Gilmore Girls: A Year in the Life – 1×04 – Fall

GGR104

Imagem: Arquivo pessoal

 

“Ao ciclo da vida.”

Vou pelo óbvio e começar dizendo que simplesmente não queria que este episódio acabasse. “Fall” foi incrível, esplêndido, quase perfeito, tudo o que a criadora, o elenco, a equipe e nós, fãs, precisávamos. Uma apoteose dessa jornada. Como o revival por completo, “Fall” foi tudo isso e mais um pouco.

A começar por esse deslumbre que é Lauren Graham e sua Lorelai. A viagem da personagem em busca de respostas para si, de paz interior e de pensamentos menos assustadores é um de seus melhores momentos na história da série. Do riso ao pranto, Lauren – e Amy Sherman-Palladino, é claro – nos traz uma Lorelai vulnerável, assustada, confusa e resiliente. Um alívio para nós saber que ela e Luke não haviam terminado. Um alívio para Lorelai perceber que ela não é a única em crise. Gente, quem não enfrenta crises e não se questiona ao longo da existência não está vivendo.

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Na busca por encontrar-se, ela dá com a cara na porta até se achar no inesperado. E ali sozinha com seus pensamentos, num lugar improvável, em seu momento de epifania, e ao ligar para Emily, dando aquele relato, é como se tivesse arrancado um peso de si e da relação com sua mãe. Entrar no carro e voltar vazada para Stars Hollow é um ponto de virada em sua história, tal qual com Rory, embalado pelo famoso score de Sam Phillips.

Não era para menos Luke se questionar diante da viagem de Lorelai e estar todo esquisitão. A conversa que ele tem com Jess, contando sobre seus receios, em muito lembra um ataque de pelanca que Dean tem em “To Live and Let Diorama” (5×18), alertando a Luke sobre o desejo insaciável por mudança das garotas Gilmore. Mas Luke sabe pelo tanto que ele e Lorelai passaram para estarem juntos e sua declaração está carregada desses sentimentos. Ela sabe disso. Interessante é a inversão de papéis, com uma Lorelai calada e um Luke em carretilha. O casamento previsto nos astros era consequência. Um encontro que era para ser. E ele foi suficiente, simples e íntimo.

Se havia dúvidas de que esse revival era sobre encontrar-se e descobrir-se, tais foram por terra. Vimos as três garotas Gilmore passando por experiências diferentes, enfrentando novos desafios e amadurecendo. Umas em menos medidas do que as outras, se diga a verdade. O que nos leva a um importante ponto: precisamos falar sobre Rory. Ela assumiu a Gazeta de Stars Hollow e está tocando o trabalho lá, o que acho ótimo como disse na review anterior. Sobre o livro, continua sendo uma boa sacada e algo que ela precisa. Todavia, incomoda o fato da personagem colocá-lo como o divisor de águas, como se sua vida estivesse feita daqui para frente. Antes de achar qualquer coisa, Rory precisa escrever o livro.

E nesse ínterim, a Brigada da Vida e Morte dá as caras. Entendo sua participação pela importância que tiveram na vida de Rory e de boa sacada fazê-la em referência ao musical Across the Universe, o que não a faz menos longa e exaustiva. E irritante, porque aqueles caras parecem que pararam no tempo e continuam os mesmos jovens inconsequentes e almofadinhas dos tempos de Yale. Toda a sequência serviu para reforçar que Logan é aquele cara que Rory não consegue largar, tornando dificílima de engolir a insistência dela em achar uma brecha no futuro de Logan e Odette e a cara de pau dele de insistir no vínculo, seja pelo empréstimo da casa ou por algumas migalhas de horas a mais. Demorou demais para Rory deixar de dar ouvidos a Logan e não surpreende em nada o fato dele se submeter a um casamento nitidamente arranjado.

Dali Rory parece dar sinais de uma auto-consciência e rumo para a casa dos avós, pois é lá onde tudo começou, lá é o local ideal para que ela escreva sua história e de sua família. A sequência inteira são só lágrimas e Rory teve sua epifania particular ao percorrer cômodos e lembranças, até alcançar o escritório e se sentar à mesa de Richard. Até a iluminação estava diferente, com um ar onírico. Foi suficiente, simples e íntimo.

