Gilmore Girls: A Year in the Life – 1×01 – Winter

Imagem: Arquivo pessoal

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“Não fazíamos isso há um tempo.”

Parecia que esse dia nunca chegaria, gente! Mas está aqui entre nós. Gilmore Girls: A Year in the Life (Gilmore Girls: Um Ano Para Recordar) é real! E veio nos dar aquele suspiro extra – leia-se encerramento – que achávamos que nunca teríamos, depois daquele já massacrado encerramento abrupto lá em 2007.

Antes de entrarmos de cabeça no revival, comecemos pelo prelúdio precisamente minimalista e nostálgico, que serviu de teaser ainda nesta semana, no qual diante de uma tela preta só ouvimos célebres falas e diálogos das sete (ou são só das seis primeiras? Fica a provocação) temporadas da série original. Estamos no primeiro minuto e aqui já dá para sentir um arrepio dos pés à cabeça e chorar um balde. Até a fonte eles preservaram!

“Winter” cumpriu com excelência o propósito de nos reinserir nesse universo de Gilmore Girls, trazendo todos os elementos marcantes da série: os diálogos, as referências, as piadas, as excentricidades daquela comunidade e daqueles personagens, o bucolismo da cidade. Se formos para o lado mais técnico, essas marcas são vistas nos figurinos, na trilha sonora, na direção, na movimentação de câmera. A essência daquele universo permanece latente, essência essa escancarada na dinâmica do elenco que parece nunca ter se separado e arraigada ao texto magnânimo produzido por Amy Sherman-Palladino, nossa rainha. A gente volta a falar em tais aspectos.

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Ah, mas nada mudou? Quase uma década se passou e as coisas estão do mesmo jeito? Pelo contrário, já de cara se percebe que as coisas mudaram, que algo está diferente, que aquelas pessoas preservaram suas relações, mas não pararam no tempo, que de certa forma elas evoluíram, amadureceram. Resta-nos descobrir que mudanças foram essas.

Ok. Mas daí se pode pensar: amadureceram como se os conflitos apresentados ainda vêm de cicatrizes do passado, de coisas mal resolvidas? Eu lhes digo: existe na ficção algo mais humano do que essa incoerência do existir? Gilmore sempre foi sobre relações pessoais extremamente complexas, o revival não seria diferente. Tem coisas que simplesmente carregaremos por anos a fio, não importa o que aconteça.

Mergulhando em “Winter”, nesse início somos levados à praça de Stars Hollow, facilmente identificável, e lá vemos nossa amada diva Lorelai Gilmore sentada nos degraus do gazebo, copo de café em mãos, esperando por Rory. É uma sequência bastante simpática que mexe com o afeto dos fãs e que estabelece como está a nova dinâmica entre mãe e filha. Lorelai continua morando em SH, enquanto Rory parece estar ganhando o mundo, como suas pontes aéreas e seus celulares. Destaque para a parte em que Rory sai correndo atrás de sinal, com Lorelai em sua cola, nos agraciando com os marcantes planos-sequência da série.

E as primeiras aparições vão vindo, cada uma a seu tempo, no passo da necessidade e das esquisitices, até chegarmos naquela que os java-junkies (como são conhecidos os fãs do casal, porque era assim que se fazia antes de fundirmos nomes para termos um shipp) mal podiam esperar: Luke está morando sim com Lorelai. E é aqui também que vemos um ponto muito valorizado na série, que seria reforçado neste episódio, que a relação paternal que existe entre Rory e Luke, seja pelo esporro por comer “fora do horário”, seja pela empolgação com o trabalho de Rory. Interessante é ver como ambos têm consciência disso e é algo tão genuíno que às vezes a gente se esquece de que ele não é o pai biológico dela.

O que também não mudou e rendeu um ótimo ponto para uma alfinetada sobre representatividade? Os hábitos alimentares das nossas garotas e Lorelai acusando Luke de gordofobia. É isso que falo sobre AS-P: a sacada está nos detalhes, nos segundos, é sútil e eficaz. Se você pisca, perde, ao passo que funciona como gatilhos em nosso subconsciente. Ainda discordando? Percebam a delicadeza como introduziram a morte de Richard, num bate-papo no meio da noite, simples.

