Gangues da Galícia tem 2ª temporada mais ambiciosa e impossível de largar | Review

A segunda temporada de Gangues da Galícia aumenta as apostas – e sim, ela é impossível de largar.

A 2ª temporada de Gangues da Galícia, da Netflix, não segue o caminho mais óbvio. Em vez de repetir a fórmula direta de vingança que sustentou o primeiro ano, a série decide expandir seu universo e apostar em algo maior, mais complexo e, em muitos momentos, mais instável.

O resultado é uma temporada que cresce em ambição, mas também carrega o peso das próprias escolhas. E ainda assim, é difícil parar de assistir.

Ana retorna diferente e isso muda o jogo

O salto temporal funciona como um ponto de partida importante, porque quando reencontramos Ana, ela já não é mais aquela personagem arrastada para o submundo do crime quase por acidente. Existe uma tentativa clara de reconstrução, uma vida que ela tenta manter distante do passado, especialmente ao lado da filha.

No entanto, a série não romantiza esse afastamento. Pelo contrário, ela constrói um retorno inevitável, como se esse mundo nunca tivesse realmente deixado Ana ir embora. Quando ela é puxada de volta para a Galícia, a transição não soa forçada. Ela acontece de forma orgânica, como consequência de escolhas e circunstâncias que se fecham ao redor dela .

E é justamente esse cuidado que faz a narrativa funcionar logo de início.

Uma protagonista que não domina o jogo: ela sobrevive a ele

Um dos pontos mais interessantes da temporada está na forma como a série lida com o crescimento de Ana. Em vez de transformá-la em uma figura completamente preparada para o novo cenário, o roteiro mantém sua fragilidade.

Quando ela se vê envolvida em uma operação de tráfico em larga escala, a lógica não é a da competência, mas a do desespero. Ela não está ali porque é a melhor pessoa para aquilo, mas porque não tem escolha.

Essa diferença é crucial.

Clara Lago entrega uma performance que equilibra controle e insegurança, mostrando uma personagem que pensa antes de agir, mas que nunca está totalmente confortável com as decisões que precisa tomar. E essa tensão acompanha toda a temporada.



Daniel carrega um conflito silencioso — e extremamente eficaz

Enquanto Ana é empurrada de volta para o caos, Daniel segue um caminho paralelo que, em muitos momentos, se mostra até mais interessante.

Sua saída da prisão cria a ilusão de um recomeço, mas a série é honesta ao mostrar que sair desse tipo de vida não é uma questão simples de escolha. Existe uma herança, um peso familiar e uma identidade construída dentro daquele ambiente que não se desfaz facilmente.

Tamar Novas interpreta esse conflito de forma contida, sem grandes explosões, mas com uma intensidade constante. Daniel não precisa dizer muito para que fique claro que ele está preso a esse mundo, mesmo quando tenta se afastar.

gangues da galicia final da 2 temporada
Imagem: Divulgação/Netflix.

A relação entre Ana e Daniel continua sendo o coração de Gangues da Galícia

Mesmo com a expansão da narrativa, a série sabe onde está seu eixo principal. A dinâmica entre Ana e Daniel evolui de forma natural, sem cair em romantizações fáceis. Existe história entre eles, mas também existe desconfiança, distância e uma consciência clara de que nenhum dos dois é inocente.

Os encontros entre os personagens carregam tensão, mas não são exagerados. Pelo contrário, a série trabalha esses momentos com cuidado, permitindo que o silêncio e os olhares façam parte da construção.

E isso faz toda a diferença.

Um mundo maior… e mais difícil de controlar

Se há algo que define essa segunda temporada, é a expansão do universo. Novos personagens entram em cena, alianças mudam constantemente e o equilíbrio de poder se torna muito mais instável. A família Padín, que antes parecia inabalável, agora mostra rachaduras importantes, especialmente após eventos que colocam sua liderança em risco . Essa ampliação traz frescor à série, mas também cria um problema.

Em vários momentos, a narrativa parece sobrecarregada. Existem muitas tramas acontecendo ao mesmo tempo, e nem todas recebem o desenvolvimento necessário. Isso faz com que alguns personagens secundários se percam no meio do caminho, enquanto certos arcos parecem apressados ou pouco explorados.

Uma temporada que oscila no ritmo, mas nunca perde o interesse

Essa ambição maior impacta diretamente o ritmo. Há episódios que funcionam com precisão, equilibrando tensão e desenvolvimento de personagens de forma muito eficaz. Por outro lado, existem momentos em que a série parece indecisa, alternando entre acelerar demais certos acontecimentos e prolongar situações que não têm o mesmo peso.

Além disso, o melodrama aparece com mais frequência do que deveria. Não chega a comprometer a experiência, mas quebra, em alguns pontos, o tom mais contido que a série vinha construindo.

Ainda assim, mesmo com essas oscilações, a narrativa consegue manter o espectador envolvido. Existe sempre algo em jogo, e isso sustenta o interesse.

Visual e atmosfera continuam sendo pontos fortes

Se o roteiro por vezes se perde na quantidade de elementos, a parte estética continua muito consistente.

A Galícia não é apenas cenário, mas parte ativa da narrativa. A fotografia aposta em tons mais frios, em planos mais longos e em uma construção de tensão que não depende de ação constante. Quando a violência aparece, ela é direta, rápida e com impacto.

Esse cuidado visual ajuda a manter a identidade da série, mesmo quando a história se torna mais dispersa.

Uma temporada imperfeita, mas que cresce no risco

A 2ª temporada de Gangues da Galícia não é perfeita, e nem tenta ser.

Ela arrisca mais, expande seu universo e, inevitavelmente, se torna mais irregular. No entanto, essa mesma ambição é o que mantém a série interessante. Mesmo quando a narrativa se complica, os personagens continuam fortes o suficiente para sustentar a experiência.

No fim, o saldo é positivo. Pode não ser uma temporada mais coesa que a anterior, mas é, sem dúvida, mais ousada. E, em um universo onde ninguém tem controle total sobre o que está acontecendo, essa sensação de instabilidade acaba sendo exatamente o que a série precisa.



Gangues da Galícia tem 2ª temporada mais ambiciosa e impossível de largar | Review
SOBRE O AUTOR
Matheus Pereira
Matheus Pereira é Jornalista e mora em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Escritor assíduo na época dos blogs, Matheus desenvolveu seus textos e conhecimentos em Cinema e TV numa experiência que já soma quase 15 anos. Destes, quase dez são dedicados ao Mix de Séries. Além disso, trabalha há mais de dez anos no campo da comunicação e marketing educacional, sendo assessor de imprensa e publicidade em grandes escolas e instituições de ensino.