Gilmore Girls: A Year in the Life – 1×03 – Summer

Imagem: Arquivo pessoal

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“É uma história do luxo ao lixo. Ela tem tudo. Problemas familiares, lutas de classe, lance da mulher independente.”

Quando um projeto é bem feito, ele é bem feito. E Gilmore Girls: A Year in the Life o é. Percebam a escalada dramática da trajetória que tem sido esses episódios. “Winter” é a retomada; “Spring”, o enfrentamento; e “Summer”, a antecipação; sendo “Fall”, é claro, a conclusão. Diz-se isso porque “Summer” é aquele episódio que sucede o caos, acalma os ânimos, justamente para voltar com mais bombas que só serão resolvidas na conclusão.

Este é um episódio que se propôs mais leve, no clima do ópio que é o verão, piscina, sol, férias, crianças brincando com um hidrante quebrado – dozinha de Dewey e Brandon – e, não poderiam faltar, ainda que só na menção, os Dias Preguiçosos e Malucos de Verão e um novo festival em Stars Hollow, desta vez um musical, que convenhamos poderia ter sido bem, mas bem menor do que foi. Ele vale um bocado pela performance da incrível Sutton Foster como Violet, mas não se sustenta em seus mais de 10 minutos. E lá pelas tantas, faltando cerca de 30 minutos para seu fim, ele se encorpa e retoma os conflitos que estão movendo essa trajetória, preparando as dinâmicas para o último ato.

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Close errado são as críticas aos corpos ocupando a área da piscina, cheias de julgamento e gordofobia. Podíamos ter passado sem essa, hein? Ok, pouca roupa pode causar desconforto nas mais variadas circunstâncias, só que todo mundo tem o direito de usar o que quiser, né? Um ponto a menos para as meninas Gilmore.

Umas das grandes piadas de “Summer” é a volta-não-volta de Rory para Stars Hollow e sua situação se encaixando no quadro da Gangue dos 30 e poucos. Lembram-se que na review passada falei da situação de Rory diante de uma panorama maior, inserindo os conflitos da personagem como um conflito geracional? Pois bem. A Gangue dos 3o é justamente isso e não poderia haver definição melhor do que a de Babette. É um recado sarcástico e bestial de Amy Sherman-Palladino e Daniel Palladino para essa (minha, nossa) geração leite com pera, uma geração de certa forma privilegiada e inflada, que está se perdendo em si. Excelente sacada foi dar um espaço aos pais e mães da Gangue dos 30, como se de criancinhas cuidassem e falassem. Foge, Lorelai!

Falando em Gangue dos 30, a galerinha da geração Y, April Nardini, aqui representando a geração Z, não poderia estar mais caricata. Mais uma alfinetada do casal Palladino, agora na geração seguinte com suas causas, protestos, estilos, viagens e plataformas de comportamento. Isso se reforça ainda mais no faniquito que April tem no quarto de Rory, no modo como April idolatra e destrói Rory na mesma moeda. Vai, é chato encaixar as pessoas em caixinhas padronizadas, mas o recado foi dado!

Agora vamos atestar um fato: Logan é uma das pessoas mais tóxicas da vida de Rory, e ela simplesmente não consegue perceber isso. Existe algo que faz com que ela não consiga largá-lo (Obrigada pela constatação, Lorelai!). O comportamento dele é tóxico, o discurso dele é tóxico, as justificativas são tóxicas. Parece que ele parou no tempo, só ficou mais rico e mudou de endereço. Não tiro a parcela de culpa de Rory de ter se envolvido com um cara comprometido. Desiludida, volta Rory para as escadas de sua casa tentando se encontrar. Incomoda o fato da personagem ter essa necessidade de um aval amoroso para seguir com a vida. Ela procura Logan tal qual um cachorrinho abandonado. E, por favor, não confundam esse tipo de relacionamento abusivo com a liberdade de um amigo que a conhece profundamente. Sim, estou falando dessa maravilha evoluída e amadurecida que demorou a aparecer: Jess Mariano.

Lembram-se que lá na primeira review pedi que prestassem atenção ao apego de Rory à Gazeta de Stars Hollow. Estamos explicados? Muito significativo ver Rory abraçando um projeto desses, tocar a redação do jornal que a  fez tomar gosto pela mundo do jornalismo, em um ambiente completamente diferente do que ela está acostumada, desde a ausência de tecnologia de ponta à equipe da Gazeta, formada pela incrível dupla Esther e Charlie. É como se Rory tivesse a oportunidade de recuperar a paixão que tanto está procurando. Fora que a sequência dela e de Lorelai entregando a edição do jornal foi esplêndida!

O golpe de mestre da visita de Jess é fazer, mais uma vez, Rory expandir seus horizontes. Antes que critiquem, não é que Rory precisa de um homem para fazê-la ver além, ou que ela não seja auto-suficiente. Os dois se conhecem demais. Antes de qualquer envolvimento amoroso, existe um carinho, uma cumplicidade amistosa entre eles. Todo mundo tem aquele(a) amigo(a) que te conhece como ninguém e te faz ver além. Jess é isso para ela. E assim nasce a genial ideia do livro sobre as garotas Gilmore.