Agora eu peço licença para dar uma embaralhada na cronologia do episódio para ir mais a fundo nas histórias. Sendo assim, vamos falar de Rory? A princípio ela me pareceu fora do script, fora do que conhecemos sobre Rory Gilmore, como ela tivesse perdido a tal essência tão defendida acima. Como é que se explica Rory sendo tão girl-lixo com alguém? Não se fala nem do tom perdido da carreira profissional da personagem, mas da forma como ela tem escolhido lidar com a vida amorosa. Será que depois de tantos relacionamentos tóxicos Rory se intoxicou? Só sei que o tal Paul virou mais uma gag do que tudo.

Entretanto, se a observarmos com calma, vamos perceber que Rory está enfrentando o que todas as garotas Gilmore parecem que vão enfrentar nesse revival: uma busca de identidade, um encontrar-se. Seja se aventurando sexual, emocional e profissionalmente, seja fazendo meditação, corrida ou sapateado. O coração e a razão só doem por ser Logan o escolhido para viver essa aventura. Todavia, insisto tanto na essência por motivos como a busca pela roupa da sorte (sinto cheiro de metáfora aí), quando vemos aquela mesma Rory cheia de manias e tiques.

Adiantando para o Friday Night Dinner, uma saudade eram esses encontros. E esse vem como uma avalanche! Não só pela ausência de Richard e pelas divergências sobre o futuro de Rory, mas por ter aberto as portas por umas das escolhas mais acertadas do revival: o luto.

Talvez esta tenha sido uma das ocasiões em que a tensão na casa dos Gilmore esteve mais intensa. E o flashback nos encarrega de explicar o porquê. Aqui uma confissão que chorei do início ao fim. Ele é emotivo o suficiente para nos deixar com saudade do patriarca, especialmente ao ver os pertences de Richard ao lado do caixão dispostos, e nos preparar para o que julgávamos estar um pouquinho melhor resolvido. Senhoras e senhores, foi o maior, mais ferrenho e cruel embate ente Emily e Lorelai. Eu não queria estar na pele de nenhuma das duas. Socorro. Sofro de perturbações mentais causadas por AS-P. Guardem esta frase de Lorelai: “É a droga de um círculo completo”. E não julguem como simplória a pergunta de Digger Stiles (“Você está feliz?”), ela ainda vai ecoar.

Vai não. Ecoou. Lorelai pode enganar Luke, mas a gente não engana, não. Aquela conversa sobre querer saber se Luke quer um bebê, é ela dizendo que quer um. Está aí algo que o casal precisa melhorar: comunicação. É nítido que Lorelai não está se acabando em felicidade como aparenta. Seu relacionamento parece não estar aonde ela quer, senão não haveria tantas prateleiras, né? Até o Dragonfly não está do jeito que ela gostaria. Sookie é um rombo na história e naqueles corações. O mau humor é reflexo de todos esses fatores.

A tentativa de buscar uma barriga de aluguel valeu, pelo menos para os espectadores. Paris Geller virou uma deusa ao conseguir se estabelecer numa carreira em que ela é literalmente a dona da p&@-$+ toda! Ela uniu todos os anos de loucuras acadêmicas em Yale em uma profissão. E ainda desenrolou um casamento, filhos e um divórcio sem deixar de ser Paris Geller. Manda mais dela!

Uma outra surpresa agradável no episódio: finalmente conhecemos mais sobre Michel e sua vida pessoal. Se lá nos anos 2000, na TV aberta, a opção sexual do concièrge mais estressado de Connecticut era velada, nos anos 2010, nessa revolução social e sexual que assistimos em tela, agora ela é escancarada e temos um Michel muito bem com seu marido Frederich e falando sobre ter filhos. Deu orgulho!

Aliás, essa liberdade vista na televisão nos últimos anos, pode ser claramente observada na maior liberdade do linguajar e dos temas e na postura dos personagens. Oras, Rory e o público cresceram, então já podem beber mais, falar sobre sexo e xingar. Ressalta-se que isso foi feito sem perder aquela tal essência.

