Fim de Orange Is The New Black é um marco na história atual das séries de TV

Orange Is The New Black não teve medo de ousar

Assisto Orange Is The New Black há uns bons anos. Me lembro quando a série estreou, a sete anos atrás, apesar de não ter dado muita bola para ela. Foi apenas meses depois que tive acesso aos episódios e, rapidamente, descobri o que era “maratonar” uma temporada completa de uma série da Netflix. Foi ela, inclusive, o motivo de ter assinado a plataforma para assistir o segundo ano, assim que ele estreasse.

Continua após a publicidade

Sem dúvidas, Orange Is The New Black ajudou a Netflix a se firmar como plataforma, junto de House of Cards. Em uma era em que a Netflix engatinhava enquanto plataforma, o drama ganhou nome e rapidamente tomou o mundo com fãs espalhados por todo lugar. Mas, não só como uma série inovadora na prática dos streamings, Orange Is The New Black é relevante socialmente. E seu final, na próxima sexta (24), fará história ao dar desfecho para uma produção que não teve medo de ousar, deu voz a quem precisava e mostrou que a série ia muito além de uma cor.

Sem medo de errar

Definitivamente, a dramédia da Netflix fez um trabalho incrível ao abordar questões envolvendo raça, sexualidade, saúde mental, o uso de drogas, relacionamentos, entre outras. Ao usar uma prisão feminina como pano de fundo, o texto conseguiu com sutileza mostrar para o público que é possível achar graça de algo mesmo quando o mundo insiste em trazer coisas ruins para a sua vida constantemente. Tudo isso utilizando tramas relevantes e importantes para a sociedade, e que ainda não havia encontrado espaço em diversas mídias.

O relacionamento, amoroso e afetivo, mostrado entre as detentas é único. Uma única comunidade foi criada entre mulheres com diferentes etnias e orientação sexual, bem como classe social. E o sentido de família abordado através destas histórias é uma lição à parte.

Humanização

Através de seu formato, Orange Is The New Black conseguia a cada episódio humanizar suas personagens. Através de flashbacks, uma das detentas tinha sua história contada no passado. Dessa forma, mostrando o que as levou a cometerem crimes, bem como o coração que existia por trás de uma fachada de crimes.

A série, inclusive, não “endeusava” a prática criminal. Pelo contrário, mostrava as punições severas – e por vezes irresponsáveis – do sistema criminal. Assim como uma punição emocional que em muito se sobressaía à física. Entretanto, em muitos dos casos, o preconceito ou descaso do social e do sistema é que levavam tais mulheres a cometerem crimes. A desigualdade, ainda preocupante a nível mundial, é sem dúvidas a maior criminosa da série.

Muitas detentas estão por lá por causa das drogas, e este é um caminho interessante para o roteiro que aborda o uso e a venda de ilícitos como maconha e heroína. Mas também, a luta de muitas delas para saírem deste mundo. Nicky, por exemplo, foi uma personagem que lutou durante muito tempo para ficar “limpa”, e é certo que muitos espectadores que já passaram por problemas semelhantes se identificaram. O detalhe é que não é necessário mostrar a pessoa no fundo poço. É importante mostrar ao público o que levou ela estar ali, assim como também identificar a saída dessa situação.

As detentas de Orange Is The New Black serviram para humanização e abordagem de temas polêmicos. Imagem: Netflix/Divulgação

Em geral, costumamos a ver prisioneiros apenas pelos seus crimes. Mas Orange Is The New Black fez questão de bater na tecla que é preciso olhar além. Lembrarmos, assim, que eles são seres humanos como nós. E, assim como eles, podemos cometer erros, deslizes, e nos arrependermos.

Uma série sobre raça e sexualidade

A atriz LaVerne Cox fez história em Orange Is The New Black. Foi através dela que a atriz, trans, pôde mostrar seu trabalho e até mesmo ser indicada ao prêmio Emmy. E ela não é a única a ser exemplo da aula de como é interessante tratar de sexualidade e gênero em uma série de TV. Boo tornou-se uma favorita dos fãs, principalmente por adicionar questões envolvendo estética e tatuagens, em um corpo considerado extremamente fora dos padrões. Já outros personagens como Morello são abertos a sua sexualidade, tendo envolvimento tanto com homens quanto mulheres.

Mas nem todo o relacionamento entre as detentas implica em algo sexual ou amoroso. As histórias de Taystee e Poussey, por exemplo, é uma delas. A primeira até teve um backdoor envolvendo sua sexualidade em uma família regida por militares. Mas foi dentro da prisão que ela protagonizou histórias comoventes envolvendo o preconceito racial e o desfavorecimento que os negros têm na sociedade. Dentro da própria prisão há uma divisão entre negros e brancos que reflete muito o externo. 

O mesmo pode-se dizer de Taystee, que do início ao fim foi uma das personagens que mais cresceu. Ela, ainda, serviu de exemplo sobre como a sociedade é injusta com os detentos que são libertados e acabam excluídos de uma segunda chance na vida, por puro preconceito.

Leia também: 7 fatos importantes que acontecerão na 7ª temporada de Orange Is The New Black

Dentro da prisão, novamente, Taystee encabeçou um dos momentos mais emblemáticos da série ao pedir justiça pela morte da melhor amiga. No contexto de que “a vida dos negros importa”, Orange Is The New Black utilizou tal trama para mostrar como milhares são mortos diariamente por serem minoria, negros, homossexuais, entre outros. E a morte injusta de uma personagem amada, ainda, serviu como exemplo da realidade em que muitas pessoas são mortas sem fazer qualquer coisa errada, ou simplesmente que não mereciam morrer.

Saúde Mental

Não poderíamos deixar de comentar sobre o fato da saúde mental também ter voz em Orange Is The New Black. Não por menos, Suzanne (Ou “Crazy Eyes”) tornou-se uma das personagens mais brilhantes na série. Ela serviu para abordarem questões da esquizofrenia, bem como o comportamento de quem sofre e de quem lida.

É incrível que uma série que teoricamente falaria apenas sobre a podridão do sistema prisional, encontre tempo para tratar de assuntos delicados como a saúde mental. E esse é apenas mais um tópico que, geralmente, é ignorado por tramas convencionais na TV.

Suzanne virou uma das personagens mais emblemáticas de Orange Is The New Black. Imagem: Netflix/Divulgação.

Liberdade do streaming

Essa minha última fala leva a um último ponto importante. Orange Is The New Black soube, com maestria, abordar assuntos polêmicos, de forma explícita, usando a pouca censura do streaming a seu favor. E sem cenas gratuitas, a série quis apenas passar uma abordagem sincera, nua e crua. Ela se tornou pioneira em saber contar histórias para o público que estava aprendendo consumir o material feito para streaming, e tornou-se parâmetro para muitas séries que vieram depois.

Seu final será emblemático por essa e muitas outras razões. Só que mais importante ela fará falta ao inspirar outras séries de TV a darem espaços para tramas e vozes que muitas vezes só querem ser ouvidas.

Orange Is The New Black, sentiremos saudades! E estamos prontos para falar e enaltecer sua importância para a história das séries por muitos e muitos anos…

Anderson Narciso

Anderson Narciso

Mestre em História, criador de conteúdo, é o editor responsável e idealizador do Mix de Séries. Eterno órfão de Friends, One Tree Hill e ER, acompanha séries desde que se entende por gente. No Mix é editor de colunas e de notícias e resenha séries semanalmente.

No comments

Add yours