Hipster em Série: Fear Itself – Antologia do Medo

fear-2

Na esteira de Black Mirror, com seu formato de antologia, onde cada episódio é uma história diferente, a Hipster em Série traz Fear Itself. Ao invés do drama ou da ficção científica, a temporada única de 13 capítulos aposta no horror. São treze histórias com roteiros, diretores e elencos distintos, todas passeando pelo horror, seja o gore, o sobrenatural, o de invasão, seita e muitos outros. Para os fãs do gênero, Fear Itself é um deleite. Bem feita, a série reuniu roteiristas e diretores talentosos do meio e lançou ideias interessantes para o público. O resultado não chega a ser perfeito ou se igualar a algo como Black Mirror, mas a diversão é garantida e muitas vezes supera programas semelhantes como Mestres do Horror.

Em outras palavras, Fear Itself é um Clube do Terror para adultos. O objetivo não é fazer pensar ou propor um debate sobre a sociedade; o foco aqui é divertir, e isso o show faz muitíssimo bem. Criada por Mick Garris (experiente no formato depois de Mestres do Horror e Amazing Stories), a série respira uma mistura forte de Stephen King com horror independente moderno. O humor e a perversão estão lá, e embora a qualidade dos episódios não seja constante, não há uma história realmente ruim. Todas são, no mínimo, aceitáveis, e formam um conjunto homogêneo.

Continua após a publicidade

E o time de diretores merece destaque: de nomes mais recentes, como Brad Anderson (O Maquinista) e Darren Bousman (Jogos Mortais 2), até veteranos como John Landis (Um Lobisomem Americano em Londres) e Stuart Gordon (Re-Animator), o grupo se esforça para evocar uma experiência realmente recompensadora na TV. Acostumada às séries de horror básicas, light demais, a televisão pouco vê o gênero se desenvolver de forma apropriada. Em Fear Itself tem sangue de sobra e alguns sustos no meio do caminho, tudo amparado por ideias curiosas e muitas vezes absurdas.

A primeira delas é The Sacrifice, dirigia por Breck Eisner. Nela, acompanhamos um grupo de criminosos que, em fuga e feridos, chegam a um forte erguido no meio do nada, em um descampado coberto de neve. Eles entram no local em busca de abrigo e ajuda. Ao encontrar algumas jovens, o grupo vê uma luz no fim do túnel. Mas alguns segredos obscuros começam a surgir e logo o pessoal descobre que seria melhor ter morrido na estrada ou sangrado até o fim na neve. É um dos mais descompromissados de todos os capítulos e pode afugentar o espectador casual. Ainda assim, vale a pena e dá uma ideia do que esperar adiante.

Em Spooked, de Brad Anderson, acompanhamos um detetive particular em sua nova missão. Afastado anos antes da polícia por matar um suspeito durante o interrogatório, o sujeito vive, agora, de pequenos casos. Contratado por uma mulher que deseja descobrir se o marido a trai, o detetive vai passar uns dias em uma casa para que possa vigiar tudo. Fantasmas do passado, literais ou não, voltam para atormentar a vida do homem cheio de segredos. O episódio flerta com questões psicológicas e pontos de vista, algo que o diretor já explorara no seu maior sucesso, O Maquinista.

Family Man, de Ronny Yu, parte de uma premissa insana, mas interessante. Depois de um acidente, um pai devoto acaba acordando no corpo de um assassino. O bandido, conhecido por matar famílias, agora está no corpo do bondoso pai que precisa correr para salvar a vida dos entes queridos e ter sua vida de volta. A seguir temos In Sickness and in Health, de John Landis, que conta a história de uma noiva que recebe um estranho bilhete no dia de seu casamento. No pedaço de papel dizia que o amado noivo era, na verdade, um serial killer. A jovem acredita que tudo não passe de uma brincadeira, mas novas pistas e um comportamento estranho do noivo a fazer repensar as possibilidades.

Com Elizabeth Moss na linha de frente, Eater é um dos mais bizarros e violentos da antologia. Na história, Moss é uma policial que é designada ao turno noturno de uma delegacia. Ao lado de dois colegas, ela passa algumas horas calmas até a chegada de um novo prisioneiro. O sujeito é suspeito de vários assassinatos e ainda é um canibal. A noite calma vai por água abaixo e uma sangrenta luta pela sobrevivência começa. É claro que uma das mais loucas histórias seria dirigida por Stuart Gordon, de Re-Animator.

Em New Year’s Day, de Darren Bousman, uma jovem acorda em um mundo tomado por zumbis. Sem saber o que ocorreu na noite anterior, ela tenta escapar da casa do namorado enquanto remonta o quebra-cabeças do que pode ter acontecido na virada do ano. No sétimo capítulo, Community, as coisas até se assemelham a Black Mirror. Dirigida por Mary Harron (Psicopata Americano), a trama acompanha um casal que se muda para um condomínio residencial. A comunidade parece perfeita, em total equilíbrio. Mas até a perfeição logo parece fora do normal e os vizinhos logo se revelam.

Em um dos capítulos mais assustadores, Skin and Bones, um homem volta ao lar depois de passar dias perdido na floresta. Como no título, o sujeito está em pele e ossos, extremamente fraco e com péssima aparência. Seria aquela figura aterradora o mesmo homem amado pela família? No próximo episódio, Max Landis, filho de John, faz uma homenagem ao pai com uma história de lobisomens. Na trama, um veterinário começa a se transformar em uma criatura depois de ser mordido por um animal que fora levada a sua clínica. Já em Chance, um dos mais apagados da antologia, um homem de má sorte começa a lutar contra seu próprio alterego maldoso.

Em The Spirit Box, o espírito de uma garota entra em contato com duas amigas alertando que ela fora assassinada e que a verdade precisa ser descoberta. Em Echoes, um sujeito tranquilo descobre que era um assassino sádico em sua vida passada. Tudo se complica quando o espírito de sua vida anterior tenta se apossar da atual. Para encerrar, não poderia faltar uma boa história envolvendo uma cabana perdida no meio da floresta. Em The Circle, um escritor reúne alguns amigos em uma cabana, mas o horror de suas histórias parecem não acontecer apenas na ficção. Encerra a antologia com dignidade e versatilidade, embora não consiga fugir de alguns clichês.

Como um todo, Fear Itself se sustenta com folga. Ainda que tropece é um par de bobagens aqui e ali, o quadro geral é positivo. Além disso, o formato antológico sempre é interessante, pois sempre causa uma certa tensão no espectador: o que vem a seguir? Qual a próxima história? Qual o próximo susto? Assistir Fear Itself é como ler uma coletânea de contos de Stephen King: alguns são pequenos, outros são excelentes, mas todos valem a pena.

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

No comments

Add yours