Invocação do Mal 2: sequência mistura gêneros e mantém qualidade do original

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Invocação do Mal, o original lançado por James Wan em 2013, é um dos melhores filmes de terror dos últimos anos. Indo na contramão das modas recentes, como found footage e ambientação contemporânea, The Conjuring foi para os anos 70 contar uma história no modo clássico de fazer cinema. Sem câmera tremida, sem grandes efeitos, o longa-metragem ainda se arriscava numa abordagem vintage, evocando os grandes clássicos do horror. Neste sentido, Invocação está mais para O Exorcista, em qualidade e execução, do que para qualquer exemplar recente. Esse estilo e identidade segue firme na sequência, que parece ter menos sustos, mas mantém nível da primeira parte.

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Na continuação, Ed e Lorraine Warren estão de volta, representados por Patrick Wilson e Vera Farmiga. Desta vez, após realizar investigações sobre o caso Amityville, Lorraine sugere a Ed que a dupla pare de se envolver em casos sobrenaturais, mantendo o trabalho apenas com palestras, livros, etc. Mas a “aposentadoria” não dura por muito tempo, pois, do outro lado do oceano, em Enfield, no norte da Inglaterra, uma família sofre nas mãos de um suposto poltergeist. A pedido da Igreja, o casal então viaja para a Terra da Rainha para confirmar se o caso é real ou não.

Invocação do Mal 2 tem uma estrutura semelhante ao do primeiro: construindo duas linhas narrativas, a dos Warren e a da família assombrada, o filme vai desenvolvendo as histórias e personagens separadamente. Apenas para, no segundo ato, cruzar os caminhos. Assim, o roteiro encontra espaço para criar personagens tridimensionais em situações diversas e bem arquitetadas, divergindo da maioria dos outros filmes do gênero. É claro que nem todos recebem o mesmo tratamento do roteiro. Groose, por exemplo, que ajuda a família e os Warren no caso, merecia mais espaço e respeito, visto que foi peça fundamental na história real. Além disso, os dois garotos da família Hodgson são mal utilizados e descartados sempre que possível, principalmente o mais velho.

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Ainda assim, é preciso elogiar as atuações principais, principalmente as de Farmiga e Frances O’Connor, a mãe da família. Duas mulheres fortes lidando com seus problemas e tentando manter tudo em ordem. E assim o longa-metragem se sobressai mais uma vez ao trazer duas grandes mulheres no centro da história. Patrick Wilson se sai bem ao retratar Ed como um homem firme, mas carinhoso e zeloso, que sempre quer ajudar, mesmo que as circunstâncias não ajudem. E a cena em que ele canta Can’t Help Falling in Love, de Elvis Presley, é um dos pontos altos da obra. Ao trazer personagens e momentos humanos ao terror, Invocação 2 pode não inovar, mas faz um caminho diferente, fora da curva. A mistura de gêneros, aliás, é uma das melhores coisas no final. Não se trata de um horror puro, mas uma mescla deste com drama, ficção e romance.

The-Conjuring-2-Wallpaper-Desktop-BackgroundMuitas das qualidades, contudo, são créditos do diretor James Wan. Um dos maiores expoentes do horror no cinema, Wan começou com o primeiro Jogos Mortais (o melhor da longa saga), fez um bom trabalho em Sentença de Morte e começou a realmente surpreender no gênero com Sobrenatural, em 2010. De lá para cá, o diretor comandou o primeiro Invocação, a continuação de Sobrenatural e aventurou-se em Velozes e Furiosos 7. O fato é que Wan entende o horror, e isso faz toda a diferença. O diretor conhece o público e sabe exatamente o que fazer para obter os melhores resultados com o gênero. São poucos, atualmente, que têm esse domínio.

O melhor de tudo em seu trabalho talvez seja o modo como ele conduz a trama, movimenta a câmera e subverte as expectativas da audiência. Subversão, em vários sentidos, faz parte do horror. Wan tem consciência do que o espectador vai esperar em determinados momentos e carrega as expectativas até o fim apenas para subverter o que todos aguardam. São vários os momentos em seus filmes que esperamos que algo vá aparecer no reflexo do espelho, ou atrás de alguém, mas isso não acontece. Wan prefere desarmar o público e assustá-lo quando este estiver completamente relaxado. É por isso que seus filmes acabam assustando de forma legítima.

Repare, por exemplo, como o diretor move sua câmera pela casa como se esta fosse um membro da família caminhando pelos cômodos. Note que, em um momento específico, a tal entidade que assombra a família pode ser vista sentada na poltrona, no canto da tela, no escuro. É um detalhe que passa rápido e mal podemos ver. Ainda assim está ali, mesmo que despercebido. É com isso em mente que Wan trabalha com ambientes vazios, cantos escuros, cortinas, etc. São vários os momentos em que a câmera se move de um lado para o outro apenas para revelar algo estranho quando voltarmos ao ponto inicial. Isso sem falar em um belo plano sequência que começa no meio da rua e percorre várias partes da casa. É por isso que Invocação do Mal 1 e 2 são tão bons: antes de ser horror, estes filmes são cinema. Há toda uma construção narrativa e visual e que falta à maioria das outras obras do gênero.

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TV versus Cinema

Antes de virar filme, a assombração de Enfield servira de base a uma minissérie britânica de três capítulos. Estrelada por Timothy Spall e Matthew Macfadyen, The Enfield Haunting não traz o casal Warren, mas se mostra consideravelmente mais fiel à história real do que Invocação do Mal 2. Isto porque o filme usa a história como base, pano de fundo, tendo os Warren como protagonistas. A minissérie, por outro lado, tem Groose e a família como pontos centrais, e por isso se mostra muito mais comprometida com a realidade. Neste sentido, a produção televisiva é bem mais “pé no chão” e, com isso, mais intimista.

Invocação, contudo, é mais assustador. Isso acontece por vários motivos. Um deles é porque é mais fácil fazer horror no cinema do que na TV, algo que discuto neste artigo. Além disso, as propostas são diferentes. De todo modo, ambas as adaptações abordam questões interessantes, como a presença excessiva da mídia no caso e a dúvida que permeia os acontecimentos até hoje. A “assombração de Enfield” é um dos casos sobrenaturais que mais suscitam debates e questionamentos até hoje. Vários acreditam na história enquanto outros tantos enxergam tudo como uma grande farsa. Invocação aborda muito bem essa questão, e a minissérie brinca, até seus minutos finais, com o que pode ou não ser verdade.

É comprovado, por exemplo, tanto por gente de fora quanto pelos especialistas mais próximos, que a família (principalmente as duas meninas) forjou alguns dos “acontecimentos inexplicáveis”. É sabido que as meninas quebraram móveis e objetos da casa, mentiram em relatos e inclusive esconderam um dos gravadores usados nas entrevistas. Ainda assim, muito segue sem explicação. Quem acredita, mas reconhece alguns problemas, afirma que Janet e sua família realmente foram atormentadas por uma entidade, mas que, com o tempo e com a fama adquirida, muitas coisas foram forjadas. O evento todo durou 14 meses, então é possível que a “verdade” tenha durado bem menos tempo. Os mais céticos afirmam que as meninas apenas descobriram o passado da casa e resolveram chamar atenção.

Ao fim, a recomendação principal é: assista o filme e a minissérie. Ambos são diferentes em vários níveis, mas se complementam muito bem. Depois de assistir, e tiras suas conclusões, procure sobre a história e as gravações originais. Mas cuidado, pois os Warren não estarão lá para ajudar.