Guilty pleasure – Entregue-se ao prazer sem culpa

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Tudo começou quando passei a assistir Glee. “Nossa! Por que Glee?”. “Com tantas outras séries, por que esta?”. “Que vergonha”. É como frequentar uma reunião do AA ou qualquer outro grupo de apoio: “Oi, eu sou o Matheus. Assisto Glee há dois meses e ninguém aceita. Não sei o que fazer. Acho que perdi o bom gosto.” A questão é: eu não perdi o bom gosto. E você, que também tem sua parcela de guilty pleasures, tampouco perdeu o senso de qualidade. Você apenas deixou o preconceito de lado.

Pois assistir um guilty pleasure é isso: deixar o preconceito de lado e não se importar em assistir algo criticado pela mídia e/ou público. Mas o que é o guilty pleasure? Como defini-lo, ou melhor, como saber se uma produção é ou não um guilty pleasure? Aqui entramos na pura e simples questão do gosto. Cada um tem o seu, e o que pode ser uma bomba pra um, pode não ser para o outro, claro.

No conceito, guilty pleasure é aquilo que você gosta mesmo reconhecendo os defeitos e/ou as críticas que as pessoas cropped-the_vampire_diaries_season_6-wide-hqfazem. Isso serve para música, livro, filmes, série, roupas e até mesmo para pessoas. Pegue um filme que você saiba que as atuações são ruins, a direção amadora, a trilha sonora é péssima e o roteiro previsível. Ainda assim, algo nele faz com que você goste do resultado geral. É ruim, mas de certa for é bom. É o “prazer culpado”.

Mas de onde nascem estas culpas? Muitas vezes uma série é tida como guilty pleasure por causa de outra série ou filme. Pegue The Vampire Diaries como exemplo. Criou-se um preconceito em volta do programa muito devido ao insucesso artístico de Crepúsculo. Vampiros adolescentes e românticos novamente? Não, obrigado. E assim, a série, que nem é ruim, virou um “prazer culpado” de grande parte do público que muitas vezes tem vergonha em assumir que gosta do show.

Vergonha, aliás, sempre vem acompanhando a culpa. O que chega a ser triste, se pararmos para analisar. É lamentável que alguém tenha vergonha daquilo que assiste. É triste que uma pessoa não possa falar abertamente em uma roda de discussões sobre suas séries, pois tem medo do julgamento alheio. Pois todos devem entender que é possível gostar de Teen Wolf ou Supernatural e ainda assim adorar The Sopranos e Deadwood. Uma coisa não anula a outra, e em um universo tão amplo como o da TV, variar sempre é a melhor escolha.

2a07faAlgumas séries se assumem como guilty pleasure sem vergonha alguma, chegando a usar o termo como uma de suas características. Glee e Jane the Virgin podem se encaixar neste grupo. Glee, uma das séries mais criticadas das últimas décadas, é tida como fiasco; uns a chamam de “tola”, outros insistem no termo “série de mulherzinha”. O grande ponto é que Glee é um programa justamente sobre isso, sobre preconceito e aceitação. Neste sentido, o musical de Ryan Murphy é praticamente metalinguístico e prova seu ponto de vista sem muito esforço.

Na história, um grupo de misfits luta para ser aceito e respeitado. Mas a maioria dos estudantes e professores da escola considera o grupo vergonhoso: quem participa de um grupo de canto e dança? É como se o público criticasse a série do mesmo jeito que os personagens da série criticam o Glee Club: sem fundamento algum. Eu tinha dúvidas e preconceitos com a série, mas foi só começar a assistir alguns episódios para ver que era tudo bobagem.

O mesmo serve para qualquer comédia, musical ou séries de heróis ou do canal CW: sim, o elenco às vezes é ruim, os efeitos especiais geralmente são duvidosos, as histórias não são profundas e geralmente não há contexto social ou político. Mas e daí? A maioria delas é divertida, e isso, no final, é o que conta. Sim, Tyler Posey é péssimo ator, os efeitos especiais são duvidosos e o drama às vezes força a barra, mas Teen Wolf é divertida. The 100 começou como série adolescente e hoje rivaliza com muita série poderosa tanto em termos narrativos quanto técnicos.trueblood-wide

E a lista dos guilty pleasures não para. True Blood é praticamente um sinônimo do termo. Outras entram no grupo mesmo depois de serem sucesso de público e crítica, como Lost e Dexter, que todos amavam e hoje adoram falar mal. No final, o guilty pleasure é tão importante quanto qualquer outra série, seja ela vencedora do Emmy ou adorada pela crítica especializada. Estes prazeres culpados são vitais na “cadeia seriadora” e tê-los faz bem. Ninguém sobrevive só de coisa saudável indicada pelo nutricionista. Uma porcaria e outra faz bem pra saúde.

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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