Desde que estreou, Love Story: John F. Kennedy Jr. & Carolyn Bessette vem sendo apontada como uma das produções mais cuidadosas sobre o clã Kennedy. Criada por Ryan Murphy, a série acompanha o relacionamento intenso e trágico entre John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette até o acidente aéreo que matou o casal em 1999.
No entanto, apesar do tom mais sóbrio em comparação com outras obras do produtor, a produção tem gerado críticas por causa da forma como retrata uma figura importante da vida de JFK Jr.: a atriz Daryl Hannah.
A relação entre JFK Jr. e Daryl Hannah foi simplificada demais?
Na série Love Story, Kennedy Jr., interpretado por Paul Anthony Kelly, vive o final conturbado de seu relacionamento com Daryl Hannah, vivida por Dree Hemingway. O problema é que Love Story opta por mostrar apenas o período de desgaste da relação, ignorando os anos em que o casal teria sido feliz e apaixonado.
Na vida real, o romance entre os dois começou no fim dos anos 1980 e durou até 1994. Houve momentos públicos de carinho e cumplicidade, mas a série escolhe abrir sua narrativa quando tudo já está em ruínas. Isso cria uma impressão clara: Hannah surge como uma figura problemática, distante da complexidade que a produção oferece a outros personagens secundários.
Enquanto estilistas, amigos e familiares ganham camadas dramáticas, Hannah é retratada quase exclusivamente sob um viés negativo.

Conflito com Jackie Onassis e tensão familiar
Um dos pontos mais questionados é a suposta tensão entre Daryl Hannah e Jackie Onassis, mãe de JFK Jr., interpretada por Naomi Watts.
A série sugere que Jackie teria sido um obstáculo direto para o casamento entre o filho e a atriz. Embora existam relatos conflitantes sobre possíveis atritos, não há consenso histórico que confirme esse embate como decisivo. Ainda assim, Love Story assume essa versão como narrativa central, reforçando a ideia de que a matriarca teria vetado a união.
O resultado é um contraste evidente: Jackie é retratada como elegante, sábia e protetora, enquanto Hannah aparece como desajustada e incapaz de lidar com a pressão da mídia e da família Kennedy.
Estereótipos e escolhas narrativas polêmicas
Outro ponto delicado é a associação da atriz a ambientes ligados a drogas e comportamentos excêntricos. A série inclui cenas que sugerem que o estilo de vida de Hannah teria causado estresse constante na vida de Kennedy. Em um momento particularmente controverso, a personagem compara a morte de seu cachorro à perda de Jackie, algo que muitos consideraram exagerado e desrespeitoso.
Além disso, os produtores optaram por não consultar diretamente as pessoas retratadas. Segundo o elenco, essa foi uma decisão deliberada para evitar interferências externas. Ainda que a série admita ter elementos ficcionalizados, o uso de datas e acontecimentos reais pode levar o público a acreditar que tudo aconteceu exatamente como mostrado.
Essa escolha pesa ainda mais quando se considera que Daryl Hannah, na vida real, nunca demonstrou hostilidade pública após a morte de JFK Jr. e Carolyn Bessette. Pelo contrário, a atriz construiu nos últimos anos uma imagem associada ao ativismo ambiental e causas sociais.
Ficção ou reescrita da história com Love Story?

Love Story é, sem dúvida, uma produção bem dirigida, elegante e emocionalmente envolvente. Ao abordar o casamento entre JFK Jr. e Carolyn Bessette, a série tenta humanizar figuras públicas constantemente idealizadas pela imprensa.
No entanto, ao reduzir Daryl Hannah a um arquétipo da atriz “fora da realidade” que não se encaixa no universo político dos Kennedy, a narrativa acaba contribuindo para uma versão parcial da história.
Não se trata de questionar a liberdade criativa de uma obra de ficção, mas de refletir sobre o impacto que esse tipo de retrato pode ter quando envolve figuras reais, ainda vivas e com legados consolidados.
Se Love Story pretende revisitar o mito Kennedy com mais maturidade, talvez também precise reconsiderar como constrói seus coadjuvantes. Porque, quando a ficção decide escolher um lado, ela inevitavelmente influencia a forma como o público enxerga o passado.