Aí que começa a virada do episódio, até  então muito leve e pacífico. Os conflitos parecem que vão se desencadeando que nem dominó, um puxando o outro. Parece que Rory, ao futucar os arquivos da Gazeta e querer explorar seu passado, abriu uma fenda para o caos falsamente controlado pelas vibrações do verão. Primeiro, um leve embate entre Lorelai e Emily diante da presença de Jack, e nós entendemos as duas. Lorelai se assustou com a presença do senhor boa pinta, mas Emily está ali viva e uma companhia faz bem e é bom se ocupar. Mas confesso que achei o máximo ver Emily em outros ares, dormindo até ao meio-dia, sem se preocupar com o que a empregada faz ou deixa de cozinhar, além de parecer pouquíssimo interessada na reunião do DAR. Além disso, repito o dito na review passada: Emily se alimenta dos conflitos entre Lorelai e Luke.

Depois, em um momento que deveria ser de pura emoção, Rory e Lorelai entram em confronto por causa do livro e ali percebemos a quantidade de situações mal resolvidas entre as duas também, e o quanto Lorelai deixa as coisas passarem em nome da boa relação. Elas podem até não fazer o tipo passivo-agressivo, o que de forma alguma significa que tudo seja mil maravilhas.

Imagem: Arquivo pessoal

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Na continuação, uma Lorelai já doída pela partida de Michel e pela briga com a filha, não se segura mais e entra em conflito com Luke. Ambos têm argumentos muito fortes para suas questões, e a acusação de Emily, no flashback, de que Lorelai decide tudo por todos, cai como uma bomba na briga entre ela e Luke. De fato, muito esquisita essa relação separada. Cade o “I’m all in“?  Falta nitidamente uma entrega ali. Inclusive, algo que é percebido quando o assunto é April. Fora que se a primeira coisa que Luke desconfia de Lorelai é sobre uma relação extra-conjugal, significa que uma década depois ele ainda se sente inseguro? É uma cena doída de ser ver para os java-junkies, ao mesmo tempo que é de uma entrega, de uma sinceridade que só uma química muito forte é capaz de proporcionar.

Mais para frente, os confrontos continuam, agora com Rory decidindo terminar o interminável com Logan, e adiante com Violet indo tirar satisfações com Lorelai. Os dois momentos serviram para as duas repensarem um pouco mais suas atitudes. Às vezes é uma questão de voltar com o poema para o seu devido lugar.

No minutinhos finais, somos agraciados com um dos momentos mais grandiosos de todo o revival – até agora -, com uma última apresentação de Violet, cantando aquela música feita para Lorelai e para Rory, Emily e quem mais estiver passando por momentos de insegurança e turbulência na vida. “Unbreakable” é o título da canção escrita pelos próprios AS-P e Daniel Palladino e com a colaboração de Jeanine Tesori. Que momento emocionante, que performance de Lauren Graham! A canção ecoa por toda a cidade, ecoa em nossos corações e faz Lorelai enxergar que precisa de novos ares e de um tempo para si. Então, ela decide sair numa jornada, nos deixando tão perplexos quanto Luke ao sabermos do destino: Pacific Crest Trail, ou seja, natureza, ou seja, nada Lorelai. Mas era nunca ou agora. E essa decisão não veio do nada. Podem reparar que nas duas sequências da piscina, Lorelai está com o livro Wild em mãos.

Diante de tanta certeza e tanta veemência dos planos de Lorelai, Luke fica sem escolha senão aceitar o que está para acontecer. E se lá em “Spring” Claudia aponta para o tanto que um silêncio pode dizer, o silêncio que encerra “Summer” nos engole, nos aflige, nos deixa sem reação. Foi ou não foi um soco na boca do estômago?

Menções honrosas:

  • Lorelai fazendo o gesto internacional da maconha para Rory sobre April, sem que Luke, o tradicional, visse.
  • Babette e Ms. Patty: melhores pessoas na paquera!
  • Mrs. Cassini está v-i-v-a! Com quantos anos ela deve estar, gente?
  • Lorelai entregando os jornais enquanto as pessoas fazem aula de Tai Chi Chuan.
  • Lane vestida de Mrs. Kim!
  • Jess tirando o chapéu de Luke. <3
  • O Bar Secreto e todo o esquema para mantê-lo.
  • Lane ao telefone com Logan. Se todos tivessem uma Lane em suas vidas…

P.S. 1: A canção rapidamente apresentada por Sophie, “I Feel the Earth Move” é da própria Carole King.  Mas eu jurava que ela cantaria “Where You Lead“.

P.S. 2: Lauren Graham já participou de um musical na Broadway. Mais uma do casal Palladino incorporando fatos da vida real dos atores à ficção.

P.S. 3: Lorelai está obcecada pelo canal Lifetime.

P.S. 4: Alguém mais está com dor no coração diante da partida de Michel?

P.S. 5: Paul, a gag, continua.

P.S. 6: Vocês estão conseguindo acompanhar a quantidade de referências a outras séries? Não era para menos,. Atualizadas que são, as garotas Gilmore estão ligadas no que acontece na cultura pop, em especial no mundo da televisão. Neste episódio rolou Game of Thrones, The Mysteries of Laura e The Returned. Conta pra gente o que vocês tão conseguindo sacar!

Melina Galante

Melina Galante

Produtora e realizadora audiovisual, no momento em processo acadêmico. 99% seriadora com aquele 1% noveleira. Divide as fases da vida em Buffy, a Caça-Vampiros, Gilmore Girls e Grey's Anatomy. Sua menina dos olhos, porém, é Penny Dreadful. No Mix de Séries escreve as reviews de Modern Family, Orange is the New Black, Scandal e o que vier.

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