A influência Geek na Cultura POP

Imagem: O Super Nerd

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Nesta semana aconteceu o maior evento nerd da América Latina: a Comic Con Experience 2016. E para aproveitar a vibe, decidi dedicar o Editorial Mix dessa semana a um assunto que merece sempre ser discutido: a influência geek no que entendemos como cultura pop.

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Para o bem ou para o mal, ou melhor, seja para acrescentar ou acomodar, não podemos negar o quanto daquilo que consumimos como pop é diretamente influenciado pelos gostos nerds. Seja aquele nerd que se acha mais hardcore e apontam para largas porções da maioria e dizem que eles são “posers seguindo modinhas” ou um nerd mais moderno, que não entende rivalidades antigas como Marvel/DC ou Star Wars/Star Trek, o famigerado nerd power é uma força que não pode ser negada e que determina padrões de qualidade narrativa e técnica, enredos e possibilidades de adaptação… E claro, move multidões.

E é exatamente nisso que a minha ideia de hoje se sustenta. Franquias interias são construídas para atender a um horizonte de expectativas que foi negligenciado e estereotipado pela sociedade e pela própria cultura mainstream que agora sobrevive as custas dos mesmos geeks e eggheads que ela negligenciou. É na apreciação de tal ironia e na realização do impacto positivo que isso teve, tem e terá para aceitação dessa cultura nerd que construí as divagações de hoje.

Mas deixando a ironia de lado, e estando dispostos a apreciar um pouco, fica claro que como em todo processo de mudança cultural, essa assimilação do geek à cultura pop também têm suas vantagens. Nunca antes vimos tanto esforço para se aprimorar a técnica. Nunca antes uma geração inteira teve a oportunidade de mergulhar no melhor não só da cultura pop dos anos 50, 60, 70 e 80, mas no melhor da cultura nerd que era produzida também nesta época e não era apreciada por todos.

Certo, há desvantagens, e existem – e sempre vão existir – problemas. Afinal, estamos falando de uma mudança de padrão cultural. Estamos falando de uma sociedade, e por mais que alguns tentem negar, a cada dia mais a ideia do Ser fragmentado, não único e padronizado, mas composto pelos vários Seres que formam a complexa identidade da Modernidade se prova correta. Estamos falando da sociedade e é literalmente impossível esperar um produto de perfeição que agrade a tudo e a todos em todos os quesitos. Contudo, é seguro dizer que alguém – muitos “alguéns”, para ser preciso – está ficando satisfeito com isso.

Ainda sim, é nesta época de desarranjo e de um Ser eternamente em questão que temos que viver e, decididamente, vivemos muito melhor com aquilo que a cultura pop se transformou quando ela abraçou o nerd power. Como uma criança do início dos anos 90, nunca achei que fosse ver toda uma miríade de coisas que viraram padrão. Quando eu imaginaria possível ver personagens como os de Guardiões da Galáxia – que inegavelmente são personagens “B” – serem transformados num dos melhores filmes que a Marvel já fez, e com uma sequência já programada para assegurar esse título? Vemos heróis, vilões, moralidades e tudo o mais ser apresentado, e sim, há um excesso; mas decididamente é melhor que haja um excesso, é melhor que tenhamos tanto dessa cultura que possamos estar saturados dela do que não ter absolutamente nada, ou ver uma representação cultural tão plural quanto a cultura nerd é ser mantida restrita a um grupo de apreciadores que a sociedade não se incomodava em renegar. A cultura é um lugar de plasticidade inigualável e, com certeza, é mais fácil fazer mudanças de dentro da cultura do que de fora dela.

Se vamos ou não continuar a ver a cultura pop comungar tão intimamente com a cultura geek, da forma atual ou de qualquer outra, eu não sei. É cedo para dizer. Décadas são um tempo consideravelmente pequeno para a cultura e para a sociedade. Mas uma coisa é certa; a cultura nerd sobreviveu e ela sobreviverá. Seja você um daqueles que “odeia” as “modinhas” atuais ou um nerd que incorpora tudo aquilo que os millenials são, ninguém pode negar que a voz desta cultura está sendo ouvida mais do que nunca, e ela vai continuar a ser ouvida, talvez não por todos, talvez não como atualmente, e talvez com os mesmos defeitos dos quais nos queixamos atualmente… mas ela será ouvida. E o significado desta ideia é tão poderoso que valeu a pena gastar algumas linhas com ele.

Afinal, o nerd power já abriu um espaço que não pode ser negado e já determina texto, forma, estética e expectativa. Os tempos mudaram e o mundo se transformou, não como deveria ou como poderia ter sido, mas o paradigma cultural foi alterado mesmo assim. Sempre vão haver discordâncias e diferenças, rivalidades novas e antigas e aqueles que concordam ou não. Mas o maior legado nerd para a cultura pop é o bom senso. Porque todo nerd que realmente se denomina nerd lidou com divergências dentro da própria comunidade nerd; mas todo nerd também sabe o quanto o crescimento e o orgulho dessa cultura tão plural e tão significativa tem o poder de superar qualquer tipo de problema. Então só resta decidir apreciar ou não; porque enquanto alguns perdem tempo com rivalidades vazias, outros já perceberam que há todo um Universo para se explorar do lado de dentro dessa mudança cultural.

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