A Netflix apostou alto em Franklin, sua nova série libanesa de crime e ação ambientada no universo da falsificação de dinheiro.
Escrita por Chirine Khoury e dirigida por Hussein Al Minibawi, a produção parte de uma premissa intrigante: um pai e um filho, ambos ex-mestres na arte de falsificar notas de 100 dólares, são forçados a voltar ao crime quando suas famílias passam por crises de saúde e financeiras.
Apesar do potencial do enredo, Franklin entrega uma narrativa confusa, com personagens pouco desenvolvidos e um ritmo que parece sempre correr atrás do próprio eixo.
Na superfície, a série promete uma história de legado criminal, vingança e sobrevivência. No centro de tudo está Adam (Mohammed Al Ahmad), um falsificador de gerações que tenta levar uma vida limpa até que as circunstâncias o puxam de volta para o jogo.
Seu pai, Mounir (Pierre Dagher), já foi traído por um chefão do crime chamado Al-Hashem, e Adam, por sua vez, teve sua confiança destruída por Edward, outro nome influente no submundo. Agora, com a saúde do pai deteriorando e a filha Yara precisando de cuidados, Adam se vê obrigado a fabricar dinheiro falso novamente — e a missão não será nada pequena: produzir 35 milhões de dólares em apenas duas semanas.
Enquanto isso, Al-Hashem está de volta à jogada, exigindo o dinheiro sob ameaça, e Edward envia sua filha Yulia — que também é ex-namorada e ex-parceira de falsificação de Adam — para sondar as intenções do protagonista. O triângulo criminal está formado, e todos sabem que, mais cedo ou mais tarde, alguém será traído.
Franklin tem um enredo que se perde no próprio labirinto
O problema de Franklin não está na ideia central, que poderia render uma ótima trama de ação e tensão psicológica. O que atrapalha — e muito — é a forma como essa história é contada. A série apresenta inúmeros personagens e situações paralelas, mas explica pouco. O espectador é jogado em meio a relações complexas entre Adam, seu pai, Zein (um policial especialista em crimes financeiros), Al-Hashem e Edward, com fragmentos de passado mal costurados que deveriam servir de base emocional para a trama atual.
Muitas dessas histórias acontecem em períodos diferentes, como entre os anos 1980 e 2014, e depois entre 2014 e 2022. Mas quase nada disso é mostrado com profundidade. Há uma dependência excessiva da ideia de que o público vai “preencher as lacunas” — o que, nesse caso, só torna tudo mais raso. Quando as motivações dos personagens são confusas, e os conflitos não têm peso emocional real, a série perde sua força.
A tentativa de ação que não decola

No campo técnico, Franklin tenta compensar as falhas de roteiro com cenas de ação e produção visual caprichada. E, de fato, há um esforço visível por parte da equipe: desde a fotografia de Quim Miquel até a trilha sonora de Ashraf El Zeftawi, passando pela direção de arte e edição. As perseguições de carro, por exemplo, foram pensadas para serem grandes momentos de tensão. Mas, no resultado final, as cenas soam genéricas e sem impacto real.
Hoje em dia, séries de TV já rivalizam com filmes em qualidade técnica — basta ver produções como Fauda ou O Agente Noturno. Então, quando se vê algo que promete adrenalina mas entrega apenas movimentação barulhenta, a frustração se torna inevitável.
Um elenco dedicado, mas engessado
O elenco de Franklin conta com nomes como Daniella Rahme, Tony Issa, Youssef Haddad, Georges Chalhoub e Sandybelle Khachab, todos se esforçando para dar vida a personagens muitas vezes subaproveitados. É evidente que os atores se entregam, tentando trazer camadas às figuras que interpretam. Mas quando o texto não sustenta as emoções e os diálogos não desenvolvem conflitos reais, não há atuação que salve.
Yulia, por exemplo, poderia ser uma figura ambígua fascinante — uma mulher dividida entre lealdades familiares, um amor mal resolvido e o desejo de sobreviver. Mas sua trajetória é tratada de forma apressada. O mesmo vale para o policial Zein, que aparece como a figura moral da trama, mas tem pouco tempo de tela e nenhum aprofundamento digno de seu potencial.
Afinal, Franklin quer falar sobre o quê?
No fim das contas, Franklin parece se contentar em dizer que “dinheiro falso é um problema” — e só. A série não se aprofunda nas questões políticas, econômicas ou humanas que poderiam tornar a história mais instigante. Há pontas soltas sobre a relação de Adam com sua filha, sobre a paternidade de Mounir, sobre corrupção e sobre o papel do Estado. Mas tudo isso é apenas tocado de leve, sem ganhar forma concreta.
O que poderia ser um retrato tenso e relevante de uma crise real, se torna um desfile de situações sem consequência. Ao invés de mergulhar nas complexidades morais do universo da falsificação, Franklin se perde em sua própria ambição narrativa.
Vale a pena assistir a série Franklin na Netflix?
Se você é fã de thrillers criminais e se interessa por tramas sobre crimes financeiros, pode até encontrar momentos interessantes em Franklin. Mas é preciso paciência. A série exige atenção constante para acompanhar um enredo que, mesmo confuso, quer ser levado a sério. Infelizmente, o desequilíbrio entre estética e conteúdo acaba prejudicando a experiência geral.
Para quem espera uma história com a força de Breaking Bad ou a tensão de Ozark, Franklin pode decepcionar. Mas se o seu interesse for pelo contexto sociopolítico e pela ambientação libanesa — rara em produções internacionais da Netflix —, talvez valha a tentativa.
Sobre a série Franklin na Netflix
Franklin tenta contar uma história de crime, lealdade e sobrevivência, mas tropeça na falta de foco e no excesso de ambição. Com uma trama cheia de lacunas e personagens que parecem mais esboços do que pessoas reais, a série acaba se tornando mais um exercício frustrado do que uma experiência memorável. Resta torcer para que, em uma possível segunda temporada, os roteiristas consigam transformar o barulho em substância — porque, por enquanto, a única coisa que Franklin falsificou foi o peso emocional que prometeu entregar.