It – Uma Obra-prima do Medo: a minissérie

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Stephen King é dono de muitas obras-primas. Mestre em seu ofício e notavelmente prolífico, o autor é daqueles que, por trabalhar e arriscar muito, acabam publicando maravilhas de tempos em tempos. A prova é simples: se você perguntar a fãs e leitores do escritor qual sua melhor obra, alguns dirão A Torre Negra, outros apontarão A Dança da Morte, muitos defenderão Carrie e outros tantos garantirão a supremacia de O Iluminado. Um grupo considerável, porém, afirmará, sem pestanejar, que It é a sua obra definitiva, e não estarão errados.

It: A Coisa, um calhamaço de mais de mil páginas, é a tentativa de King para atingir os níveis mais absurdos e íntimos de horror. Segundo o próprio autor havia um pensamento que o rondava: qual monstro trabalhar agora? Depois de visitar vampiros, lobisomens, fantasmas e tantos outros, o escritor teve de se desdobrar pra ter algo novo para falar. Foi então que pensou em palhaços e então pensou na ideia mais assustadora que pudera ter: e se uma coisa pudesse ser todos os monstros? E se essa coisa personificasse todos os medos e se transformasse naquilo que as pessoas mais temem.

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Na sua forma mais comum, a coisa é o palhaço Pennywise, uma figura colorida, mas extremamente assustadora. Para King, palhaços estão entre as coisas mais aterrorizantes da história, e ele está certo. O Pennywise do livro é terrível, no “melhor” sentido da palavra. O que nos traz a IT: Uma obra-prima do medo, adaptação feita para a TV em 1990. Trata-se de uma minissérie em dois episódios lançada em uma época muito diferente da atual. Hoje, temos novas minisséries brotando pelos canais praticamente toda a semana. A liberdade criativa atualmente é alta e a qualidade técnica e narrativa das produções é considerável.

No início da década de 90, contudo, o cenário era outro. Naquela época, não existia nenhuma das grandes séries contemporâneas que veneramos hoje em dia. Sequer The X-Files ou NYPD Blue haviam estreado, para se ter uma ideia. Assim, ver algo como It na TV, uma produção original da TNT, foi um evento potente para a época. Tanto que hoje, quase trinta anos após seu lançamento, alguns elementos da minissérie ainda são comentados. O palhaço Pennywise, vivido com maestria por Tim Curry, por exemplo, é uma constante na internet, e sua figura é uma das mais assustadoras já criadas para o audiovisual.

Agora, na esteira da estreia de uma adaptação cinematográfica para It, vem a pergunta: a minissérie de 90 vale a pena? De modo geral, sim! Trata-se de uma adaptação fiel da obra original, além de um ótimo entretenimento televisivo. A minissérie, contudo, não está isenta de problemas. Para começar, as mais de três horas são divididas entre duas linhas do tempo. Começamos com os personagens adultos percebendo que uma ameaça de infância retornou para assombrá-los. Com isso estabelecido, voltamos alguns anos no tempo e vemos os personagens ainda crianças, na década de 1950, enfrentando o mal pela primeira vez. Logo, diferente da adaptação para os cinemas, que mostrará apenas as crianças, a minissérie entrecortava sua narrativa entre a infância e a fase adulta.

O ritmo é bom e, assim como no livro, é interessante ver os reflexos de uma fase na outra. O grande problema é que os personagens adultos perdem muito do brilho se comparados às crianças. Enquanto foca nos pequenos, a adaptação vai muitíssimo bem ao investir na amizade dos personagens e no impecável clima de época. Toda a ambientação reascende a nostalgia tão almejada por King em suas páginas. Quando se debruça nos dias atuais, porém, It enfraquece e grande parte de seus problemas vem desta fase.

Logo de início os personagens adultos parecem perder totalmente a importância para a história. Alguns vão morrendo e sumindo como se fossem meros coadjuvantes, e embora o livro também faça o mesmo, a minissérie falha ao desenvolver alguns personagens antes de descartá-los. Além disso, o elenco infantil é muito mais carismático que o adulto, e os flashbacks possuem os melhores momentos de horror. De todo modo, a minissérie faz uma boa costura e traz toda a complexidade das páginas para as telas.

O grande problema, entretanto, talvez seja o desfecho da história. King é conhecido por finais polêmicos, já que muitos deles sequer fazem sentido. O fato é que o autor nunca se preocupou com o desfecho de suas histórias, mas com o desenvolvimento. Assim, embora It tenha um clímax bem amarrado, alguns detalhes são totalmente absurdos. A minissérie investe em um deus ex-machina imperdoável que poderia ser diferente. A situação é tão absurda que ultrapassa o limite do aceitável e comprova que nem toda fidelidade é válida.

Por fim, It é uma das melhores adaptações de King para a televisão, fazendo jus à obra original. Tecnicamente, a minissérie é impressionante por motivos óbvios: trata-se de um projeto televisivo lançado em 1990. O resultado, embora estranho e cafona para os parâmetros atuais, é elogiável, e surpreende por ser mais caprichado do que muitas adaptações de King para o cinema. Assim, se você for fã, não pode perder It. E se não for fã, não tem problema: assista do mesmo jeito. Você pode flutuar também.

Todos flutuam…

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Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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