Justiça – 1×02 – Capítulo 2

Imagem: Reality Social (Twitter)

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Se é polêmica que eles querem, eu dou. Justiça entrou em seu segundo capítulo e se manteve envolvente, bem estruturada narrativamente e com boas execuções técnicas e estéticas.

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Saímos de uma das partes nobres do Recife, o bairro de Boa Viagem, e fomos levado pelos canais da cidade à periferia com ares de zona rural, onde as casas mais parecem sítios amontoados, o chão é de terra batida, a infraestrutura é renegada e o acesso é na canela. Para quem conhece a região metropolitana do Grande Recife não é espanto algum. Existe o Recife do casario histórico e dos edifícios majestosos da zona sul e da zona norte, e existe esse Recife de Fátima (Adriana Esteves) e sua família.

E daí que se forma nesse núcleo o retrato de uma classe C trabalhadora, batalhadora e simples, mas que “se dá ao luxo” de ter a casa própria e oferecer uma festa de aniversário para a filha com bolo, docinho, churrasco e cerveja (para os adultos). Estão vendo como dá para ser feliz e ter o que se pode com salário mínimo? A nossa alegria, ela é nossa, seja qual for a adversidade. Esse é o mantra de Fátima. E seguiria tudo nesse fluxo do comercial de margarina com desconto não fosse o carrilhão de acontecimentos que arrebatou aquelas pessoas, aquela mulher.

Por outro lado, ou melhor, do outro lado do muro há uma outra face da classe C, apresentando uma outra configuração de família e de relações afetivas, formada por um homem, uma mulher e um cachorro. Ali Douglas (Henrique Diaz) e Kellen (Leandra Leal) vivem entre a boemia e a dinâmica dona da casa x cachorro.

Ao longo do capítulo, esse antagonismo foi sendo reforçado, tendo sido genial a sacada de apresentarem dois modelos de festas de ambos os vizinhos e mais genial ainda, as declarações de amor, uma para Fátima e a outra para Furacão, ambas em um ambiente tão íntimo que é o quarto.

Imagem: Reality Social (Twitter)

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Voltando ao desenrolar do capítulo, há um expressão nordestina que se encaixa muito bem para as situações que vamos vendo surgir, “febre do rato”, cujo um dos usos é para se referir a algo que está fora de controle, justamente porque aquelas pessoas que tinham tudo em relativo equilíbrio, se pegam desnorteadas.

Sobre o plot deste capítulo, a desestruturação e a (in)justiça vêm com a chegada de Furacão, o cachorro destruidor e feroz caçador de galinhas; com a chegada de  Douglas e Kellen,  que logo de cara impressionaram a pequena Mayara (Letícia Braga); com a crise na empresa de ônibus GTransporte de Euclydes Menezes (Luiz Carlos Vasconcelos), onde trabalha o marido de Fátima, Waldir ( Ângelo Antônio), e a consequente greve desencadeada; e com a patroa que não consegue ter empatia.

Particularmente, sobre esta última, a curiosidade estava aguçada para (re)ver a cena em que Fátima pede a Elisa (Deborah Bloch) para sair mais cedo diante do furdunço televisionado. E como se um retrato tal e qual de muitas das relações existentes entre empregadores e empregadas domésticas, a preocupação ficou a cargo do almoço e não da mãe que não tinha quem buscasse seus filhos na escola.

Sobre Furacão, longe de se justificar qualquer ato de crueldade contra animais, o cão, também uma vítima – e um reflexo – de seu dono, descontrolado e irascível, é uma alegoria dos instintos selvagens que nos tomam e suas consequências também selvagens. É a incivilidade na briga do bar (de onde veio aquela faca? Talvez do mesmo lugar de onde vieram as armas de fogo, da necessidade humana de uma falsa proteção), é a ferocidade no acerto de contas com o cachorro que machucou seu filho (mas não era com o cachorro, entendem?) e é a brutalidade da volta para casa (que casa?) e se deparar com aquele que foi o estopim da derrocada.

E entra aqui também o sensacionalismo da imprensa brasileira, ao retratar nos jornais o perfil de Fátima como “exterminadora de cachorros era traficante” e tocante ver que Mayara, tão pequena, tomou a consciência de que sua vida e a de seu irmão, Jesus (Bernardo Berruezo), estavam em suas mãos. E a fala mais forte do capítulo veio dela: “Quem sabe da nossa mãe é a gente”. Sem eira nem beira, os dois entraram no ônibus e caíram no mundo.

Imagem: Reality Social (Twitter)

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Importante também destacar a predominância por uma câmera na mão, mais instável e agitada, com planos mais fechados, extremamente próxima dos objetos. Todavia, também intercalada com planos mais abertos e estáticos, em momentos de clímax, como é o caso da cena em que Fátima, depois de sair da prisão, retorna a sua casa.

Para além das qualidades técnicas e estéticas, após este segundo capítulo, o trunfo de Justiça se reforça no entrelaçamento bem amarrado dessas histórias apresentadas e em um texto que, apesar de ainda arraigado à tradição verborrágica das telenovelas, está se fazendo forte e articulado.

Lembrando que às quartas-feiras não haverá exibição da minissérie.

PS: Ah, e a trilha sonora continua fenomenal!

1 comentário

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  1. Eduardo Nogueira
    Eduardo Nogueira 25 agosto, 2016 at 08:20 Responder

    Esse segundo episódio foi muito mais intenso que o primeiro, a história foi melhor estruturada e sem contar a atuação impecável de todos, claro que Adriana Esteves (aka nossa eterna Carminha) conduziu tudo de forma extremamente magistral. Ansioso pelas próximas tramas. Ótimo texto, Melina!!

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