Feud é uma série que merece ser vista, exaltada e reverenciada

“Conflitos nunca são sobre ódio, conflitos são sobre dor”

Apesar de diversas demandas em prol da representatividade, o espaço das mulheres em Hollywood ainda beira o absurdo da desigualdade. Seja na frente ou por trás das câmeras, a luta dessas profissionais por oportunidades e reconhecimento é árdua e, ainda se comparado aos homens, o espaço da mulher na indústria cinematográfica é muito pequeno.

Um estudo da Escola de Comunicação e Jornalismo Annenberg, da Universidade do Sul da Califórnia, aponta que o espaço para atrizes mais velhas é ainda menor: das 100 maiores bilheterias de 2016 nos EUA, dentre os papeis com mais de 40 anos, apenas 24% eram mulheres. Dentre desses 24%, apenas cinco filmes tinham mulheres com mais de 45 anos como protagonistas ou co-protagonistas. Com os homens da mesma faixa etária, esse número sobe para 26. E se na segunda década do século XXI a realidade para o sexo feminino é dura e injusta dessa forma, imagine há mais de 50 anos? É justamente sobre esse cenário desigual e sexista que a nova série do canal FX, Feud, aborda, trazendo como pano de fundo a lendária rivalidade entre duas das maiores atrizes da história do cinema: Bette Davis e Joan Crawford.

A serie foi criada por um dos maiores showrunners da atualidade da TV estadunidense: Ryan Murphy, e ela não poderia ser produzida por mãos mais competentes que a dele. Todas a suas obras – Nip/Tuck, Glee, American Horror Story, American Crime Story e até mesmo a exagerada Scream Queens – possui criticas sociais grandiosas. Ryan, é um diretor/roteirista que conhece a realidade das minorias e entende a necessidade da representatividade na indústria.

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As mulheres em suas séries, no geral, são personagens fortes e seus elencos possuem uma diversidade invejável. Justamente por todos esses motivos que os teasers/trailers de Feud me deixaram intrigado, pois eles eram muito focados na rivalidade entre as duas atrizes, dando a entender que a série falaria apenas da rivalidade entre duas “mulheres fúteis”. Mas, esse piloto veio para jogar por terra minhas preocupações. Feud, você é linda e merece muito ser vista!

Com um elenco repleto de estrelas e protagonizada por duas das maiores atrizes de suas gerações, a série escancara de maneira arrebatadora a realidade dessas mulheres de meia idade, que outrora foram grandes estrelas de Hollywood e hoje se encontram no ostracismo por conta de uma das coisas mais naturais da vida: envelhecer. É revoltante ver o quão machista é aquela realidade e, é mais revoltante ainda, verificar que mesmo depois de décadas a mudança para isso tudo caminha a passos de formiga.

As cenas em que Joan Crawford liga para diversos produtores a procura de papeis para poder pagar as contas mostra isso de forma bem crua. Jessica Lange, como em todo trabalho que ela faz, está magnifica. Seja nos momentos de dor, tristeza, soberba e todas as nuances que ela consegue nos passar em apenas um episódio, a atriz se entrega de uma forma belíssima. É importante citar que a pouco tempo atrás a Jessica viveu a mesma realidade que a Joan com a escassez de papeis. Apesar de ser dona de dois Oscar, a atriz chegou a ficar quase 5 anos afastada das produções e, quando aparecia, era sempre no papel da mãe ou da vizinha do protagonista. Foi justamente Ryan Murphy o responsável por trazer Jéssica de volta aos holofotes, dando a ela a oportunidade de brilhar em quatro temporadas de American Horror Story em papeis pelos quais ela ganhou dois Emmy’s e um Globo de Ouro.

Do outro lado dessa moeda, temos outra atriz vivendo essa mesma situação: Bette Davis, a rainha do vigor e da visceralidade, conhecida por interpretar personagens antipáticas, que aqui é vivida por Susan Sarandon. Bette foi a rainha dos grandes filmes nas décadas de 30 e 40, mas na década de 50, junto com a chegada da idade, ela viu sua carreira entrar em declínio com pouquíssimos filmes seus fazendo sucesso. A cena em que ela presencia uma atriz novata ganhar as flores – que deveriam ser dela – mostra bem a realidade da atriz, que de rainha das telas, passa a aceitar papeis de meras coadjuvantes para se manter na profissão. Por conta disso ela aceitou trabalhar com seu maior desafeto: Joan Crawford no filme “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?”, um clássico lançado em 1962.

É interessante notar como, apesar de viver situações semelhantes, as duas atrizes reagiram de maneira distinta sobre aquilo tudo. Enquanto Joan tenta agarrar uma já inexistente jovialidade com cremes e procedimentos de beleza, Bette despe-se de qualquer tipo de vaidade, canalizando toda a força para a sua atuação. Talvez por isso somente ela tenha sido indicada ao Oscar.

