Feud – 1×02 – The Other Woman

Imagem: Arquivo Pessoal

“Sabe quanto poder as mulheres tinham naquela época? Exatamente o que temos agora: nenhum”.

The Other Woman“, apesar de ter sido delicioso, foi um episódio difícil de assistir. Foi simplesmente inevitável não se enraivecer com as ações de Robert Aldrich e Jack Warner, aqui muito bem representados por Alfred Molina e pelo sempre magnifico Stanley Tucci, respectivamente. A forma como ambos manipularam Bette e Joan, para elas brigarem uma com a outra e, como consequência, trazer mais publicidade e faturamento para o filme, foi de partir o coração. Pior, eles justificarem tais atos asquerosos como uma tentativa de as atrizes trazerem aquela rivalidade da vida real para as telas, fazendo assim um trabalho “melhor”… foi revoltante, foi nojento!

A frase que está acima do parágrafo anterior foi dita por Joan Blondell em uma das linhas temporais em que a série se passa, porque até o momento, Feud possui duas. Uma é durante o inicio da década de 60, enquanto vamos acompanhando Bette e Joan durante as filmagens do filme O Que Terá Acontecido em Baby Jane?, e a outra é em 1978, durante uma especie de documentário, com as atrizes Joan Blondell e Olivia de Havilland, ambas amigas de Bette Davis, que na série são interpretadas pelo meu amor Kathy Bates e por Catherine Zeta Jones, respectivamente. E percebam que de 1960 a 1978 é dito que nada daquilo mudou, que as mulheres continuam sem nenhum tipo de poder em Hollywood e essa é uma frase que, grosseiramente, ainda podemos aplicar nos dias de hoje. Grosseiramente porque não podemos dar contornos excessivamente dramáticos a uma situação, que por si só, já é delicada. Daquele tempo até os dias atuais as mulheres, de fato, conseguiram avançar na indústria, tanto na frente, como por trás das câmeras. Entretanto, isso ainda não é o que podemos definir como igualdade, já que comparado aos homens, elas ainda estão bastante atrás.

Por abordagens e visões assim que defendo sempre o trabalho de Ryan Murphy, seja em Feud ou em qualquer outra série. Ryan é o tipo de produtor que não tem medo de meter o dedo na ferida, suas visões são cruas e realistas, ele passa um olhar totalmente escancarado dos sofrimento das minorias, seja em Hollywood ou em qualquer outro lugar. A sua visão sobre igualdade está presente até nos mínimos detalhes. Feud possui duas protagonistas, e Ryan honra isso até nos créditos de abertura. Percebam que na abertura do primeiro episódio o nome de Jessica Lange foi creditado primeiro e, na abertura desse segundo episódio, a primeira a ser creditada foi Susan Saradon, com as atrizes assim se revesando até na abertura dos episódios, genial não é?

Continua após a publicidade

Ainda sobre a abertura, ela também é uma obra de arte, com Bette e Joan na figura de marionetes, sendo controladas por um homem que fuma um charuto – numa clara referência aos donos de estúdios hollywoodianos. Outra imagem icônica é a de um homem chutando uma mulher com o letreiro de Hollywood no fundo, mostrando para todos, o que acontece na indústria com as mulheres quando elas deixam de ser um sex symbol… são descartadas, como meros objetos.

Na review anterior, teve um comentário muito pertinente sobre esse assunto, a respeito de uma cena do primeiro episódio. A cena em questão é onde Bette e Joan assistem as primeiras tomadas de Baby Jane e, vendo aquilo, elas choram e sofrem silenciosamente. E isso se deve ao fato de que, naquele momento, elas tiveram a comprovação de algo que elas já sabiam: que suas carreiras tinham acabado, que elas nunca mais teriam papeis glamourosos como no passado, pelo simples fato de que elas estavam velhas e isso é um fato que Hollywood não perdoa.

Com as atuações, não existem palavras a serem escritas. Jessica Lange é estupenda e, por mais que haja críticas a respeito de sua performance não honrar o espirito viril de Crawford, eu considero sua atuação na medida. Lange consegue passar aquele ar de requinte que Joan tinha, bem diva mesmo. Mas assim como Bette Davis em Baby Jane, Susan Saradon rouba a tela para si quando está em cena. A atriz que já havia, literalmente, roubado os holofotes na semana passada, repetiu esse feito novamente e caminha para ser o grande destaque do elenco repleto de estrelas. Ela está maravilhosa e acho assombroso o fato de que até sua voz está parecida com a de Davis. Susan é, sem dúvidas, a do elenco que mais lembra a pessoa que está sendo interpretada.

Com tudo isso, Feud segue arrebatadora em sua narrativa. A série possui uma força, uma delicadeza e uma qualidade, até o momento, inabalável. É importantíssimo ver tal trama ganhando esse espaço na TV e, de quebra, poder conhecer mais sobre o trabalho dessas duas atrizes maravilhosas que fazem parte da história do cinema é um presente. Até a semana que vem. 😉

Feud: Ainda sobre Bette Davis, eu recomendo toda a filmografia da atriz, mas hoje irei destacar Perigosa e Jezebel, filmes que deram à Bette seus Oscar de Melhor Atriz. Ambos são fascinantes.

Treta da semana:

Bom, a treta dessa semana não é bem uma treta e, sim, um acontecimento icônico e maravilhoso. O episódio mostrou Joan Crawford recebendo seu Oscar de melhor atriz pelo filme Alma em Suplício (filme ótimo por sinal, assistam) na cama, pois é, na cama. Acontece que com medo de perder para atrizes novatas a Sra. Crawford não foi para a cerimonia alegando “problemas de saúde”. Pois bem, depois que ganhou, ela chamou fotógrafos e toda a imprensa para sua casa e registrou o momento em que recebe o Oscar em seu leito, por estar “adoentada”. Joan, até mesmo, foi fotografada dormindo com o prêmio na mão… Deixo aqui ao lado o registro desse momento histórico. Achou Crawford audaciosa? Pior foi a Katharine Hepburn que ganhou 4 Oscar’s por atuação, um recorde até os dias de hoje. E sabe quantas vezes ela foi na cerimonia buscar os prêmios? NENHUMA! Ela é afrontosa!

 

Tags Feud

No comments

Add yours