Luz, Câmera, 50 Anos ou como apresentar clássicos a uma nova geração

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É sempre indicado rever algum produto com outros olhos. Ou assistir pela primeira vez algo que você não teve oportunidade de descobrir quando estreou porque, provavelmente, ainda não havia nascido. O mercado de Home Video facilitou a vida de muita gente nesse quesito, junto com a internet e a chegada dos serviços de streaming.

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Prestes a completar 50 anos no ar, a Rede Globo resolveu reprisar alguns de seus maiores sucessos seriados em formato de telefilme. A ideia funciona para alguns títulos que foram ao ar como microssérie, mas não cai tão bem em outros programas mais longos. Foram escolhidos ao todo 12 minisséries que marcaram a teledramaturgia brasileira desde 1982 e fazem parte da memória popular, não apenas do ponto de vista dramatúrgico, mas histórico.

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O Canto da SereiaO especial Luz, Câmera, 50 Anos teve início em 6 de janeiro com O Canto da Sereia, que foi ao ar originalmente há dois anos. Adaptada do romance “O Canto da Sereia – Um Noir Baiano”, de Nelson Motta, exibiu quatro capítulos em 2013, atingindo 24,5 pontos de audiência no último. Para o autor, a temática não poderia ter sido mais acertada. A ideia era usar um enredo que seria capaz de causar comoção na cultura baiana, o que funcionou ainda melhor como publicidade para o programa. Na época, pastores evangélicos tentaram boicotar a microssérie escrita por George Moura por explorar a bissexualidade de forma aberta.

O segundo título escolhido foi o clássico O Pagador de Promessas (imagem no topo)exibido pela primeira vez em 1988. A minissérie de Dias Gomes, baseada em uma peça teatral também de sua autoria, teria 12 episódios no total, porém foi reduzida para oito por imposição da Censura. Em 1962, o diretor Anselmo Duarte já havia levado a peça para o cinema, resultando na única obra cinematográfica brasileira a ganhar a Palma de Ouro do Festival de Cannes, na França.

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Na peça, Dias Gomes aborda a exploração social e a intolerância da igreja de forma que o espectador (ou leitor) perceba como isso pode ser encontrado na sociedade moderna. Para quem pretende ler, é importante deixar a famosa “nota do autor”, que abre o livro, apenas para o final.

Claro que nem todas as séries escolhidas são adaptações literárias ou do teatro. Séries como Força Tarefa (2009) e As Noivas de Copacabana (1992) já nasceram pensadas para a televisão. Lampião e Maria Bonita (1982) teve sua base de pesquisa história, assim como Maysa: Quando Fala o Coração (2009) e Dalva e Herivelto: Uma Canção de Amor (2010), que foram basadas nos registros biográficos dos artistas relacionados.Dercy de Cabo a Rabo

Por outro lado, Dercy de Verdade foi adaptada diretamente da biografia de Dercy Golçalves, intitulada “Dercy de Cabo a Rabo”. A autora Maria Adelaide Amaral não apenas foi responsável pela roteirização da microssérie como editou o livro, o que facilitou o processo.

Os quatro episódios que foram ao ar em 2012 mostram de forma bem dividida como a atriz, cantora e humorista nascida no Rio de Janeiro do começo do séc. XX rompeu barreiras inimagináveis na vida de uma mulher para construir sua própria carreira. Como esperado, o livro traz uma porção de histórias engraçadas que funcionam bem também na TV, além de conseguir traçar com êxito o longo período de vida de Dercy Gonçalves.

Outra reapresentação entre as mais esperadas é Presença de Anita, de Manuel Carlos. Baseada na obra homônima de Mário Donato, a minissérie estreou em 2001 com 16 capítulos com o pico de 30 pontos, uma das maiores audiências para o horário nos anos 2000.

Claro que a produção foi feita justamente para alcançar o sucesso esperado. Além de contar com um dos autores mais populares da emissora no comando, José Mayer foi escolhido para protagonizar ao lado da novata Mel Lisboa, que rapidamente se tornou admirada pelo público. No livro, Mário Donato tem uma linguagem que pode confundir o leitor, embora a leitura seja indicada. Quem puder comparar a narrativa original da adaptada perceberá que a versão da TV Globo conseguiu manter certa fidelidade à narrativa.

Transformar quatro, oito ou 16 em apenas duas horas pode não ser o mais adequado para uma narrativa que precisa de tempo para se desenvolver. É, contudo, uma opção aceitável para dar oportunidade a quem ainda não teve acesso à boa parte da história da teledramaturgia brasileira. O importante é conhecer e, se houver interesse, recorrer à alternativa mais simples de consumir o produto, seja na TV ou na biblioteca mais próxima.