Feud – 1×04 – More, or Less

Imagem: Arquivo pessoal

“Essa cidade sempre foi dos garotos, e garotos não são educados. Não vão segurar a porta para eu entrar. Terei que chutar para abri-la, como eu sempre fiz”.

Uma nova semana, um novo episódio de Feud e uma nova lição de moral avassaladora. Incrível como a trama nunca se contém. A cada novo episódio a série escancara ainda mais a mensagem que ela deseja passar: o machismo em Hollywood e a opressão que as mulheres sofriam. Pasmem, ele não ficou na década de 60, ainda existe e Feud mostra isso de forma crua – é isso que faz dela uma produção tão atemporal. A cada semana que passa, eu me apaixono cada vez mais por essa série.

Com as filmagens de O que Terá Acontecido a Baby Jane? finalizadas, a expectativa para os frutos que ambas as atrizes colheriam pelo filme eram grandes. Afinal, Bette e Joan teriam conseguido, finalmente, voltar à indústria depois de tanto tempo no ostracismo? E eis a surpresa, Baby Jane foi um sucesso, mas não trouxe de volta a glória dos tempos de outrora para as carreiras de Davis e Crawford. Mesmo com o filme fazendo rios de dinheiro, os papeis não vieram e mais uma vez Bette e Joan se viam na mesma situação, mas por conta de personalidade e experiências de vida diferentes, elas não se uniram nessa empreitada e cada uma interpretou aquele momento a sua própria maneira.

Bette Davis se jogou de cabeça naquela situação. Ela sabia que nunca mais poderia ter a oportunidade de lançar um grande filme e, apesar de não receber os convites para atuar que ela esperava, ela soube aproveitar aquele momento. Fez a turnê do filme, fez show, participou de programas, deu entrevistas, Davis entrou no jogo. Crawford, infelizmente, a situação foi ainda menos animadora, ela ficou mais uma vez desiludida. Aparentemente, a atriz possuía uma carência muito grande. Naquele momento em que elas distribuem autógrafos na sala de cinema, é perceptível nos olhos da atriz a emoção que ela sente ao reviver aquele momento, e esse é foi problema: foi somente “aquele momento”. Joan, assim como Bette, foi traída pelas próprias expectativas, mas ao contrário da rival ela não conseguiu canalizar tudo aquilo, ela apenas guardou dentro de si. E tudo ficou ainda pior quando as críticas saíram e apenas Bette tinha conquistado os holofotes.

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Como dito parcialmente na nossa primeira review de Feud, a interpretação da situação das duas atrizes foi essencial para os desdobramentos do que ocorreu pós-Baby Jane. Joan pecou pelo seu excesso de vaidade, a atriz não se permitiu, digamos, abrir mão da sua beleza em função do papel. Ela interpreta Blanche de forma muito boa, mas aparência da personagem não condiz com o perfil da mesma. Como uma mulher que não vê o sol a anos, não sai de casa, é inválida e maltratada pela irmã teria cabelos tão sedosos? E uma pele tão limpa? Joan quis mostrar para a industria que apesar de estar “velha”, ela ainda era bonita. Ela achou que isso era suficiente para que colocassem ela no jogo novamente.

Bette fez exatamente o contrário, ela conseguiu captar a essência de sua personagem e vislumbrar a oportunidade que aquele papel lhe trazia. Era um sonho da atriz ter um terceiro Oscar e como ela nunca mais poderia ter uma oportunidade daquela (e de fato não teve já que O Que Terá Acontecido a Baby Jane? foi a sua última indicação ao prêmio), ela decidiu canalizar todas as suas forças na sua atuação. Sendo um filme B de horror, era plausível que a atriz aparecesse em tela descaracterizada, sem soar caricata. Com isso, Bette se despiu de qualquer tipo de vaidade e nos apresentou uma Jane com um visual grotesco, mas que estava dentro do contexto do filme. E assim aconteceu, Crawford teve uma boa atuação, mas nada que justificasse uma indicação ao Oscar. Já Davis foi indicada ao prêmio muito merecidamente.

Com apenas Davis ganhando a indicação, Crawford, mais uma vez, saia daquela situação desiludida. Vejo muito comentários a respeito da atriz e muitos dos termos usados são “fútil”, “mesquinha”, “megera” e até mesmo “vilã”. E isso me entristece muito. Ter esse tipo de visão superficial sobre Joan Crawford é um desserviço à Feud e uma injustiça com essa grande atriz. Independente de serem questionáveis ou não, eu entendo os atos de Crawford. A situação era bem mais complexa do que se imagine, pois envolve os traumas e as experiências em que ela viveu, bem como sua personalidade e diversos níveis da psiquê humana. Isso sem contar é claro, com a sociedade opressora em que ela estava inserida. Portanto, pintar Crawford como vilã não é algo correto a se fazer.

Até a próxima! 😉

Treta da semana:

Imagem: Arquivo pessoal

A treta da semana é protagonizada pela nossa queridíssima Bette Davis, que cansada de não ser mais chamada para papeis Hollywood, decidiu simplesmente colocar uma anúncio no jornal a procura de emprego, o anuncio dizia: Mãe de três, divorciada, americana. 30 anos de experiências de filmes, procura trabalho, serve qualquer coisa.

Maravilhosa, não é? Bette voltou triunfante depois de ter tripudiado em cima de star system do cinema estadunidense. Numa entrevista, quando foi perguntada sobre esse anúncio, Bette disse: “Aquele foi um dia engraçado em Hollywood.” HAHAHAHA!

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1 comment

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    Bruno D Rangel 4 abril, 2017 at 16:07 Responder

    Eu gosto tanto da Jessica Lange que minha visão fica distorcida e pra mim ela e sua Joan Crawford roubam o show. Mas conversando com um amigo, a impressão que fica pra ele é que Joan é como se fosse a vilã e Bette a mocinha. Sei que nenhuma das duas impressões é a intenção da série, mas fiquei curioso por ser duas visões tão diferentes de um mesmo show.

    Não entendo por que Joan entregou o papel de mais destaque em atuações para Bette. Assistindo ao filme, com certeza Jane teve mais destaque do que Blanche, tendo inclusive o nome no título do filme.

    Estou curioso pra ver como serão os próximos episódios e até que ponto da vida das duas a série chegará.

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