Gilmore Girls: A Year in the Life – 1×02 – Spring

Imagem: Arquivo pessoal

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“Está na hora de enfrentar dificuldades. Altos e baixos. Quanto mais velha ficar, mais vai ter.”

“Spring”, o segundo episódio dessa odisseia do cotidiano das mulheres Gilmore, vem mais revelador e potente, desenvolvendo melhor as tramas até aqui apresentadas e sendo também um momento para Rory, Lorelai e Emily passarem por novas experiências e se testarem. Se “Winter” veio para fazer as honras, “Spring” veio para aprofundá-las.

Já inciamos com Lorelai e Emily na novidade da terapia, local para onde aquela foi intimada, e obviamente os desabafos não viriam na primeira sessão, nem na segunda, na terceira, etc. Os únicos barulhos do consultório de Claudia vêm do relógio e do ajeitar de corpos no sofá. Lorelai  quebra o silêncio da passivo-agressividade e o embate entre mãe e filha começa. E nessas alternâncias entre silêncios que dizem mais do que tudo e lavações das roupas  sujas  há muito tempo, vamos acompanhando as brilhantes sequências das várias sessões de terapia. Confesso que ainda não sou capaz de dizer qual é minha favorita. Está valendo escolher todas? Tivemos de tudo nelas: bons diálogos, ressentimentos antigos, feridas novas, piadas, alfinetadas, revelações, confusões e, ao final, uma terapeuta perturbadíssima. Se Claudia fosse um a Friday Night Dinner, ela precisaria de reforço.

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Sabem outra coisa que não consigo escolher? Qual foi a melhor parte do Festival Gastronômico Internacional de Primavera. Tem Rory e Luke discutindo sobre quem cuidaria de Lorelai, Mr. Kim, Taylor, Kirk, o pacote completo para um ótimo festival. Até o leilão das cestas retomaram e foi maravilhoso! Boa também foi a Town Meeting e a tristeza geral por  Stars Hollow não ter moradores LGBT suficientes na comunidade.

Voltando para Lorelai e Luke, se percebe que a situação começa a desandar, só para acabar com a felicidade geral. E mais uma vez a falta de comunicação do casal reforçada pelas intromissões dos pais de Lorelai parecem ser os motivos. Richard, mesmo em outro plano, continua comandando e se fazendo presente. O quadro e o testamento são meras ferramentas para marcar essa imponência. Emily, por sua vez, não se aquieta e parece se alimentar dos atritos entre Lorelai e Luke. Quem acha que Emily um dia deixará de tentar se meter na vida de Lorelai errou feio. Faz parte dela e é agora na condição de líder do clã Gilmore que ela se tornará mais veemente ainda. Não há quem pare Emily Gilmore, somente ela mesma.

Foi importante ver Lorelai vencendo sua resistência à terapia, tendo assim alguém com quem se abrir. Já tinha passado da hora de descobrirmos como Richard havia morrido, sabíamos que tinha sido fulminante, mas não havia detalhes. É aí que há retorno ao luto como abordagem e gatilho dos conflitos. É algo que balançaria a vida de qualquer um e é preciso dar tempo para digerir os fatos. O celular pode até voltar a ser uma calculadora, mas as feridas continuam ali, a saudade também. E Lorelai tem recebido muitas porradas. Ainda tem Michel que dá ares de que largará o Dragonfly. Tem o sonho com o Paul Anka cantor, lembrando que ele surge em momentos de instabilidade na vida de Lorelai. Várias peças que estão se juntando. A dor maior no coração dos java-junkies é ver o casal mentindo um para o outro.

Neste episódio, também vimos que esteja em qual lado do Atlântico estiver, Rory não vai bem. O projeto do livro não vai bem e Naomi Shropshire – aliás, palmas para Alex Kingston – parece ser mais uma anedota ambulante de uma intelectualidade falida, destarte todo o brilhantismo de uma carreira feminista. A amizade com benefícios com Logan não vai bem, e parece que o inevitável mandou notícias com a ida de Odette, a noiva de Logan, para Londres. E para embaralhar mais as coisas, ainda mandam um péssimo digestivo chamado Mitchum Huntzberger (guardo raiva dele até hoje!). A princípio, a visita a Chilton parecia que traria novos ares a ela. Ledo engano. A ida à antiga escola serve para Rory se desesperar ainda mais com as incertezas de seu futuro, seja pela própria Paris e o sucesso na carreira, seja por aquele papo enfadonho do Diretor Charleston.

Imagem: Arquivo pessoal

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Uma pausa aqui para falarmos de Paris Geller, sua postura em Chilton e aquela cena do banheiro. Liza Weil está fenomenal nesse revival! O surto de Paris no banheiro é uma abordagem magnífica sobre a dualidade dos personagens criados por Amy Sherman-Palladino. Tristan serve de gatilho para liberar todas as inseguranças que Paris enterra dentro de uma caixinha muito bem escondida. Ela se mostra de uma vulnerabilidade que está faltando nas outras personagens centrais, que estão insistindo em se manter firmes como se inabaláveis fossem.

