Feud – 1×03 – Mommie Dearest

“Então… poderíamos ter sido amigas esse tempo todo?

Essa frase é uma das últimas falas do filme “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?”, mas se encaixa perfeitamente na relação de Bette e Joan. Ainda sofrendo dos efeitos colaterais das armações de Jack Warner e Robert Aldrich mostradas no episódio anterior. Ambas as atrizes continuam sabotando uma a outra. E embora várias passagens desse episódio, que mostrou a rivalidade das duas atrizes, tenha rendido momentos divertidíssimos, no fundo tudo isso possui uma conotação muito triste. Afinal, porque elas deveriam ser inimigas?

Falar de machismo aqui nas reviews de Feud é chover no molhado, mas ainda assim é impossível fugir do assunto. Toda a série, cada cena, cada tape, tudo gira ao redor disso. E é inacreditável como uma série ambientada a meio século atrás seja tão atual na sua abordagem. As mulheres naquela época, para conquistar um mínimo de espaço digno naquele universo, tinham que se provar demais. Cada uma delas tinha que ser melhores em tudo, e a alienação causada por aquele ambiente monopolizado por homens acabava jogando elas uma contra as outras. Sem contar que, no mundo do entretenimento, rixas femininas vende, sempre vendeu e muito.

Tenho lido, em muitos fóruns e grupos de discussão, algumas pessoas criticando a Joan Crawford pelas suas atitudes e postura, usando até mesmo palavras como “megera” e “rainha má”. Respeito, mas não concordo com esse tipo de visão sobre ela. E esse episódio vem no momento certo, porque traz uma humanização muito grande à figura da atriz. Embora represente fatos reais, no meu entendimento, essa humanização não era necessária e explico porque. Apesar de todos os dizeres e doutrinas no Profeta Manes, o ser humano não é maniqueísta. Não somos separados entre “os bons” e “os ruins”, somos todos capazes de atitudes controversas. Isso é justificativa para qualquer ato ruim? Não, mas não podemos radicalizar nossa visão e julgar essas mulheres pelas as suas escolhas.

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Joan contar sobre a sua infância, sobre a perda da sua virgindade com o marido da mãe, aos onze anos de idade foi devastador, e o pior foi perceber o senso de normalidade que a atriz tinha daquela situação horrenda, tudo porque, na visão dela, aquele homem a amava. Na época que Feud retrata, Joan era uma mãe de quatro filhos adotivos (dois deles excluídos de seu testamento posteriormente), viúva, com dívidas e sem oportunidades de trabalho, por conta da chegada da idade. Bette também passava pela mesma situação. A atriz havia saído de um sofrido divórcio, e no episódio nos é revelado que ela possui uma filha que necessita de cuidados especiais. E é com a voz embargada que ela fala: ” É um dos motivos de eu fazer esse filme, para pagar a mensalidade”. É de partir o coração. Portanto, não há vilãs nessa história, não há vencedoras ou perdedoras. Ambas são vítimas. Não há porquê julgá-las.

Pelo trabalho hercúleo de conseguir passar todas as facetas dessas duas mulheres excepcionais e sempre com uma profundidade notável, que é necessário sempre enaltecer o trabalho de Jessica Lange e Susan Saradon. Faltam palavras para descrever o prazer que é assistir a essas duas em cena. Outras que merecem todos os aplausos é Jackie Hoffman e Judy Davis, que interpretam Mamacita e Hedda Hopper, respectivamente. A primeira defende muito bem o papel da fiel escudeira de Crawford, e a segunda, com aquele seus chapeis maravilhosos, nos entrega uma performance maravilhosa da mulher mais temida da era de ouro do cinema. É necessário destacar também Dominic Burgess, que interpreta o ator Victor Buono.

Por tudo isso que Feud continua linda. A cada episódio eu me apaixono cada vez mais por essa história. Até a próxima. 😉

Feud 1: Além do nome desse episódio, “Mommie Dearest” é o título de uma ácida biografia que Christina Crawford, filha de Joan, publicou pouco tempo depois da morte da mãe. Iremos falar dessa biografia mais a frente.

Feud 2: Sobre a maravilhosa Hedda Hopper, dois ótimos filmes lançados recentemente contam um pouco da história da atriz/colunista que fez história em Hollywood. O primeiro é Trumbo: Lista Negra e o segundo é Ave, César. Ambos recomendadíssimos!

Feud 3: Ainda sobre Bette Davis e sua tentativa de ser a primeira atriz a ganhar três Oscar. Ela deu a seguinte declaração uma vez: “Eu queria ter ganhado três Oscar, mas miss Hepburn conseguiu primeiro. Na verdade ela não conseguiu, ela só ganhou meio Oscar. Se eles me dessem meio Oscar eu jogaria na cara deles. Sabe como é… Eu sou de Áries, eu nunca perco.” HAHAHAHA!

Treta da Semana: 

Imagem: Arquivo pessoal

A treta da semana vem lá de 1951, mais precisamente, da cerimônia do Oscar desse referido ano. Durante uma discussão com Joan, Bette diz que deveria ter ganhado seu terceiro Oscar, em 1951, mas que foi roubada. Ela se refere à sua indicação pelo filme A Malvada (outro filme que vocês precisam assistir), uma das obras mais famosas de Bette. No filme, ela divide cena com a atriz Anne Baxter. E Anne bateu o pé e disse que não queria ser indicada na categoria de atriz coadjuvante, por isso o estúdio inscreveu ela e Bette na categoria melhor atriz e ambas foram indicadas. Com isso, quem acabou levando o prêmio foi Juddy Holliday, pelo filme Nascida Ontem, uma das vitórias mais controversas da história da cerimônia. Bette ficou revoltada e acusou Anne de ter divido os votos, dando a vitória para Juddy. O curioso é que Joan diz que não foi Bette que foi roubada e, sim, a atriz Gloria Swanson… E isso é a mais pura verdade. Gloria foi indicada pelo filme Crepúsculo dos Deuses e, de todas as indicadas, era a que tinha a melhor performance. Mas não foi nem Bette, nem Anne e nem Gloria e, sim, a pouco cotada Juddy Holliday que levou o prêmio. Deixo aqui ao lado a imagem dessa diva que passou a rasteira em todo mundo.

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1 comment

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    Bruno D Rangel 30 março, 2017 at 08:40 Responder

    Vejo a Joan preocupada em mostrar que ainda é bonita e Bette preocupada em mostrar que ainda é talentosa. Sei que ambas querem mostrar os dois, mas fica bem claro que cada uma tem suas prioridades, tanto que Bette é indicada ao Oscar pelo filme. Quero só ver quando essa indicação chegar a série.

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