Justiça – 1×18 – Capítulo 18

Imagem: Gshow
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Ah, Fátima Libéria do Nascimento! Que mulher você nos mostrou ao longo de sua jornada! E se me permitem a inversão de começar pelo final, você mereceu o desfecho que lhe foi dado.

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Vivemos por muitos anos tendo que engolir o “felizes para sempre” nas narrativas audiovisuais. O cinema está cheio disso, a teledramaturgia brasileira o abraçou de corpo, alma e letreiro de “fim”. É o que dizem: “prá ver desgraça eu ligo no jornal ou saio na rua”. É uma herança romântica que o audiovisual (também) herdou de uma vertente literária, os contos de fada. Tudo tem que dar certo no final. Vai dar certo no fim. Contamos com isso. Afinal, o que justificaria tanto esforço e sofrimento senão a recompensa da resolução triunfal de todos os problemas? Não acredite em crise. Trabalhe. O príncipe encantado está virando a esquina.

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Então veio uma galera que se cansou e trouxe suas inquietações: “isso aí né a vida real, não. Do lado de cá da tela o buraco é bem mais embaixo e queremos ver isso refletido no que assistimos”. Daí vieram as matanças, violências, traições, desapegos, mais violência, ninguém é mais 100% bonzinho nem 100% mau. O bom moço não dá mais ibope. O vilão vira herói nas outras mídias. Comemorou-se e seguimos querendo ver mais sangue, mais pancada, mais treta, mais traição.

Diante desse quadro, não restaria muito chegarmos a um meio-termo conforme a proposta da obra, às vezes pendendo mais para lá, outras mais para cá. Por que toda essa volta? Para dizer que a trama das terças de Justiça teve isso tudo. E que não há absolutamente nada de ruim em terem dado à trajetória de Fátima um final à la tradição das telenovelas clássicas, com direito a pedido de casamento, cantoria e felicidade em família.

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Foquem na trajetória da personagem e em todo o seu desenvolvimento durante a minissérie, em suas falas. Fátima foi grandiosa e genuína, uma força. Aquela que não abriu mão de sua dignidade quando tudo a encurralava para a perda da fé em si. Mas também aquela que se permitiu perder a linha quando não via mais para onde ir. Aquela que doida para se entregar à paixão depois de anos sem um toque, sem sentir desejo ou ser desejada, segurou as pontas, mandou o boy dormir no sofá e foi a mesma que fez aquele jantar romântico improvisado. Uma mulher que quer, mas que se poda. Uma mulher amedrontada pelo passado, porém confiante no futuro. Uma resiliência sem precedentes, ou melhor, com todos os precedentes das mocinhas sofredoras das telenovelas mexicanas, Fátima la del Barrio, que chegou a irritar o mais amável dos espectadores. Fátima foi/é  tudo isso. Não a desmereçam por ter o que lutou para ter: afeto e família.

Oras, não é possível uma pessoa ser assim tão apaziguadora e compreensível diante das porradas. E quando resolve levantar a voz, com toda a razão e direito que lhe competem, acaba vítima de uma opressão de um grupo de imbecis que se fazem maiorais por um falso poder. Neste caso, foram os policiais desta trama – poderia ser qualquer outro tipo de manifestação desse poder. Mais uma vez Fátima se viu em uma situação de limite, na qual precisou colocar sua integridade à prova. E ela disparou para se defender. Talvez o único ato que Fátima tenha tomado estritamente para ela mesma em todos os capítulos, pois tudo o que havia feito até então foi pelo outro. Até seu tiro é torto, Fátima!

E por ter ser falado em conto de fadas, estavam lá Firmino, para resgatar a amada, e Douglas, o fiel escudeiro em busca de sua última cartada na redenção com a vizinha. Sobre esta sequência, ela foi de um primor técnico e estético estonteante!

Mais sobre a família, meio desencontrado o desfecho de Mayara. Ok. Entrar para a prostituição para ser uma das meninas de Kellen era parte de seu plano. Ela o cumpriu, mas não seguiu em frente com a vida. Foi tentar ter a vida de sua rival, e a própria Kellen lançou a profecia. Mayara descolou logo quem pudesse alçá-la para além. Agarrou o gringo e até para a festa da família o levou. Pairou um questionamento sobre essa relação: o desejo de vingança virou admiração?

Incomoda é a necessidade de ambas terem que ter alguém para seguirem seu rumos. Não entendam que se critica a existência de uma companhia. Mas elas dariam conta de si por conta própria, não?

O que nos leva a essa mancada que foi Douglas desprezar Irene. Falta de respeito foi pouco. Tudo bem que pintaram uma Irene beirando o insuportável com a neura da alimentação saudável, mas nada justifica o disparate protagonizado contra ela. E assim Kellen, Douglas e Filé caíram no mundo. Foram gastar uma grana que tem a embalagem dos esquemas de Celso e Maurício (só na sexta para saber) e curtir a vida boa que curtiam lá no começo, agora com mais glamour.

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Toda essa movimentação reforça o tom cíclico do mote da minissérie. É como se as coisas respeitassem a lógica do tudo que vai volta e se você não fizer diferente, não escapa do esquema.

Seguindo sua integridade, Fátima escapou do esquema. Ela está plena consigo. O passado se foi. O cachorro já era outro, aliás o problema nunca foi o cachorro. Estava lá na letra da música cantada por Firmino. Fátima conseguiu sua justiça e nos ensinou um bocado sobre perdão. E mais, entrou para o panteão dos personagens marcantes da teledramaturgia brasileira.

E se que o passou, passou, passaram os deslizes da trama também. Uma escorregada aqui e ali não diminuíram a magnitude desta história. Pelo menos para mim é a que mais perpetuará.

Agora uma dúvida que ficou: de onde saíram todas aquelas pessoas na festa, hein?

Produtora e realizadora audiovisual, no momento em processo acadêmico. 99% seriadora com aquele 1% noveleira. Divide as fases da vida em Buffy, a Caça-Vampiros, Gilmore Girls e Grey's Anatomy. Sua menina dos olhos, porém, é Penny Dreadful. No Mix de Séries escreve as reviews de Modern Family, Orange is the New Black, Scandal e o que vier.