar o convite? Eu não acredito. Porque você sabe o que aconteceu quando eu cheguei lá? As pessoas estavam bebendo vinho e whiskey, ficaram sentadas durante todo o tempo e conversavam sobre arte, teatro, poesia, música e as possibilidades da vida. E muitos desse jovens artistas estavam trabalhando e envolvidos em projetos ótimos. Para muitos de nós, essas reuniões sociais eram essenciais para reunir e construir contratos. Eu lembro de ter me encontrado com o escritor Jonathan Marc Sherman numa dessas festas e percebi que pessoas da minha idade estavam se dando bem escrevendo roteiros. Foi sensacional pra mim. Esses momentos, essas trocas, mudaram o curso da minha carreira.

Jovens mulheres não esperam ser assediadas ou estupradas quando aceitam ir até a casa de um colega de trabalho – mesmo que o colega é um homem poderoso. Não é ingenuidade em acreditar que homens bons existam e aceitar um convite baseado no que se acredita, ou até mesmo na admiração que se tem por esses homens. Deve-se ir sem escutar que ao aceitar um convite para uma confraternização social nessa cidade ou qualquer outra, você deve esperar que sua genitália seja violada.

Eu acredito que durante todo o tempo que esses estupradores continuarem a fazer sucesso e negócios nessa cidade, ainda existirão advogados e relações públicas criando esses tipos de histórias, e eles estão fazendo o trabalho deles – assim como eu. Quando eu recebo um roteiro ruim e cheio de mentiras, estereótipos, é do meu ofício descartar aquela ideia, anotar coisas positivas e quando estiver mal escrito, fazer novamente.

Avatar

Bernardo Vieira

Catarinense e estudante de direito. Escrevo sobre entretenimento desde 2010, mas comecei com política internacional depois da campanha americana de 2016. Adoro uma premiação e um debate político, mas sempre estou lendo ou assistindo algo interessante. Quer saber mais? Me pague um café e vamos conversar.

No comments

Add yours