Jessica Jones – 1×03 – AKA It’s Called Whiskey

Imagem: Arquivo Pessoal

Imagem: Captura de Tela/Reprodução

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“AKA It’s Called Whiskey”, terceiro dos treze (excelentes) episódios de Jessica Jones, traz (literalmente) um pouco de tudo. Talvez seja uma abertura um tanto vaga, mas ela não deixa de ser verdadeira. Afinal, o episódio começa com mais uma sex scene entre Jesssica e Luke, continuando quase que imediatamente onde o episódio passado parou. Temos ainda o primeiro confronto direto de Jessica com Killgrave, traquinagens (e a “quase morte”) de Trish, mais sex scenes, discussões sobre a moralidade e o arquétipo antigo de herói pelo ponto de vista de um herói moderno e ainda, referências curiosas aos Vingadores.

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É por esses dois últimos tópicos que quero começar a review. Em tempos tão agitados no MCU, principalmente por causa da sombra de “Civil War” no horizonte, cada referência, cada discussão – canônica ou não – trazida por qualquer material da Marvel deve receber a devida atenção. Seja apresentando uma estranha (mas razoavelmente interessante) nova origin story para a H.I.D.R.A. – como Agents of S.H.I.E.L.D.  fez no episódio desta semana–, referenciando os Vingadores usando o Hulk (“The big green dude and his crew”) como headline, ou não mencionar Matt Murdock na lista de pessoas com “habilidades” similares na vizinhança, são todas coisas para se refletir.

Entretanto, a reflexão que mais chama atenção não é uma que a série induz, mas sim, uma que própria trama já traz. “Being a hero just puts a target on your back”, a verdade cínica – embora não menos verdadeira por seu cinismo – que Luke Cage traz sobre o papel do herói é uma desconstrução teórica muito forte do arquétipo de herói clássico pelo herói moderno, desconstrução esta que é mais que apropriada, não só pela atmosfera inerente a Hell’s Kitchen, ou à própria Jessica Jones, mas por ser o cerne da natureza do arquétipo em si, humanizando os personagens que o Netflix já nos apresentou (e os que ainda vai apresentar também) e todas as histórias associadas a eles.

Mas, deixando a teoria literária de lado, o episódio – e a série toda, para ser justo – também merece pontos pelo imediatismo. Afinal, este ainda é o terceiro episódio, e Jessica já chegou tão perto de confrontar seu rival que quase deu para sentir a excitação e o medo de Killgrave.

Um elemento recorrente, usado agora para manter o dialogismo moral da personagem com ela mesma, enquanto nos lembra da extensão da culpa e das reflexões morais dela, a narração voltou para pontuar com as reflexões de Jessica a repercussão que as alegações de Hope sobre ter sido controlada estão causando. A própria Jessica já foi controlada, e embora o controle dela não tenha terminado em repercussões tão públicas, ela não está livre de encarar a sua própria caça às bruxas caso o que aconteceu com ela seja revelado.

Entretanto, enquanto essas reflexões – e a culpa pela morte de Reva – consomem a nossa protagonista, a busca dela por um anestésico cirúrgico potente o suficiente para nocautear Killgrave chegou até a Sufentanila, um fármaco usado para estabilizar e manter anestesias gerais em cirurgias de longa duração, ou para tratar dores em pós-operatórios de procedimentos altamente invasivos.

Já na vida pessoal, a relação entre Jessica e Trish finalmente começou a nos render excelentes momentos. Afinal, embora as marcas no corpo da loira fossem um tanto perturbadoras, ela já tinha se mostrado como uma parte que viria a ser importante ao longo da temporada, o que já começa a acontecer. Certo, mesmo que o maior crédito aqui vá para o momento laughing out loud que ela nos proporcionou, ela tem potencial:

“ – What are you afraid of?
– Not much anymore, except… clowns, but that is just common sense.”

