Chegando na Netflix com a missão de emocionar e provocar reflexão, Inexplicável conta a inacreditável jornada de Gabriel Varandas, um menino apaixonado por futebol que, aos 8 anos, sobreviveu a uma sequência de eventos médicos tão extremos que desafiaram os limites da ciência. Inspirado no livro O Menino que Queria Jogar Futebol, de Phelipe Caldas, o longa foca nos eventos de 2013 e 2014 — mas como toda adaptação cinematográfica, também toma liberdades criativas.
A seguir, a gente explica o que realmente aconteceu na história de Gabriel — e o que o filme preferiu adaptar para o roteiro.
O final do filme Inexplicável: um milagre no futebol
O desfecho de Inexplicável entrega um momento catártico: Gabriel, até então debilitado, levanta-se da cadeira de rodas na premiação do campeonato de futsal e caminha até o pódio para erguer a taça ao lado dos amigos. A cena simboliza o “renascimento” do menino e costura de forma poética a mensagem central da trama: entre fé e ciência, o impossível pode acontecer.
Mas a realidade é ainda mais impressionante — e diferente.
Gabriel não andava nem falava no dia da premiação. Ele havia participado da final do Campeonato Paraibano meses antes da doença, e a cerimônia de entrega dos troféus ocorreu apenas no fim do ano. Quando compareceu ao evento, ele ainda estava em fase intensa de reabilitação. O filme troca a cronologia e usa o momento da premiação como metáfora para sua recuperação — algo que, embora tocante, difere do que aconteceu.
A verdade que emociona mais que a ficção
Mesmo sem essa caminhada milagrosa no pódio, a história real de Gabriel continua comovente. Após ser operado para retirada de um tumor cerebral maligno, ele recebeu alta médica. No dia seguinte, retornou ao hospital em estado gravíssimo, com meningite bacteriana. Entrou em coma, teve falência múltipla dos órgãos e chegou a apresentar sinais de morte encefálica.
O médico Christian Diniz — interpretado por André Ramiro — declarou no livro que poderia ter encerrado os procedimentos, mas decidiu tentar a reanimação por impulso. Contra todas as expectativas, o menino reagiu.
A recuperação foi longa: Gabriel voltou a falar só no final de dezembro de 2013 e a andar em janeiro de 2014. Ou seja, não houve milagre instantâneo, mas sim um processo de superação que, por si só, impressiona médicos até hoje.


O que o filme Inexplicável mostra com fidelidade
Diversos momentos dramáticos retratados em Inexplicável são reais. Entre eles:
- A incerteza sobre o tipo de câncer: os médicos cogitaram os tipos mais agressivos, mas a biópsia revelou um tumor com chances de cura.
- O retorno imediato ao hospital após a alta: no dia seguinte à cirurgia, Gabriel voltou ao hospital com meningite e em coma.
- A quase morte: médicos o desenganaram duas vezes. Um deles chegou a dizer “vi Gabriel morto”.
- O tratamento com albumina: descontinuado na época, foi retomado como último recurso — e funcionou.
- A extubação no limite: diante da necessidade de traqueostomia, a equipe arriscou retirá-lo do tubo. Gabriel chorou logo após — sinal de que estava respirando.
- O impacto emocional nos pais: Yanna Varandas, grávida, foi proibida de dormir na UTI. Marcus, o pai, relata até hoje pesadelos com os sons dos aparelhos hospitalares.
O que o filme adaptou (e por quê)
Entre as maiores diferenças entre o filme Inexplicável e a realidade estão:
- O perfil de Marcus: no longa, ele é um cético que encontra a fé. Na vida real, tanto ele quanto Yanna sempre tiveram uma espiritualidade ativa e fizeram orações diárias por Gabriel.
- O desmaio em quadra: Gabriel não desmaiou, mas caiu desequilibrado em dois jogos — o que levou à investigação médica.
- A relação com o médico Christian Diniz: no filme, ele é pai de um colega de time. Na vida real, a família só o conheceu após a indicação da oftalmologista.
- A ambientação em São Paulo: embora o filme não diga explicitamente, foi gravado em SP. Mas tudo aconteceu em João Pessoa (PB).
- O tempo sem pulso: o filme fala em 60 minutos. Na verdade, foram pouco mais de um minuto — o suficiente para provocar um coma profundo.
- A cena da oração na porta do hospital: as vigílias aconteceram, mas na casa de parentes, não no hospital.
- A história do menino atropelado: totalmente fictícia, usada para ampliar o drama coletivo.
Um final que a medicina não consegue explicar
Entre todos os depoimentos presentes no livro que inspirou o filme Inexplicável, o que permanece é um sentimento unânime entre os profissionais: o que aconteceu com Gabriel Varandas foi, sim, inexplicável.
“Gabriel passou dos limites conhecidos pela medicina”, afirma a cardiologista Ana Cláudia Diniz no livro. “Não existe explicação. Ele era para estar morto”, diz outra médica.
Essa constatação talvez seja mais poderosa que qualquer ficção. Gabriel superou um tumor, meningite, falência múltipla de órgãos, coma, e ainda assim, voltou à vida sem sequelas. A medicina aponta os limites. A fé, talvez, explique o que os médicos não conseguem.
Uma história que continua viva
Hoje, Gabriel Varandas segue sua vida ao lado da família. O futebol ainda é parte da sua trajetória, mas o que o menino representa vai além do esporte: ele é símbolo de esperança, de luta e de fé.
Inexplicável, com suas licenças poéticas, entrega emoção. Mas a história real, com todas as suas camadas e complexidades, é tão ou mais poderosa. E nos lembra que, entre ciência e milagre, existe um espaço misterioso — onde a vida insiste em florescer.