Nos últimos anos, o cinema tem voltado seus olhos para a saúde mental dos adolescentes, mas nem todas as produções conseguem tratar esse tema com a delicadeza que ele exige. Muitas acabam recorrendo ao melodrama ou transformando o sofrimento em espetáculo. Eu Antes de Mim, novo filme indonésio da Netflix dirigido por Gina S. Noer, segue o caminho oposto. Em vez de buscar respostas fáceis, constrói um drama sensível sobre as marcas invisíveis deixadas dentro de uma família.
A história acompanha Jati, um estudante brilhante que sempre buscou atender às expectativas do pai. Quando um trabalho escolar sobre sua árvore genealógica o obriga a investigar o passado da própria família, ele passa a enxergar sua relação com o pai sob uma nova perspectiva. Aos poucos, percebe que a pressão para ser perfeito não nasceu apenas da rigidez paterna, mas de um ciclo de dores e expectativas que atravessa gerações.
É uma premissa simples, mas suficiente para desenvolver uma narrativa que fala sobre ansiedade, identidade e a dificuldade de romper padrões familiares que parecem se repetir indefinidamente.
O maior acerto está na forma como trata a saúde mental
Desde os primeiros minutos, Eu Antes de Mim deixa claro que seu interesse não está em apresentar um grande acontecimento, mas em observar pequenas situações cotidianas que, acumuladas ao longo dos anos, acabam moldando a vida de uma pessoa.
Jati vive constantemente pressionado a obter resultados impecáveis. Seu pai acredita que disciplina e excelência acadêmica são demonstrações de amor e preparo para o futuro. No entanto, o filme mostra como esse excesso de cobrança produz justamente o efeito contrário: ansiedade, esgotamento emocional e uma sensação permanente de nunca ser bom o suficiente.
O mérito do roteiro está em tratar esse processo sem recorrer a discursos didáticos. A angústia do protagonista aparece nas pequenas reações, nos silêncios e na dificuldade em expressar aquilo que sente. E isso torna sua jornada extremamente reconhecível para muitos jovens que cresceram acreditando que seu valor depende exclusivamente do desempenho escolar ou profissional.
O trauma geracional ganha uma abordagem humana
Embora acompanhe principalmente Jati, o filme evita transformar seu pai em um simples antagonista. Essa talvez seja sua decisão mais interessante. À medida que o protagonista descobre mais sobre a história da própria família, fica evidente que aquela rigidez também nasceu de experiências traumáticas vividas pela geração anterior.
Sem justificar comportamentos nocivos, Eu Antes de Mim mostra como o sofrimento não resolvido costuma ser transmitido de pais para filhos de maneiras quase imperceptíveis. O silêncio, o medo de fracassar e a dificuldade em demonstrar afeto acabam se tornando heranças emocionais tão presentes quanto qualquer tradição familiar.
Essa abordagem impede que a narrativa caia em julgamentos simplistas. Em vez de dividir seus personagens entre vítimas e culpados, o roteiro prefere lembrar que pessoas machucadas frequentemente machucam outras sem sequer perceber. É justamente essa humanidade que torna o conflito tão convincente.

Gina S. Noer encontra esperança mesmo ao falar de dor
Outro aspecto interessante da direção é a recusa em transformar Eu Antes de Mim em uma experiência totalmente pessimista. Embora aborde ansiedade, traumas familiares e conflitos entre pais e filhos, o filme nunca transmite a sensação de que essas feridas são irreparáveis. Existe espaço para diálogo, compreensão e crescimento.
Essa esperança não surge de soluções milagrosas, mas da ideia de que reconhecer o passado já representa um primeiro passo importante para interromper ciclos de sofrimento. Ao mesmo tempo, a diretora também lembra que pais nem sempre são vilões. Muitas vezes, são apenas pessoas tentando fazer o melhor que conseguem, mesmo carregando cicatrizes que nunca aprenderam a enfrentar.
Essa visão torna o filme emocionalmente muito mais maduro.

Apesar de seus inúmeros acertos, Eu Antes de Mim demonstra certa dificuldade em equilibrar todos os temas que pretende abordar.
Além da saúde mental e do trauma geracional, o roteiro também toca em questões ligadas ao contexto sociopolítico da Indonésia. O problema é que algumas dessas discussões acabam surgindo de maneira superficial e não encontram tempo suficiente para amadurecer.
A direção sensível de Gina S. Noer, aliada às ótimas atuações de Bimasena e Ringgo Agus Rahman, constrói uma história que prefere compreender seus personagens em vez de julgá-los. Ao explorar como expectativas excessivas, traumas familiares e dificuldades de comunicação podem atravessar gerações, o longa encontra uma relevância que ultrapassa qualquer contexto cultural específico.
É um drama delicado, emocionante e bastante humano, que merece atenção de quem procura uma história capaz de provocar reflexão sem abrir mão da esperança.