Imagem: Arquivo pessoal

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Sem dúvidas Kirk foi o grande alívio cômico do episódio. Sem menosprezar os comentários sarcásticos de Lorelai que tanto deleite nos trazem, o esquisito Kirk veio com tudo. Primeiro, trazendo a tiracolo aquela explosão de fofura suína que é Petal e, depois, não necessariamente nessa ordem, eu sei, seu equivocado serviço de caronas, o Ööö-ber. Corrigindo, Ööööööööööö-ber. Valeu pelo carro velho, pela água duvidosa, pela performance a cappella do Carpenters, pelo transporte naquela carretinha e pela solução do mistério de sua presença no Friday Night Dinner.

Aqui se pede especial atenção para Berta. Será que estamos diante da única empregada doméstica de Emily Gilmore que não será demitida? Inclusive, o que às vezes pode ter sido lido como piada, vê-se como provocação e uma defesa a um novo quadro populacional e social que vem se solidificando com a derrubada de fronteiras das línguas.

E no ápice do episódio, temos Emily Gilmore de jeans e camiseta, desapegando-se de tudo que não lhe traz alegria, seja o que for, até suas antiguidades caríssimas. Ah, o luto e suas formas, cada um na sua maneira, com suas pirações e sentimentos. Foi lindo! Tão Gilmore ver o amor no meio do ressentimento. O coração chega apertar.

Seguindo os créditos inicias, terminamos com uma Rory mais perdida ainda, um Luke decidido pela recusa à barriga de aluguel, uma Emily que resolveu aceitar um conselho da filha e uma Lorelai sem saída a não ser aceitar a negativa do companheiro e a intimação da mãe. E terminamos com um episódio poderoso, de texto poderoso, equilibrado entre o riso e o choro, forte e sensível na medida.

Confesso que assim que terminei de assisti-lo, me peguei pensando na sua importância dentro do revival, se não teria sido apenas um episódio, como dito acima, para nos recolocar nesse universo. Engano de uma interpretação precipitada e rasa. “Winter” é a porta de entrada e daqui não tem volta. É para mexer com os mais variados sentimentos. É para cair de cabeça nessa nova trajetória dessas três mulheres.

E como eu sei que existem alguns fãs viciadíssimos como eu, que procuram cabelo em ovo e ainda adoram desvendar os caminhos da história, baseada em alguns destaques dados a alguns pontos apresentados na história, aqui vão alguns palpites para se prestar atenção nos próximos episódios:

  • Rory e o apego pelo Stars Hollow Gazette
  • A primeira música cantada pelo trovador, falando das estações do ano.
  • O Wi-Fi e a(s) senha(s) do Luke’s Diner
  • Os sonhos de Lorelai

Menções honrosas:

  • A nova placa do Luke’s Diner
  • Paul Anka vestido de Luke
  • O faniquito de Taylor defendendo Luke, que retribui contribuindo com a saga dos esgotos.
  • A palinha do Hep Alien

P.S.:  Adoro quando a AS-P brinca com informações da vida real dos personagens, isso porque o Danny Strong, que interpreta o Doyle, é realmente um roteirista.

Melina Galante

Melina Galante

Produtora e realizadora audiovisual, no momento em processo acadêmico. 99% seriadora com aquele 1% noveleira. Divide as fases da vida em Buffy, a Caça-Vampiros, Gilmore Girls e Grey's Anatomy. Sua menina dos olhos, porém, é Penny Dreadful. No Mix de Séries escreve as reviews de Modern Family, Orange is the New Black, Scandal e o que vier.

3 comments

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  1. Avatar
    Juk 25 novembro, 2016 at 21:47 Responder

    já acabei de ver a série e olha tá muito boa. Esse primeiro episódio é bem e mesmo tendo conhecido a série esse ano eu fiquei com a sensação de nostalgia como se eu tivesse acompanhado ela na época que passava no SBT

  2. Anderson Narciso
    Anderson Narciso 27 novembro, 2016 at 11:39 Responder

    Foi lindo esse começo. OOO-ber. Meu Deus como eu ri. A cena do funeral foi maravilhosa…
    Agora, não curti esse lance da Rory amante do Logan. Mas acho que faz tudo parte do pacote de quão bagunçada a vida dela está…

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