Quem também tem seus grandes momentos é Emily, a começar pelo nítido alívio ao despachar Jack para Hartford e pela agradável surpresa que é vê-la em harmonia com Berta e sua família. Por sinal, Berta merece todos os prêmios da vida por ser a única empregada doméstica a sobreviver à matriarca Gilmore. Na verdade, ela e a família ajudaram Emily a se salvar do vazio e da solidão. E também achando sua epifania particular, Emily ao visitar o Museu de Baleias encontra um novo propósito e sua virada se dá por completo ao abandonar o DAR e ao vender a mansão, revolucionando de vez sua vida. Destarte a humilhação desferida contra a Serena, a candidata à vaga no DAR, ver Emily xingando e mandando às favas todo aquele circo é fenomenal. Mais além, vê-la empoderada ao comprar “coisas grandes” e ter seu nome cravado em um documento como proprietária é libertador para ela. Emily é de outras épocas, sempre cumpriu as funções de esposa e, por mais falta que Richard faça, ela vai viver outras dinâmicas, agora dona de si. Sua cena final, bebendo vinho no jardim foi suficiente, simples e íntima.

Imagem: Arquivo pessoal

Imagem: Arquivo pessoal

Igualmente incrível a sacada de retomarem um diálogo lá do piloto para justificarem a perpetuação do tal ciclo da vida, com Emily repetindo as mesmas palavras de Richard e as suas próprias diante de uma Lorelai com as mesmas reações. “So close.”  Ainda mais significativo fica o mantra do ciclo da vida, com um gosto diferente, não mais como uma amarra, agora como uma aproximação mais amistosa. Os sinais para um futuro mais brando estão ali na comemoração, no vinho raro e no quadro menor. Dessa sequência também sai uma das melhores referências já feitas por Lorelai, ao comparar Emily a Dorian Gray.

Precisamos falar também sobre a estranheza que foi a participação de Sookie. A personagem foi um grande rombo na história e faltou fluidez na cena, isso ficou nítido. Uma grande pena, pois a dinâmica entre Sookie, Lorelai e Michel sempre foi um dos grandes alívios cômicos da série. Da sequência conseguimos salvar só um cadinho, fica mais pela nostalgia do que tudo.

Um outro elemento fortíssimo nesse revival é o silêncio. Na volta de Rory para casa e seu reencontro com a mãe, palavras não foram necessárias para reatar a cumplicidade. No fim das contas, a gente meio que desconfiava que Lorelai abriria mão de sua intimidade para que Rory tocasse seu projeto. Mas antes vimos uma Rory esquisita, marcando encontro misterioso e tendo uma conversa para lá de atravessada com Christopher. Conversa essa que só fariam sentido com as tão esperadas quatro palavras finais. Muito provável que Rory tenha ido ao médico e diante da confirmação da gravidez e da situação do pai da criança, Logan, decidirá ser a força da natureza que é. Ressalta-se que diante de tanto burburinho sobre quem seria o escolhido de Rory, fazê-la optar por si é a escolha que mais sentido faz.

Sabia-se que era um diálogo entre Lorelai e Rory e muito se especulou sobre as quatro palavras finais, incluindo que poderia ser algo relacionado à gravidez. Pessoalmente, nunca apostei nisso, por achar que era simples, óbvio demais. Logo eu que me julgo tão conhecedora deste universo. Toda a especulação me fazia acreditar em algo mirabolante e a resposta estava debaixo de nossos narizes. AS-P nos deu uma rasteira replicando a simplicidade como desfecho. Vejam bem que não defendo a gravidez como resolução dos problemas da vida nem como propósito maior na vida de uma mulher. Pelo contrário, tenho sérias críticas a esse pensamento. A notícia de Rory vem como uma alegoria do ciclo da vida, o mantra do revival.

Gilmore Girls sempre foi uma narrativa sobre relações pessoais, tendo como seu grande trunfo personagens complexos com histórias simples, cotidianas, identificáveis. Gilmore Girls: A Year in the Life segue com maestria a cartilha e nos presenteia com o fechamento de um ciclo e o início de outro. Porque a vida é feita de ciclos, ela não para. Por isso defendo piamente que as histórias não se repetiram pelo simples fato de serem outros personagens envolvidos, com outras motivações, promovendo novas dinâmicas e novas relações, ainda que baseadas em sua predecessoras. Rory está para Lorelai, como Logan está para Christopher, como Jess está para Luke, como Dean está para Max. Quanto à Emily, ela finalmente conseguiu a família que queria. “Tanto tempo para chegar aqui. Às vezes é apenas a jornada, sabe?”.

