Guerra Civil reafirma a supremacia da Marvel, mas falta em ousadia

Capitao America Guerra Civil

 

O cenário criado pelas adaptações cinematográficas de histórias em quadrinhos é um assunto e tanto para uma roda de amigos. Hoje, é muito fácil você encontrar um grupo de pessoas discutindo sobre os heróis da Marvel e DC Comics que invadiram com força as telas dos cinemas a partir dos anos 2000. A era dos super-heróis nos cinemas é um sucesso e a editora dos personagens de Stan Lee soube muito bem aproveitá-la.

Capitão América: Guerra Civil, novo longa que dá sequência ao universo iniciado em 2008 por Homem de Ferro, reafirma a popularidade destes personagens e introduz uma nova era que a Marvel pretende expandir em suas adaptações. Se o tom mais leve, instalado nos Vingadores de Joss Whedon, era uma das características marcantes destas adaptações, em Guerra Civil a mensagem é clara: as histórias destes filmes evoluíram e estão prontos para tratar de tramas mais sérias e complexas.

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Particularmente, eu nunca fui fã de muitas piadas em filmes de heróis. Em algumas situações, o roteiro de Os Vingadores pareciam stand-up comedy. A grande maioria aprovava e achava o máximo! Mas, e se estes personagens ficassem mais sérios, maduros e experientes? O teste veio com Capitão América: Soldado Invernal, dirigido por Joe e Anthony Russo e o resultado foi mais do que satisfatório: ali, muitos o consideraram o melhor filme da Marvel até então.

Após uma morna recepção de Era de Ultron – que não refletiu em nada na estrondosa bilheteria, a Marvel decidiu entregar nas mãos dos irmãos Russo todo o futuro de sua franquia cinematográfica, e ao meu ver, foi uma ideia mais do que certeira. Apesar de ainda haver espaço para tons mais leves como Os Guardiões da Galaxia e Homem Formiga, a trama central deste universo será conduzida de forma mais séria e Guerra Civil só confirmou este fato. Há piadas, há brincadeiras, mas há também uma dosagem.

 

 

Mesmo levando o nome do famoso arco publicado em 2006, o filme anda por caminhos próprios. Assim como nos quadrinhos, há uma necessidade do governo controlar os super-heróis, porém, toda a trama envolta a esta questão é bem distinta no cinema. Nas HQs, o conflito se desenvolve em torno da Lei de Registro de Heróis, que exige que os superpoderosos revelem suas identidades e trabalhem para o governo. Já no filme, a lei proposta é chamada de “Tratado de Sokovia”, um acordo da ONU que coloca os Vingadores sob o controle da organização internacional, que define como e quando eles irão agir. A liberdade criativa fez bem para o filme, uma vez que neste universo cinematográfico muitos dos heróis já possuem sua identidade revelada. É nesta liberdade que os irmãos Russo viram uma oportunidade de contarem a história que queriam, envolvendo a criação do Soldado Invernal e diversos atos que o personagem cometeu ao longo dos anos – além, claro, da implicância disto na vida dos protagonistas.

A motivação da “Guerra Civil”, ao longo do filme, vai se diminuindo perto do ego dos super heróis e, ao final, você acaba compreendendo que a briga se desenvolveu por propósitos que vão muito além do controle que o Governo queria exercer. Joe e Anthony Russo brincam com o público, fazendo-o torcer hora para o Capitão, hora para o Homem de Ferro e tudo isso com o propósito de dar sentido a manipulação que justifica, ao final, ser a causa da origem desta disputa.

Como toda briga precisa de aliados, muitos dos heróis já conhecidos da franquia deram as caras para ajudarem na batalha, mas, foi na inserção dos novos personagens, que o longa se destacou de forma brilhante. O Pantera Negra, um personagem misterioso e um pouco duvidoso aos olhos de quem não o conhece das HQs, logo se faz íntimo da história, tendo sua origem resumida em poucas – mas suficientes – explicações. Já o Homem Aranha não precisa de introduções. Protagonista de duas franquias, a Marvel resolveu acreditar que o público já sabe quem ele é e só o queria mesmo ali, em ação junto com os outros. Na história, os eventos com Peter Parker aconteceram há seis meses e é graças ao Homem de Ferro que ele ganha um traje tecnológico e afeições que o público conhece. O personagem foi um grande acerto da história, deixando claro que uma franquia própria pela Marvel Studios provavelmente será um grande tacada.

O longa acertou como as cenas de luta, a dosagem nas piadas e uma maturidade refletida nos personagens que já estão há oito anos na ativa. Mas colocar 12 heróis em ação, lutando uns contra os outros, exige um pouco de audácia e, talvez, seja isso que faltou ao filme. Apesar de funcionar do início ao fim, ter uma trama coesa e redonda, sem qualquer forçação de barra, quando saímos da sala de cinema a sensação de que “faltou algo” predomina. Na verdade, os irmãos Russo pecaram em não ousar com a história. O fato de NENHUM super herói morrer ao longo da trama é a maior prova deste ponto, deixando claro que, a Marvel Studios não teve a audácia que a história original publicada pela editora teve. A oportunidade de matar o Máquina de Combate ou, até mesmo, o Capitão América foi perdida, e é uma pena, principalmente porque não seriam mortes insignificantes e vazias. Seriam mortes que renderiam conflitos e tramas, ainda maiores, para o que estar por vir em Guerra Infinita.

Com os acertos se destacando aos pequenos erros, o filme cumpriu bem o seu papel e reafirmou a supremacia da Marvel na conjuntura atual das adaptações de histórias em quadrinhos. Mas na disputa entre Capitão América e Homem de Ferro (ou até mesmo entre Marvel e DC Comics, que se viu aos holofotes em levar Batman e Superman aos cinemas no mês passado), quem saiu ganhando foram os fãs, que estão aproveitando em cada longa metragem o maior entretenimento possível. 2016, para os heróis, está só começando!

Anderson Narciso

Anderson Narciso

Mestre em História, criador de conteúdo, é o editor responsável e idealizador do Mix de Séries. Eterno órfão de Friends, One Tree Hill e ER, acompanha séries desde que se entende por gente. No Mix é editor de colunas e de notícias e resenha séries semanalmente.

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