Jessica Jones – 1×01 – AKA Ladies Night [SERIES PREMIERE]

Imagem: Captura de Tela/Reprodução

 

Depois de uma espera que pareceu não ter fim, finalmente estamos reunidos para comentar o tão esperado piloto de Marvel’s Jessica Jones. “AKA Ladies Night”, embora sofra da “síndrome da premiere”, consegue ser um episódio espetacular, numa amostra da qualidade que o resto da temporada tem.

A série já começa de maneira espetacular. A abertura combina um tom de “anos 50” com uma paleta de cores espetacular, trazendo as mesmas emoções que aberturas como a de X-Files, Homeland ou até mesmo Narcos, tudo isso embalados numa trilha sonora espetacular, que cresce junto com as cenas, de modo a nos propiciar uma katharsis ainda mais intensa.

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A narração – presente em outras produções da Netflix – também não está ausente. Na verdade, chega a ser um elemento interessantíssimo no piloto. Considerando os níveis psicológicos e a própria questão do controle da mente (isso sem contar com as reflexões que a própria Jessica faz sobre ela mesma), a narração é uma das maneiras mais simples de manter todos os encadeamentos da produção, enquanto também nos brinda com quotes como “Cheaters are good for business.”

Na verdade, esse cinismo da personagem, algo que a narração enfatiza, é algo que se destaca em todo o piloto. É também este elemento que melhor apresenta o arquétipo em que Jessica está incluída. Fica claro que ela não é uma anti-heroína ou uma heroína falhada; ela tem todo o cinismo, toda a amoralidade, toda a atração que se espera de um herói moderno, sem deixar de temer, ou duvidar, sem deixar de ser assombrada por tudo aquilo que aconteceu com ela.

Talvez a grande diferença seja que toda a história dela com Kilgrave tenha sido o segundo turning point na jornada dela, sendo o momento que, ao invés de transformá-la num tipo de anti-herói ou vigilante – como fez com tantos exemplos seja na Marvel ou na DC –, fez ela perceber o decaimento do arquétipo de herói e reagir a isso. O dialogismo que a série traça com essas reflexões – obviamente com aparições de Luke Cage – é simplesmente brilhante.

Em termos de cor, a série é uma verdadeira festa. Toda a paleta de cores já empregada para construir a Hell’s Kitchen que conhecemos mais cedo neste ano em Daredevil foi “reforçada”; é como se as partes que ainda não tinham harmonizado na estética do lugar finalmente estivessem em perfeita sincronia. Só que não para por aí. A ordem dos teasers (e o próprio trailer) deixou a ideia de que o confronto de Jessica com Killgrave e as marcas do passado dos dois só seriam discutidos no decorrer da temporada. Na verdade, eu particularmente não esperava que fossemos ser presenteados com uma espiada na paleta de cores (LINDA) e no sotaque maravilhoso do eterno Tenth Doctor logo nos primeiros dez minutos do piloto.

Imagem: Arquivo Pessoal

Imagem: Captura de Tela/Reprodução

Na verdade, toda a parte visual associada à Kilgrave é bem mais complexa do que originalmente parece. A série (como era de se esperar) tem sua própria “cor” para os flashbacks, mas usar a desorientação visual para tentar transmitir aquilo que Jessica estaria sentindo, ao perceber que ela nunca esteve realmente livre de Kilgrave, foi brilhante. A trama se envolve intimamente com essas questões visuais, nos rendendo cenas como a que Jessica vê/experiencia Kilgrave lambendo – literalmente – o rosto dela ou a reviravolta que é Hope acabar atirando nos pais, tudo isso com toques da estética visual criada para o personagem de Tennant.

Ainda no departamento visual, a cena em que Jessica vai resgatar Hope, invadindo o quarto em que ela acreditava que Kilgrave estivesse, com aquele olhar fatal, as luzes e a sirene do alarme de incêndio tocando, o medo tangível no ar, formam uma cena fantástica.

O elenco não deixa a desejar em momento algum. Krysten Ritter merece ser aplaudida de pé! O medo visceral, sufocante, inominável que ela transmitiu nos segundos que se seguiram aos primeiros relances de Kilgrave simplesmente me deixou sem palavras. Mike Colter parece ter sido feito para interpretar Luke Cage, porque a química dele com o personagem e com Jessica é simplesmente espetacular. Rachel Taylor – que eu quero ver como Hellcat – e Carrie-Anne Moss, também deixam primeiras impressões bem positivas.

No departamento de easter eggs, todos temos razões para celebrar. Sejam pelos mais óbvios (como o próprio Luke Cage) ou por detalhes menores (como o vidro no qual ela atira o cliente), ou rumores sobre a própria Claire Temple são presença registrada no episódio. Não satisfeita com isso, a série ainda brinca com a presença do vilão, inserindo referências discretas – como o suéter roxo de Jessica, ou a bolsa (também roxa) de Hope – ao fato de que o Homem Púrpura faz parte da trama.

Um tipo de humor que é sombrio por natureza (mas não por vontade própria) também é parte de JJ. O show-off moderado dos poderes de Jessica em cenas que, como a do carro – “laser eyes. Moron!” (I’m still laughing) –, chegam a ser hilárias.

Como um todo, o piloto foi, sim, muito bom. Parte do que vimos nos teasers e no trailer foi mostrado, tudo isso enquanto o episódio brincava com a nossa imaginação. Com efeitos sóbrios, um humor ácido e várias surpresas, Jessica Jones chega prometendo, principalmente, uma coisa: ser excelente.

Richard Gonçalves

Richard Gonçalves

Estudante de Letras, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em séries desde sempre. Fã de carteirinha de Doctor Who, House, Battlestar Galactica, Sherlock, 24 Horas, The Borgias, Penny Dreadful, E.R. e Lost. Aqui no Mix de Séries é editor de reviews, além de escrever as reviews de Marvel's Jessica Jones, Marvel's Agents of S.H.I.E.L.D. e The Originals.

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