Mas, apesar da situação de suas carreiras estar complicada, elas não deram as mãos para realizarem em harmonia esse trabalho. Na maioria das vezes, aliás, a rivalidade falou mais, garantido situações curiosíssimas, que para o nosso deleite a série vai contar ao longo dos seus sete episódios. Com toda essa crítica social presente e contando a historia de dois ícones do cinema, Feud é uma série que merece ser vista, exaltada e reverenciada.

Ah, se teremos reviews aqui no Mix de Séries? Claro, nos vemos na semana que vem…

Feud 1: Se vocês ainda não viram, POR FAVOR, corram e vejam “O Que Terá Acontecido com Baby Jane?” Um dos meus filmes favoritos.

Feud 2: Apesar de na vida me curvar ao trabalho de Bette Davis, não sou nem #TeamBette, nem #TeamJoan. Ambas são maravilhosas.

Feud 3: Jessica Lange, Kathy Bates e nos próximos episódios Sarah Paulson! Amo ver minhas girls de American Horror Story.

Treta da Semana:
Bom, na treta dessa semana, a série mostrou o momento da assinatura do contrato. Nas revistas e publicações, sempre a pessoa que aparece no lado esquerdo da foto tem seu nome creditado primeiro. Por isso que a Bette Davis, esperta que só ela, roubou a cadeira que era da colega. Joan, macaca velha que só ela, simplesmente levantou, ficou do lado da de Bette e teve seu nome nas fotos creditado primeiro… Rainhas, né?

 

 

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5 comments

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  1. Avatar
    BernardoVieira 9 março, 2017 at 20:14 Responder

    Desde quando esse projeto foi anunciado, eu já tinha decidido que assistiria de qualquer forma. Entretanto, tive ainda mais interesse depois que assisti uma entrevista que a Susan Sarandon deu ao Today Show, onde ela explica o porquê interpretar Bette Davis nessa série, visto que ofertas da mesma linha já apareceram anteriormente.

    Depois de assistir esse primeiro episódio, tenho que concordar com ela. “Feud” trata muito mais do que uma rixa entre as duas, acredito que esse é o fator apelativo para chamar o telespectador à frente da TV, mas tem muitas críticas ali à Hollywood da década de 60 quanto ao machismo, preconceito pela idade, dificuldades de colocar duas mulheres como protagonistas de um filme.

    Excelente essa sua análise, é precisa e conseguiu dizer exatamente tudo o que eu pensei. Ansioso pelas suas resenhas nas próximas semanas.

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      Marcelo Henrique 9 março, 2017 at 23:13 Responder

      O mesmo aconteceu comigo, desde o anúncio de Feud que eu espero ansiosamente pela sua estreia. E é prazeroso acompanhar uma série disposta a “meter o dedo na ferida” da industria hollywoodiana. Que bom que você gostou, continue nos acompanhando!

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    Gabryella Gomes 11 março, 2017 at 02:11 Responder

    Também esperei ansiosamente por esta série desde a primeira vez q li algo sobre sua produção. Foram meses esperando notas, fotos, trailers e simplesmente não me decepcionei. Quando acabei de ver me deu vontade de assistir de novo imediatamente.

    Como foi dito na resenha, maravilhosa por sinal, a série vai muito além da rixa e mostra toda a terrível situação q as mulheres enfrentam no mundo do entretenimento até nos dias de hoje e é não só o envelhecer, mas tb não ser levada a sério e ser ridicularizado como a Marilyn era.

    Acho q tb deve ser ressalta da aquela cena em q Bete e Joan assistem as primeiras tomadas de Baby Jane e choram e sofrem silenciosamente ao verem na tela tudo aquilo q elas já sabiam: q elas nunca mais terão papéis glamurosos como passado, que apesar de todo o talento elas estão velhas e Hollywood não perdoa isso.

    Continuarei acompanhando as resenhas.
    Parabéns pelo trabalho.

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      Marcelo Henrique 11 março, 2017 at 16:50 Responder

      Realmente a cena que você sitou passa essa situação inacreditável. Esse simbolismo sexual que a mulher se tornou para a industria, é um paradigma que ainda está longe de ser quebrado. Muito obrigado por ter gostado. Até a semana que vem 😉

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    Bruno D Rangel 15 março, 2017 at 08:58 Responder

    Vou providenciar pra já assistir ao filme! Não é meu gênero de série preferido, mas gostei muito. O piloto passou voando. Juro que não acreditei que tinha passado uma hora quando terminou. Vou ver o filme, e logo depois assistir o segundo episódio e aguardar pelo terceiro.

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