Criada por Steven Knight, o mesmo nome por trás de Peaky Blinders, a série House of Guinness chegou à Netflix misturando drama familiar, intrigas políticas e eventos históricos. A produção acompanha os quatro filhos de Benjamin Guinness — Arthur, Edward, Anne e Benjamin — no período após a morte do patriarca em 1868. Mas até que ponto essa história é fiel à realidade, e onde entra a licença poética?
O que é real em House of Guinness
Antes de tudo, sim: os personagens centrais de House of Guinness existiram de fato. Arthur, Edward, Anne e Benjamin Guinness foram figuras reais do século XIX, herdeiros de uma das famílias mais ricas e poderosas da Irlanda.
- Benjamin Guinness: o patriarca retratado no início da série existiu, e foi ele quem transformou a cervejaria Guinness em um império global.
- Arthur Guinness II: como na série, esperava assumir sozinho o comando da cervejaria, mas o testamento do pai o obrigou a dividir os negócios com o irmão Edward.
- Edward Guinness: ficou marcado pelo trabalho filantrópico, especialmente em projetos de habitação popular em Dublin.
- Anne Guinness: herdou pouco dinheiro, mas se dedicou a causas sociais, ajudando pobres e doentes.
- Benjamin (o filho mais novo): herdou quase nada, já que era visto como alcoólatra e incapaz de cuidar de negócios.
Além disso, o pano de fundo político também tem base histórica. Os Fenians, grupo revolucionário que lutava pela independência da Irlanda, realmente viam a família Guinness como alvo, já que seus interesses estavam alinhados ao establishment britânico.

O que é invenção na série House of Guinness?
Como todo bom drama histórico, Knight preencheu as lacunas entre os fatos com diálogos, sentimentos e situações que não estão nos registros históricos.
- Conversas privadas e motivações pessoais: não há documentos que revelem as brigas íntimas ou os pensamentos dos irmãos, então tudo isso é criação do roteiro.
- Sean Rafferty (James Norton): o charmoso capataz e confidente da família é um personagem totalmente fictício, criado para trazer paixão e conflito narrativo.
- Tramas de bastidores: romances proibidos, traições familiares e conspirações dentro da cervejaria são dramatizações pensadas para tornar a narrativa mais envolvente.
Por que misturar verdade e ficção?
Segundo o próprio Knight, a ideia é usar os “eventos reais como pedras de apoio” e, entre eles, especular sobre como esses personagens poderiam ter reagido e por que tomaram certas decisões. A história, afinal, não é feita apenas de fatos públicos, mas também de escolhas privadas — e é nesse espaço que a série ousa criar.
Ivana Lowell, herdeira real da família Guinness e que colaborou no projeto, disse que trazer personagens fictícios como Rafferty ajuda a dar “a paixão e o conflito que tornam a trama interessante”.
O que esperar de House of Guinness daqui para frente

Embora respeite os marcos históricos — como a divisão da herança, os dilemas políticos da época e o impacto social da família em Dublin —, House of Guinness nunca pretendeu ser um documentário. A série se posiciona como uma dramatic fiction baseada em fatos reais, usando os Guinness como espelho de temas maiores: poder, ambição e legado.
Assim, o público pode assistir sabendo que os grandes eventos são verdadeiros, mas os detalhes íntimos, os segredos revelados em conversas e parte das tensões familiares são criações ficcionais, pensadas para transformar história em espetáculo.