Guillermo del Toro finalmente realizou um sonho de infância ao dirigir Frankenstein, sua adaptação pessoal do clássico de Mary Shelley. O cineasta transforma a conhecida história de terror gótico em uma poderosa fábula sobre paternidade, rejeição e perdão.
Interpretado por Jacob Elordi, o monstro criado por Victor Frankenstein (vivido por Oscar Isaac) ganha novas camadas de humanidade, culminando em um final profundamente emocional e simbólico. Mais do que uma história de horror, o filme se torna uma reflexão sobre o que significa existir — e o que acontece quando até os monstros aprendem a perdoar.
A tragédia de Victor Frankenstein
Em Frankenstein, Victor é retratado como um homem obcecado em vencer a morte, após traumas familiares que marcaram sua infância. Filho de um pai abusivo e de uma mãe amorosa que morre cedo, ele canaliza a dor em sua ambição científica. O resultado é a criação da Criatura — um ser poderoso, ingênuo e de aparência incomum, que inicialmente desperta tanto fascínio quanto repulsa no próprio criador.
No início, Victor tenta tratar a Criatura como uma experiência científica, mas rapidamente demonstra desprezo por sua simplicidade e emoção. O que começa como uma relação de admiração se transforma em crueldade, com Victor o mantendo acorrentado e isolado. Essa relação espelha o próprio ciclo de abusos que Victor sofreu do pai, repetindo o mesmo padrão de rejeição e controle.
A tragédia em Frankenstein atinge o ápice quando, em meio à destruição do laboratório e à morte de Elizabeth, a mulher amada, Victor percebe que perdeu tudo — sua família, sua humanidade e a própria razão de existir. Consumido pela culpa e pela obsessão, ele parte em busca da Criatura pelos confins gelados do mundo, determinado a destruí-la, ainda que isso o leve à própria ruína.
A jornada solitária da Criatura

Enquanto Victor mergulha em autodestruição, a Criatura inicia uma jornada de autodescoberta. Fugindo do incêndio da torre, ele vagueia por florestas e vilarejos, tentando compreender o mundo e a si mesmo. Em uma das partes mais emocionantes do filme, ele observa uma família em segredo e aprende com eles sobre linguagem, bondade e convivência. Porém, quando tenta se aproximar, é recebido com medo e violência — uma das cenas mais fiéis ao espírito do livro de Shelley.
A Criatura compreende, então, que o verdadeiro monstro não é aquele que tem cicatrizes no rosto, mas aquele que carrega o ódio no coração. Ferido e solitário, ele volta ao castelo de Frankenstein, buscando respostas e, talvez, um novo sentido. Lá, encontra apenas destruição e dor. O mundo o rejeitou, e seu criador também. Mesmo assim, ele decide enfrentar Victor uma última vez — não em busca de vingança, mas de compreensão.
Pai e filho frente ao perdão
O clímax de Frankenstein ocorre no gelo, onde Victor e a Criatura se reencontram. Exausto, doente e arrependido, Victor reconhece finalmente o erro que cometeu ao criar e abandonar seu “filho”. A Criatura, em vez de se vingar, oferece perdão. É nesse momento que o monstro mostra ser mais humano que o próprio homem.
Guillermo del Toro transforma essa cena em um espelho emocional: o criador e a criação, diante um do outro, compreendem que compartilham a mesma dor — a busca por aceitação e amor. Victor morre nos braços da Criatura, pedindo que ela diga seu nome uma última vez. “Victor”, sussurra o monstro, em um gesto de ternura e despedida.
O que acontece com a Criatura no final
Após a morte de Victor, o filme retorna ao navio Horisont, comandado pelo capitão Anderson. O monstro conta sua história e, ao final, é libertado. Em um gesto simbólico, ele ajuda a tripulação a se livrar do gelo que aprisiona o navio, abrindo o caminho de volta para casa. Anderson, comovido, decide abandonar sua busca obsessiva pelo horizonte — um reflexo do próprio aprendizado que Victor não teve em vida.
A cena final de Frankenstein mostra a Criatura sozinha no Ártico, banhada pela luz do sol. Ele ergue os braços e deixa uma lágrima congelar no rosto. Não há morte para ele — mas há aceitação. O monstro que nasceu da negação da morte finalmente compreende a beleza da vida.
Guillermo del Toro encerra sua versão de Frankenstein com uma mensagem de esperança: o verdadeiro triunfo da Criatura não está em sobreviver, mas em aprender a viver. Ele não morre — pelo contrário, renasce espiritualmente. Ao aceitar seu destino e perdoar o homem que o criou, a Criatura encontra aquilo que Victor jamais pôde alcançar: a paz.