Estreou neste domingo na HBO e na HBO Max I Love L.A., nova comédia criada e estrelada por Rachel Sennott, que mergulha de cabeça no universo da fama digital e do narcisismo contemporâneo.
A série, que também conta com Odessa A’Zion e Josh Hutcherson, é menos sobre Los Angeles — e mais sobre a ideia de “L.A.” como um estado de espírito: um lugar onde todo mundo quer ser alguém, mas poucos sabem exatamente quem são.
O show sobre “L.A.”, e não Los Angeles
Desde o primeiro episódio, I Love L.A. deixa claro que não está interessada em retratar a cidade real, mas sim o mito de Los Angeles: o palco do sucesso fácil, da autoimagem e das promessas vazias. O próprio título já é uma ironia — esta não é uma carta de amor à cidade, mas uma sátira sobre a superficialidade de quem vive para ser visto.
Sennott interpreta Maia, uma aspirante a empresária de talentos recém-chegada de Nova York, que vê na antiga amiga Tallulah (Odessa A’Zion) uma chance de transformar a fama online em lucro. A relação entre as duas é o fio condutor da história: uma mistura de dependência, inveja e oportunismo, sem qualquer afeto genuíno — o que parece ser exatamente o ponto.

Fama, likes e o vazio da influência
Um dos acertos de I Love L.A. é retratar a indústria dos influenciadores como uma engrenagem sem alma. Tallulah não tem talento visível: não canta, não atua, não cria — apenas existe sob a luz da tela, acumulando seguidores e contratos de publicidade. A série nunca mostra seus vídeos, o que reforça o vazio de significado por trás da fama.
Sennott constrói um retrato preciso (e dolorosamente familiar) da geração que vive para performar autenticidade. As personagens falam de engajamento, cancelamento e “brand safety” com a naturalidade de quem fala sobre o clima — e o resultado é um retrato ácido, às vezes incômodo, da era das aparências.
Há cenas brilhantes nesse sentido, como quando um assessor de crise explica a Maia o “tempo correto” para pedir desculpas após um escândalo: “Três dias para racismo, dois para homofobia. Antissemitismo, responde na hora.” É o cinismo elevado à norma — e o riso vem com gosto amargo.
Uma sátira que às vezes se perde
Se I Love L.A. acerta na observação, tropeça no ritmo. Ao priorizar o olhar sociológico sobre a comédia, a série nem sempre consegue equilibrar humor e profundidade emocional. As motivações de Maia e Tallulah permanecem nebulosas, e a relação entre elas carece de calor — o que torna difícil se importar quando tudo desmorona.
Ainda assim, a direção de Lorene Scafaria e o roteiro coescrito por Emma Barrie garantem um frescor visual e narrativo. As referências a cafeterias hipsters, brunches em Silver Lake e influencers obcecados com convites para o “Formé dinner” (seja lá o que isso for) são hilárias justamente por parecerem reais demais.
No visual, o figurino de Christina Flannery e a trilha sonora com LCD Soundsystem e Metric reforçam a estética pós-irônica que a série satiriza. É como se cada cena existisse entre o cool e o patético — e I Love L.A. parece saber disso o tempo todo.
O espelho cruel da geração que nunca desliga
O ponto alto da série é justamente sua honestidade desconfortável. Quando uma influencer diz que “se parar por um segundo, você desaparece”, a frase resume não apenas o universo da trama, mas também a ansiedade real de uma geração presa entre o algoritmo e o vazio existencial.
Mesmo sem ser uma comédia cheia de piadas, I Love L.A. funciona como um retrato agudo e melancólico do nosso tempo. Rachel Sennott, que já havia mostrado talento em Shiva Baby, entrega uma performance que mistura ironia, autodepreciação e cansaço, transformando a série em algo mais que uma sátira — é uma crônica do absurdo moderno.
Veredito
I Love L.A. pode não ser tão engraçada quanto The Other Two, mas é mais corajosa: olha para a vacuidade da cultura digital sem glamourizá-la, e faz isso com estilo. Às vezes fria, outras genialmente desconfortável, a série é o retrato perfeito de uma geração que ama se odiar — e que talvez, no fundo, só queira ser vista.
Nota: 8/10