Voltando a Rory, no meio desse trem descarrilhado que se tornou sua vida, a gente até faz uma força para entender o que a motivou a ligar para Logan pedindo para Mitchum intervir. O que a gente entende sem esforço algum é a investida dela na revista QG, aceitando uma tarefa cuja motivação pessoal passava longe, ainda assim, pelo menos tentando executá-la em nome da tentativa. Rory está aprendendo o lado obscuro de se fazer o que se gosta, está aprendendo que nem sempre é possível fazê-lo, que haverá lombadas desagradáveis pelo caminho.

E aí que entra a participação de Lorelai, não apenas como uma companheira de viagem divertida, também como uma conselheira descolada se encarregando de contar à filha o dito logo acima. Rory sempre batalhou muito por seus objetivos, isso ninguém discute, entretanto foram raras as vezes em que levou um não na cara. Altos e baixos fazem parte. Rory precisa entender isso e trabalhar com o que tem para seguir tentando. Lorelai foi brilhante com a filha, fez a mãe super compreensiva e até engoliu essa trama tragicômica que é o envolvimento da  filha com Logan. E estou com Lorelai: sou muito mais sexo casual com um Wookie do que com um cara prestes a se casar. Ah, e já que falamos dos homens de Rory, Paul, a gag, foi reintroduzida.

Ocorre que Rory está mais perdida que sei lá o quê, e só quero agradecer por isso, porque isso a torna mais real e próximas de nós mortais. Ela acha, na verdade, tem certeza de que as grandes chances do mundo estão a sua espera, enquanto esnoba um site de menor porte que a vem cercando. Rory quer tudo, mas não sabe como fazê-lo. Acha que pode tudo, mas reclama mais do que age e atribui seus fracassos aos outros e ao sumiço da roupa da sorte. E de que adiantou a roupa da sorte se ela foi achando que tudo estava ganho na entrevista na SandeeSays? O que me leva a concluir que, apesar de ter adquirido um ranço com esse termo, mas é o que temos para hoje, Rory é uma millenial – assim como a tal da Sandee e aquela galera trabalhando com ela.

E graças aos poderes de AS-P e Daniel Palladino, tivemos o excelente ponto de virada na trama de Rory, com direito a um leve ataque de nervos dela, descontado nos celulares, e um dos clássicos scores de Sam Phillips ritmando a sequência. A filha pródiga retorna. Lorelai é que pareceu não estar contando que o papo sobre Rory se estabelecer significaria se (re)estabelecer em casa. Mas a gente já viu essa cena antes, né?

Menções honrosas:

  • A second film by Kirk.
  • Chilton demorou, mas entrou na onda da inclusão e finalmente deixou de ser uma escola em que todos os alunos são iguais.
  • A aparição de Mae Whitman, Marcy, a garota a quem Lorelai dá um bolo cro-dough. Lauren Graham fez a mãe da personagem de Mae em Parenthood, e a piada fica completa com a olhada enciumada de Rory.
Melina Galante

Melina Galante

Produtora e realizadora audiovisual, no momento em processo acadêmico. 99% seriadora com aquele 1% noveleira. Divide as fases da vida em Buffy, a Caça-Vampiros, Gilmore Girls e Grey's Anatomy. Sua menina dos olhos, porém, é Penny Dreadful. No Mix de Séries escreve as reviews de Modern Family, Orange is the New Black, Scandal e o que vier.

4 comments

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  1. Avatar
    Juk 27 novembro, 2016 at 07:28 Responder

    Eu achei que esse episódio foi o episódio que passou mais rápido na minha maratona, nem senti. É bom um episódio, ri em vários momentos e em outros estava com vontade de dar conselhos pra Rory

    • Melina L. Galante
      Melina L. Galante 28 novembro, 2016 at 22:33 Responder

      perdida demais ela. Falaria “Rory, já passei por isso. Bora ali conversar!”. Mas fez muito mais sentido do que se ela fosse apresentada como a menina perfeita ainda.

  2. Anderson Narciso
    Anderson Narciso 27 novembro, 2016 at 11:41 Responder

    Incrível como a Liz consegue fazer Paris tão diferente de sua atual Boonie. Maravilhosa… Ri muito com sua “aula”.

    Eu estou curtindo o revival. Mas esse plot da Rory, pra mim, é o mais chato =/

    • Melina L. Galante
      Melina L. Galante 28 novembro, 2016 at 22:34 Responder

      eu fiquei foi chocada com a Liza! Que mudança e num curto período. Melhor “aula’!

      ele pode até ser chatinho, mas é necessário na história.

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