O final de Margo Está em Apuros faz a 2ª temporada parecer desnecessária

Após assistir ao final de Margo Está em Apuros a sensação que fica é: para que uma 2ª temporada? David E. Kelly precisa surpreender o público.

Terminei Margo Está em Apuros com aquela sensação rara que poucas séries conseguem provocar hoje em dia: a de despedida. Não uma despedida amarga, mas aquele vazio inevitável que aparece quando uma história consegue criar personagens tão humanos que você simplesmente não quer sair daquele universo.

A dramédia da Apple TV+ estrelada por Elle Fanning encerra sua primeira temporada de forma surpreendentemente emocional.

Aliás, a própria Apple TV+ atravessa talvez sua fase mais interessante desde que entrou na disputa do streaming. Enquanto muitos serviços parecem preocupados em despejar dezenas de produções por mês, a Apple continua trabalhando quase na lógica oposta, priorizando projetos menores, mais autorais e muito mais preocupados com qualidade do que volume.

Margo Está em Apuros encaixa perfeitamente nessa safra recente de acertos.

Existe personalidade na direção, sensibilidade na escrita e uma confiança muito grande no silêncio emocional da série. David E. Kelley já escreveu sucessos gigantescos ao longo da carreira, mas fazia tempo que ele não entregava algo tão delicado e emocionalmente honesto quanto isso.

Em um mundo onde o genérico predomina, poucas séries recentes conseguiram falar sobre vergonha, maternidade e solidão com tanta humanidade quanto Margo Está em Apuros.

O final abraça completamente o lado fantasioso da série

Desde os primeiros episódios, Margo Está em Apuros nunca tentou ser uma representação fria da realidade. A série sempre flertou com uma espécie de fantasia emocional sobre maternidade, vergonha, sobrevivência e reconstrução pessoal. A própria review destaca como a narrativa constantemente mergulha nesse clima quase de conto moderno, mesmo quando encosta em temas pesados.

Talvez seja justamente isso que faça o encerramento funcionar tão bem. A audiência do tribunal, por exemplo, não funciona como algo realista. Funciona como catarse emocional. Funciona como a materialização do que a série queria dizer desde o começo sobre acolhimento, culpa e humanidade.

O episódio final inteiro de Margo Está em Apuros inteiro gira em torno da ideia de “vila”, “clã” e “rede de apoio”. No fundo, a história de Margo nunca foi apenas sobre uma mulher criando conteúdo adulto na internet enquanto tenta sobreviver financeiramente. A série falava sobre pessoas quebradas tentando cuidar umas das outras da melhor maneira possível. E isso fica muito bonito no final.



Margô Está em Apuros final explicado
Imagem: Apple TV

Margo Está em Apuros trata profissionais do sexo com uma dignidade rara

Uma das coisas mais fortes em Margo Está em Apuros é a maneira como David E. Kelley escolhe olhar para mulheres que trabalham com conteúdo adulto.

Não existe julgamento moral barato aqui. A série nunca tenta transformar Margo em vítima absoluta, tampouco em alguém que precisa “ser salva” da própria sexualidade para encontrar dignidade. Pelo contrário. O texto entende que autonomia também faz parte da construção dela como mulher e mãe.

O momento em que Margo decide continuar produzindo conteúdo porque aquilo também representa arte, identidade e independência financeira resume perfeitamente isso.

Poucas produções recentes conseguiram abordar esse universo com tanta humanidade.

Margo nunca é reduzida ao trabalho dela. Continua sendo filha, amiga, mãe, artista e alguém tentando desesperadamente encontrar equilíbrio num mundo que constantemente tenta puni-la por existir fora do padrão esperado.

Elle Fanning entrega uma atuação gigantesca

Elle Fanning está absurda na série inteira. Existe uma vulnerabilidade muito específica na forma como ela interpreta Margo. A personagem poderia facilmente cair no exagero ou virar apenas uma caricatura caótica nas mãos erradas. Só que Elle encontra humanidade até nos momentos mais impulsivos da personagem.

O olhar cansado, o humor nervoso, a insegurança escondida atrás das respostas rápidas, tudo parece extremamente real.

O mais impressionante é como a série inteira consegue dar espaço para praticamente todos brilharem emocionalmente no episódio final.

Michelle Pfeiffer talvez tenha a cena mais poderosa da temporada inteira quando Shyanne segura Bodhi no tribunal e começa a chorar.

Aquela sequência não funciona apenas como emoção simples. O choro dela parece carregar anos de culpa, medo, julgamento e frustração acumulados. Existe quase um alívio silencioso naquele instante. Como se finalmente ela entendesse que talvez não seja uma pessoa ruim. Mais do que isso: que aquele bebê enxerga amor nela.

A série inteira fala sobre isso. Sobre pessoas imperfeitas tentando amar direito.

A grande dúvida agora é: precisa mesmo continuar?

Essa foi a primeira pergunta que ficou na minha cabeça quando os créditos subiram: “Margo Está em Apuros precisa mesmo de uma 2ª temporada?“.

O final é extremamente redondo. A jornada emocional de Margo chega a um ponto de encerramento muito satisfatório. Existe reconstrução, amadurecimento, esperança e principalmente paz emocional. A série termina exatamente no momento em que parece precisar terminar.

Hoje, isso virou raridade. Grande parte da televisão atual parece incapaz de encerrar histórias. Tudo precisa continuar indefinidamente enquanto existir audiência suficiente. Margo Está em Apuros vai na direção contrária.

Ela entende o valor de concluir uma jornada.

Ao mesmo tempo, existe um apego muito grande a esses personagens. David E. Kelley claramente encontrou algo especial aqui. Caso exista uma segunda temporada, ela precisa nascer apenas se houver algo novo e verdadeiro para dizer sobre essas pessoas.

Não por obrigação. Não por algoritmo. Mas porque ainda existe coração dentro dessa história.

Depois desse final, sinceramente? Dá vontade de confiar que ele conseguiria surpreender mais uma vez.



O final de Margo Está em Apuros faz a 2ª temporada parecer desnecessária
SOBRE O AUTOR
Anderson Narciso
Criador do Mix de Séries, atua hoje como redator e editor chefe do portal que está no ar desde 2014. Autor na internet desde 2011, passou pelos portais Tele Séries e Box de Séries, antes de criar o Mix. Também é criador e editor do portal Folha JF, projeto regional voltado para Juiz de Fora e região. Séries favoritas da vida: One Tree Hill, Friends e ER.