Hipster em série: Glitch

Glitch

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É aceitável que, de vez em quando, uma temática semelhante seja usada por dois ou mais projetos. Às vezes é questão de timing, ou seja, certa ideia precisa ser discutida naquele momento. Então dois filmes ou livros surgem sobre o mesmo assunto. Na maioria das vezes, contudo, é só coincidência. É assustadora a lista de obras semelhantes lançadas em curto espaço de tempo: Planeta Vermelho/Missão Marte, Espelho Espelho Meu/Branca de Neve e o Caçador, Invasão à Casa Branca/O Ataque, Amizade Colorida/Sexo sem compromisso, O Grande Truque/O Ilusionista, etc. etc. etc. Os títulos se estendem e desperta a dúvida: as ideias correm na indústria e são copiadas. Só isso explica a quantidade de produções quase idênticas lançadas de tempos em tempos.

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Nada explica, contudo, a notável febre das séries sobre mortos que voltam à vida. E não estou falando de zumbis comedores de carne humana. Estou falando de pessoas mortas que simplesmente ressuscitam depois de anos como se nada tivesse acontecido. Poderia ser coincidência? Sim. Poderia ser o boca a boca na indústria que fez as ideias serem copiadas? Acredito que não. O fato é que foram lançadas no mínimo quatro séries absurdamente iguais e elas vêm de três países diferentes! A primeira, Les Revenants, é da França; The Returned e Resurrection dos Estados Unidos e Glitch da Austrália.

E é de Glitch, a melhor delas, que a Hipster em Série fala hoje.

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A Noite dos Mortos Vivos

Glitch, lançada em 2015 na Austrália e recentemente no Brasil pela Netflix, acompanha a história de seis pessoas que ressuscitam e saem de seus túmulos na cidade de Yoorana. O policial James e a doutora Elishia vão até o local e resgatam os que ainda estavam por lá. Além de todo o fenômeno dos mortos voltarem à vida, todos aqueles que retornaram estão em perfeitas condições físicas, tal qual estavam quando morreram. A diferença entre eles é que um morreu há dois anos, enquanto outro estava enterrado há mais de cem. Cada um veio de uma época diferente.

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Entres os que retornaram, Kate é uma das que mais se destacam. Primeiro porque ela morrera dois anos antes de câncer de mama. Agora, o câncer não existe e seus seios, retirados antes de sua morte, voltaram. Outro fator que merece destaque é que ela era casada com James, o policial protagonista do show que, agora, encontra-se casado com outra mulher e espera um filho. Outro que retornou lutara na Primeira Guerra Mundial, outra fora assassinada e outro era prefeito da cidade há mais de um século.

O que diferencia Glitch das outras e a faz ser realmente interessante é o fato de que ela é direta e não enrola o espectador. A série é perfeita para o formato da Netflix, pois parece um filme de seis horas. Cada capítulo é ligado a outra e a trama se desenvolve com fluidez elogiável. Glitch conquista o público e o envolve até o fim. O ritmo, portanto, é um dos grandes trunfos do show que não para um minuto, sempre indo em frente e fazendo a história girar. Em comparação a Les Revenants, por exemplo, a australiana se sai muito melhor, já que a francesa caminha a passos bem mais lentos.

Além disso, todos os personagens de Glitch são interessantes. A série não apela à estrutura básica de “um episódio para cada personagem” e desenvolve todos juntos. O elenco, repleto de rostos desconhecidos na América, brilha ao entregar atuações naturalistas e entregues aos personagens. O fato de serem desconhecidos, aliás, ajuda no processo de identificação, tornando o programa ainda mais intimista e único. O roteiro, contudo, não abandona sua parcela de reviravoltas e drama. Os mistérios são vários e eficientes, o que também garante sua atenção presa até o fim.

Na terra dos cangurus e além…

Glitch é uma das provas daquilo que a coluna Hipster em Série tenta abordar: qualidade televisiva pouco conhecida e espalhada pelo mundo. A série veio da Austrália, de onde a qualidade da TV é notável, embora pouco reconhecida pelo grande público. É de lá, por exemplo, que veio The Slap, da qual o criador de Glitch também é produtor. Assistir a história dos mortos que voltaram à vida pode não ser a coisa mais original para se acompanhar, mas permite que um leque de possibilidades seja aberto.

Com o lançamento da série da Netflix, a plataforma de streaming permite que o público brasileiro possa conhecer produções que saiam do eixo EUA-Reino Unido. Embora não renove na ideia central, Glitch investe em um desenvolvimento caprichado, num elenco desconhecido, mas decididamente talentoso, e na paisagem Australiana. Mudar os ares e ver novos ambientes é reconfortante pra quem acompanha séries há anos e em grande quantidade. Saem os prédios e a paisagem cinza das cidades americanas e inglesas e entram os descampados sépia australianos.

O próprio terreno vira um personagem. O fato dos ressuscitados não poderem passar das fronteiras da cidade, por exemplo, pode ser associado ao país de dimensões literalmente continentais, cercado de águas oceânicas que impedem a saída de sua população. Como todo australiano, aqueles que voltaram da morte na cidade de Yoorana estão ilhados.

A série, ao debater vida e morte, contudo, levanta a questão: não estamos todos ilhados no fim?