Wendy – a ex-wife to be de Hogarth – me surpreendeu. Primeiro porque eu não achava que ela fosse tão ingênua com relação ao estado terminal do casamento, mas principalmente porque, depois do discurso de Jessica, quanto ela começou a prescrever um remédio, achei genuinamente que ela talvez tivesse decidido ajudar. Pelo menos ela conseguiu dar uma alfinetada básica em Jones, mostrando uma dose de personalidade que decididamente voltará como um problema para Hogarth rapidinho durante o divórcio.

A própria Hogarth não deixou barato. Por dois segundos realmente foi crível que ela estava tentando ajudar Hope, mas, no último instante, ela se mostrou tão evil quanto possível, usando e enganando Jessica, Trish e Hope num golpe só, para manter a sua credibilidade imaculada e ainda sim aparentar dedicação ao caso. Em sua falta de simplicidade, ela talvez seja a mais cínica de todos nós.

Enquanto isso, o personagem que eu menos esperava ver ser utilizado tão cedo – Malcolm – foi colocado numa trama particularmente cruel. Já tendo assistido o resto da temporada – don’t worry, there will be no spoilers! – posso enfatizar a parte do “cruel”. Malcolm acreditava em Jessica, ao ponto de classificá-la como uma boa pessoa, e acaba sendo um meio para um fim para ela.

E falando em personagens estranhos, Kirean Mulcare honestamente começa a assustar na sua combinação de família disfuncional, clichês psicológicos e psiquiátricos e obsessão por Jessica. Certo, Ruben parece ser razoavelmente inofensivo, mas não acho que ser obcecado por alguém que é o alvo de alguém como Killgrave seja um bom sinal.

Seguindo em frente, Killgrave foi um espetáculo a parte. Quando ele ligou para o Trish Talk, todo almighty, ficou bem claro que a vida de Trish Walker não estava mais em segurança. A apreciação pela tortura, esse sotaque perfeito, o todo que é a atuação de David Tennant, só enfatizam o quanto é impossível não amar e odiar Killgrave simultaneamente. Talvez seja ousado dizer, mas ele fez o Kingpin parecer brincadeira de criança comparado ao famigerado Homem Púrpura.

Como esperado, a retaliação de Killgrave não tardou a chegar. Confesso que o policial Simpson pareceu extremamente convincente, tornando quase impossível ter suspeitas – que dirá certezas – de que ele estava ali a mando do vilão. A série se preocupou muito em tornar o controle (e o personagem como um todo) de Killgrave o menos caricato possível. Existe uma verossimilhança visceral que todos aqueles que são controlados por ele transmitem, algo que decididamente nos dá ainda mais medo de descobrir a real extensão dos poderes dele.

Satisfeita com todo o resto, a série decide brincar com as nossas emoções ao máximo em seus showdowns. Primeiro, temos Trish sendo quase – enfatizando o quase – morta pelo policial. Depois, para piorar, temos Jessica aparecendo aos 45 do segundo tempo para salvá-la, e mesmo assim, mal conseguindo. E então, ela resolve simplesmente usar a quase morte da melhor amiga como uma forma para tentar achar o seu rival. Digam o que quiserem, mas parece que, quanto o assunto é Killgrave, Jessica não se importa em ser downright fucking cruel com os amigos, o que é meio que um buzz kill quando se pensa em gostar dela.

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Talvez o melhor do episódio, tirando a perseguição em si, tenha sido o momento em que Jessica finalmente encontra Killgrave. Tennant incorporou tanto o personagem que, quando finalmente o encontramos, ele está assistindo rugby, como se nada estivesse acontecendo. Isso sim é um vilão! Ele está movendo toda a sua rede de colaboradores, fazendo policiais matarem (e se matarem) por ele, tudo isso enquanto senta confortavelmente e se comporta como um verdadeiro British Man, e ainda se sente no direito de deixar um “see you later” que aterrorizou Jessica – e todos nós.

Até agora, a temporada não decepcionou. Na verdade, provou que pode ir muito além das minhas melhores expectativas. Cada componente usado, seja técnico, estético, estilístico e até mesmo recursos de roteiro simples  formam um todo espetacular. E, a melhor parte é que não teremos que esperar uma semana para descobrir o que acontece em seguida. Então, trate de dar play no próximo episódio e voltar aqui para mais uma review. Au revoir!