Hacks – 4ª temporada continua hilária e prova ser uma potência da TV | Crítica

É um alívio – e uma alegria – poder dizer: Hacks continua espetacular. A comédia da Max, estrelada por Jean Smart e Hannah Einbinder, estreou sua aguardada quarta temporada com os dois primeiros episódios e reafirmou tudo o que a tornou um fenômeno cult desde o começo: diálogos impiedosos, personagens cheios de camadas, risadas que doem e uma tensão emocional que paira no ar mesmo entre uma piada e outra.

Sim, a série segue sendo hilária. Mas, mais do que nunca, ela está mais crua, sincera e… caótica.

A guerra silenciosa (ou nem tanto) entre Deborah e Ava

Ao reencontrarmos Deborah Vance (Smart) e Ava Daniels (Einbinder) em Hacks, as coisas estão, como sempre, longe da harmonia. A relação entre as duas nunca foi estável, mas agora atinge um novo patamar de toxicidade velada. No fim da temporada passada, Ava basicamente chantageou Deborah para se tornar chefe de roteiro do novo talk show da veterana – e Deborah, claro, não deixou isso barato.

É o tipo de dinâmica que faz o espectador rir com culpa. Deborah envia uma denúncia anônima à emissora insinuando que Ava está usando drogas no trabalho. Ava, por sua vez, responde com frases como: “Você e Maria Madalena estão empatadas pelo título de prostituta mais velha do mundo?”. O jogo é baixo, e ninguém está a salvo.

Mesmo assim, a gente torce pelas duas. Porque Hacks, em sua genialidade, nos faz entender que essa é uma história de amor – torta, cheia de vícios, mas de amor.

Ava: rancor, insegurança e genialidade

Se Jean Smart continua uma força da natureza no papel da ácida e icônica Deborah, Hannah Einbinder brilha ainda mais nesta nova temporada. Ava, agora oficialmente parte do sistema que tanto criticava, está mais instável do que nunca. A “energia rançosa” diagnosticada por uma vidente é só um reflexo de sua batalha interna: a culpa de fazer parte de um sistema opressor, o desejo de ser reconhecida e a necessidade desesperada de provar que é tão talentosa quanto acredita ser.

Einbinder entrega cada linha com uma mistura irresistível de autoironia e frustração, conseguindo nos fazer rir e nos identificar em igual medida. Ava pode ser irritante, mas é também incrivelmente real.

Deborah 2.0 e o medo do fracasso

Deborah, por outro lado, está em plena fase de reinvenção. Mas será que ela realmente quer mudar? Enquanto luta para transformar seu novo talk show em um sucesso, ela precisa lidar com sua própria insegurança. “Nunca tive medo de palco – nem quando me apresentei para Saddam Hussein”, ela dispara. Mas sua expressão antes de entrar ao vivo entrega o que ela não diz: até os grandes sentem medo.

É nesse ponto que Jean Smart mais uma vez mostra por que é uma das atrizes mais completas da TV. Em meio a piadas afiadas e provocações, há sempre um olhar, um silêncio ou um gesto que revela a vulnerabilidade de Deborah. Uma vulnerabilidade que, por mais que ela tente esconder, está sempre lá – e é o que a torna tão humana.



Bastidores, caos e uma galeria de coadjuvantes afiados em Hacks

Hacks 4 temporada Max critica
Imagem: Divulgação/Max

Os episódios iniciais da nova temporada de Hacks giram em torno da preparação e estreia do talk show. E como era de se esperar, isso dá espaço para uma enxurrada de situações constrangedoras, absurdas e extremamente engraçadas nos bastidores. Deborah e Ava comandam uma sala de roteiristas com microagressões, sarcasmo e egos em colisão constante. Mas a série evita se afundar no jargão da indústria e foca no que interessa: o drama humano por trás da criação.

O elenco de apoio segue afiado como nunca. Paul W. Downs (também co-showrunner) continua ótimo como o agente Jimmy, sempre exasperado. Megan Stalter, como Kayla, continua roubando a cena com sua ignorância cômica e ascensão meteórica. E há adições de peso, como Julianne Nicholson no papel de uma ex-viral das redes sociais cheia de traumas e seguidores.

Aliás, Hacks segue flertando com o real ao trazer figuras como Nancy Pelosi e Shaboozey como convidados do talk show — mesmo que não os vejamos em tela, só saber que estão ali diz muito sobre o alcance dessa nova fase de Deborah.

Crua, hilária e surpreendentemente emocional

No fim das contas, Hacks continua sendo uma comédia que sabe exatamente onde cutucar. Rimos, sim, e muito. Mas é impossível sair ileso. A série tem o dom de lançar uma frase devastadora em meio ao caos e, de repente, tudo muda. Uma cena de afeto inesperada, um olhar de arrependimento, um abraço fora de hora – Hacks acerta porque entende que o riso só funciona quando o coração está exposto.

A quarta temporada começa com força total, mergulha fundo nas contradições de suas protagonistas e entrega o que promete: uma comédia ácida e sofisticada, que sabe rir da dor – e da vaidade, da insegurança, da busca por relevância.

É, sim, uma das melhores séries em exibição. E se continuar nesse ritmo, vai merecer todos os prêmios novamente.



Hacks – 4ª temporada continua hilária e prova ser uma potência da TV | Crítica
SOBRE O AUTOR
Anderson Narciso
Criador do Mix de Séries, atua hoje como redator e editor chefe do portal que está no ar desde 2014. Autor na internet desde 2011, passou pelos portais Tele Séries e Box de Séries, antes de criar o Mix. Também é criador e editor do portal Folha JF, projeto regional voltado para Juiz de Fora e região. Séries favoritas da vida: One Tree Hill, Friends e ER.