A nova série indiana Kurukshetra: A Grande Guerra de Mahabharata, disponível na Netflix, revisita um dos maiores épicos da literatura mundial — o Mahabharata — em uma versão animada que tenta capturar a grandiosidade e o drama da guerra que dividiu famílias, reinos e crenças.
A primeira parte da produção conta com nove episódios e cobre os acontecimentos que antecedem e marcam os primeiros 15 dias da guerra entre os Pandavas e os Kauravas, dois ramos de uma mesma dinastia.
A seguir, explicamos os principais acontecimentos, a filosofia que guia os personagens e o final da Parte 1 — incluindo o destino de Dronacharya, o segundo grande general dos Kauravas.
O conflito entre primos que abalou um império
A história de Kurukshetra: A Grande Guerra de Mahabharata começa com o mensageiro Sanjay, que relata ao rei Dhritarashtra os acontecimentos que levaram à guerra.
O conflito nasce da ambição de Duryodhan, o herdeiro dos Kauravas, que se recusa a devolver o trono e as terras que pertenciam aos primos Pandavas, filhos do falecido rei Pandu.
Os Pandavas, liderados por Yudhishthir, haviam sido exilados por 14 anos após um jogo de dados manipulado por Duryodhan. Ao retornarem, esperavam retomar suas posses, mas foram humilhados e tiveram apenas uma promessa quebrada. O ápice da injustiça veio quando Draupadi, esposa dos cinco irmãos, foi quase despida em público, provocando um voto de vingança.
Com a ajuda de Krishna — que surge como conselheiro e guia espiritual — os Pandavas decidem ir à guerra. Assim começa a lendária Batalha de Kurukshetra, que duraria 18 dias e mudaria para sempre o destino do mundo.
O dilema de Arjun e o nascimento do Bhagavad Gita
Entre todos os guerreiros, Arjun, o arqueiro mais habilidoso dos Pandavas, é o que enfrenta o maior dilema moral. Ao ver seus antigos mestres e familiares no campo de batalha, ele hesita em lutar, questionando o sentido de matar aqueles que amava.
É então que Krishna, seu cocheiro, revela sua verdadeira forma divina e o ensina sobre o dharma — o dever que cada um tem no mundo, mesmo quando o caminho exige sacrifícios.
A conversa entre Krishna e Arjun dá origem ao Bhagavad Gita, uma das escrituras mais importantes da filosofia hindu, na qual o guerreiro compreende que lutar pela justiça é sua obrigação moral.
Convencido por Krishna, Arjun retorna à batalha com clareza e propósito — e o destino da guerra começa a mudar.
A queda do invencível Bhishma
Nos primeiros dias de batalha, os Kauravas dominam o campo sob o comando do lendário Bhishma, um guerreiro praticamente invencível. Ele possuía um dom concedido pelos deuses: escolher o momento da própria morte.
Krishna então usa a sabedoria contra a força. Ele lembra aos Pandavas da história de Amba, uma princesa que Bhishma havia humilhado no passado. Amba foi abençoada por Shiva e reencarnou como Shikhandi, uma guerreira com corpo masculino, mas alma feminina.
Como Bhishma havia jurado nunca lutar contra uma mulher, Shikhandi foi colocada diante dele em batalha — e suas flechas o feriram gravemente.
Preso por dezenas de flechas, Bhishma não morre imediatamente, mas cai, imobilizado, escolhendo permanecer vivo até o momento certo de deixar o corpo.
Sua queda marca o primeiro grande ponto de virada da guerra em Kurukshetra: A Grande Guerra de Mahabharata
A morte de Ghatotkach e o sacrifício necessário em Kurukshetra: A Grande Guerra de Mahabharata
Com Bhishma fora de combate, o comando dos Kauravas passa para Dronacharya, mestre de ambos os lados. Durante essa fase, surge o guerreiro Ghatotkach, filho de Bhim com a demônia Hidimbi.
Ghatotkach se mostra uma força devastadora, usando poderes sobrenaturais para destruir as fileiras inimigas.
Temendo perder a guerra, Dronacharya ordena que Karn, o melhor arqueiro dos Kauravas, use sua arma mais poderosa — o Ekagni, uma flecha divina que só poderia ser usada uma vez. Karn a dispara contra Ghatotkach, que morre instantaneamente.
Krishna, porém, se alegra secretamente. Ele explica a Arjun que, ao gastar a flecha em Ghatotkach, Karn perdeu sua chance de usá-la contra o verdadeiro alvo: Arjun. Assim, a morte do gigante foi um sacrifício necessário para garantir a sobrevivência do herói.
A vingança pela morte de Abhimanyu em Kurukshetra: A Grande Guerra de Mahabharata
Entre os momentos mais trágicos da primeira parte está o assassinato de Abhimanyu, o jovem filho de Arjun. Ele é atraído para dentro de uma formação militar em espiral — o temido Chakravyuh — e morto covardemente por vários guerreiros, entre eles Jayadrath, que havia humilhado Draupadi anos antes.
Consumido pela dor, Arjun jura matar Jayadrath antes do pôr do sol. Quando o inimigo se sente seguro acreditando que o dia acabou, Krishna cria uma ilusão de eclipse solar.
Jayadrath sai de seu esconderijo e é atingido por Arjun. Logo em seguida, o sol reaparece — revelando que Arjun cumpriu sua promessa sem violar nenhuma regra de guerra.
O fim de Dronacharya e a vitória da astúcia
A Parte 1 de Kurukshetra: A Grande Guerra de Mahabharata termina com um dos momentos mais complexos moralmente do Mahabharata: a morte de Dronacharya, o mestre que ensinou tanto os Pandavas quanto os Kauravas.
Para derrotá-lo, Krishna recorre a um truque. Ele descobre que o general só abandonaria a luta se acreditasse que seu filho, Ashwatthama, estivesse morto. Os Pandavas então aproveitam uma coincidência: um elefante chamado Ashwatthama havia sido morto em combate.
Yudhishthir, conhecido por nunca mentir, é instruído a dizer “Ashwatthama está morto” — mas, ao completar a frase (“…o elefante, não o homem”), o som das conchas de guerra cobre suas palavras.
Dronacharya acredita que seu filho foi morto e baixa as armas, tomado pela dor. Nesse momento, o comandante Dhrishtadyumna o executa.
A morte de Dronacharya encerra a primeira metade da guerra e simboliza o início de uma nova fase, em que a astúcia e o engano começam a superar a honra e a ética no campo de batalha.
O que esperar de Kurukshetra: A Grande Guerra de Mahabharata Parte 2
A segunda parte de Kurukshetra: A Grande Guerra de Mahabharata, prevista para estrear nas próximas semanas na Netflix, deve abordar os dias finais do conflito — incluindo o duelo mortal entre Arjun e Karn, o colapso de Duryodhan e a vitória amarga dos Pandavas.
Se a primeira parte mostrou a perda da inocência, a próxima promete mergulhar no custo moral da vitória — quando heróis e vilões se confundem, e o campo de guerra se transforma no verdadeiro espelho da condição humana.