Os desfechos de Lorelai e Emily são suficientes, simples, íntimos e fortes. Das três, Rory é que fica com mais questões em aberto, talvez por ter pela frente caminhos mais conflituosos e por ter sido a única que não se achou de fato. Talvez seja pela idade, a Gilmore mais nova, tão adulta quando jovem, hoje se permite errar. Diante das especulações de uma continuação, tal seria, por suposto, mais focada em Rory. O  que poderia vir a ser complicado, uma vez que o espírito animal da série – e o meu – se chama Lorelai Gilmore. Neste momento, não sou capaz de opinar sobre o meu desejo por uma sequência, estou entre a razão e a emoção, entre aceitar que acabou no auge e o medo de estragarem.  Mas “eu quero me lembrar de tudo. De cada detalhe.”

O choque fica por conta do corte seco após Rory soltar “Mãe, eu estou grávida”. Restamos perplexos que nem Lorelai, sem tempo para digerir, sobem os créditos e “Where You Lead” toma conta. Foi suficiente, simples e íntimo. A certeza é que ficamos aqui com o sentimento de plenitude por essa conclusão belíssima e com a curiosidade de saber o que vai acontecer daqui para frente. Aliás, mesmo com margem para mais, isso sim é uma finale! Hoje a gente pode dizer em alto e bom som que temos problemas psicológicos e emocionais causados por AS-P (como se já não tivéssemos antes, né!).

Menções honrosas:

  • Os dois guardas florestais, o primeiro Jason Ritter e o segundo Peter Krause, atuaram em Parenthood ao lado de Lauren Graham como noivo e irmão dela, respectivamente. E um deleite mais especial ainda: Lauren e Peter são companheiros desde 2010. Vejam que presentão aos fãs!
  • Jess arrancando o roteador!
  • Michel entrevistando os substitutos.
  • O encontro entre Dean e Rory no Doose’s foi suficiente.
  • Ms. Celine está v-i-v-a! Dessa aí a gente nem consegue prever a idade!
  • Petal e Paul Anka dormindo juntos. <3
  • Quem já viu alguma imagem de AS-P sabe que ela é apaixonada por chapéus e quanto mais diferentões melhor. No episódio, tanto Lorelai quanto Rory usam chapéus no estilo de AS-P: Rory na fantasia da brigada e Lorelai em sua festa de casamento antecipada. Sem contar aquele que compõe o look deusa de Lorelai quando vê o imóvel à venda.
  • As imitações de Kiefer Sutherland.
  • Lorelai malhando para continuar comendo sou eu na vida. Não falei que ela é meu espírito animal?

P.S.: Os críticos ferrenhos de plantão que me deem licença porque não pedirei desculpas por ovacionar essa obra, ainda que reconheça os vários erros pelo caminho – passagens de tempo bruscas; pontes aéreas irreais; o guarda-roupa impecável de Rory e suas andanças (ela não estava falida?); algumas inserções para ocupar o tempo; a gag que foi Paul e como Rory lidou com isso; um começo mais agarrado; enfim. Eu falei quase perfeito.

P.S. 2: Curiosos para saber quem interpretou a incomparável Berta? No último fim de semana, Lauren Graham confirmou que a personagem foi interpretada por Rose Abdoo, a Gypsy. Alguém tinha percebido?

P.S. 3: Jess morou seis meses em SH em algum momento dos últimos 10 anos. Fiquei curiosa para saber mais sobre.

P.S. 4: Kirk já ter vomitado na casa de Lorelai é uma referência a “But I’m a Gilmore” (5×20).

P.S. 5: As referências a outras séries não pararam! Em “Fall” tivemos Sense 8, Buffy 24 horas. Quem dá conta de acompanhar esse ritmo?

P.S. 6: Abraço coletivo no Jess!

P.S. 7: A música que toca na sequência final, “Reflecting Lights”, da Sam Phillips, já tocou antes em Gilmore. Sabem quando? Em “Last Week Fights, This Week Tights” (4×21), no casamento de Liz e T.J., embalando a primeira dança java-junkie.

Melina Galante

Melina Galante

Produtora e realizadora audiovisual, no momento em processo acadêmico. 99% seriadora com aquele 1% noveleira. Divide as fases da vida em Buffy, a Caça-Vampiros, Gilmore Girls e Grey's Anatomy. Sua menina dos olhos, porém, é Penny Dreadful. No Mix de Séries escreve as reviews de Modern Family, Orange is the New Black, Scandal e o que vier.

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