Mad Men – Os bravos e loucos

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Os bravos e loucos homens daquela época estão mortos. Morreram por consumirem aquilo que vendiam: destruíram pulmões com cigarros e fígados com o álcool das bebidas que eram consumidas em qualquer hora e local. É mais ou menos assim que Jerry Della Femina introduz seu livro sobre publicidade. Originalmente entitulado From Those Wonderful Folks Who Gave You Pearl Harbor: Front-Line Dispatches from the Advertising War, a obra acabou se tornando uma das mais importantes criações sobre a publicidade. O livro influenciou diversas pessoas e trouxe à luz incontáveis segredos sobre o insano mundo publicitário. Além disso, é a maior inspiração de Mad Men, uma das maiores séries da nova Era de Ouro da TV.

No Brasil, o livro ganhou o nome de Mad Men – Comunicados do Front Publicitário. Na obra, escrita na década de 70, Femina fala tudo que sabe, o que pode e o que não pode sobre a indústria. Ele mesmo é uma espécie de Don Draper. Nas páginas, o autor revela os segredos que antes eram tidos como boatos. É como se o sujeito resolvesse jogar toda a porcaria no ventilador para ver no que ia dar. O resultado foi um relato do dia a dia dos publicitários que viviam em Nova York em meio a campanhas, fumaça de cigarro e muito uísque.

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Femina – que se tornou consultor da série – compõe um cenário mais informal e bem humorado se comparado àquele visto na televisão. Muito do que é visto nas páginas, porém, está nas telas. Para começar, toda a amoralidade está lá. Homens usam ternos caros, fumam, bebem, trabalham quando querem e se consideram mestres que usam as mulheres como bem entendem. Está lá também, em ambas as mídias, o viés histórico. Todo o relato é permeado por acontecimentos verdadeiros, assim como na série televisiva. O assassinato de Kennedy, o escândalo de Nixon, o Vietnã. Está tudo lá: realidade influenciando publicidade e publicidade criando realidades. Outro ponto importante que a série tira direto do livro é a sensação de solidão e desolamento que nasce quando se vive em uma cidade do tamanho de Nova York. Os “mad men” estão cercados de amigos, mulheres, dinheiro, poder. Como dizem, porém, a solidão é maior quando estamos na multidão. Esse vazio e as questões existenciais que se seguem estão firmes na saga de Don Draper e são discutidas por Femina em seu livro.

 

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Eu não gostava de Mad Men. Em uma postagem do Mix de Séries chamada “Séries que todos amam, menos eu”, critiquei o programa. Fui chamado de burro, me defendi, e hoje me arrependo. Primeiro porque exagerei na crítica, segundo porque eu precisava entender o quadro geral: Mad Men, analisada fria e separadamente, não faz muito sentido. Vista como um todo, a série é um brilhante desenvolvimento de personagens e um impecável relato histórico.

Além disso, Mad Men cresce consideravelmente a partir da quinta temporada. Enquanto não ousava se transformar nos quatro primeiros anos, a criação de Matthew Weiner se reinventou quase que completamente a partir da quinta temporada. Interpretando todo o arco dramático de cada personagem, Mad Men surge impecável.

Enquanto escrevo esta matéria, estamos a poucas horas de descobrir o final derradeiro dos loucos homens e mulheres da publicidade. Quando este texto for publicado, o mundo já terá conhecido o fim de Don Draper. A série, vencedora de quatro Emmy consecutivos de Melhor Drama, chega ao fim sem ter nenhum momento de vergonha. Foram sete temporadas e oito anos de puro equilíbrio técnico e narrativo. Os anos 60, bem como os personagens, cresceram em nossa frente.

Os bravos e loucos homens daquela época estão mortos. Não importa como a série vai terminar: se Don Draper existisse, ele provavelmente já estaria morto; você não poderia encontrá-lo em Nova York, tranquilo bebendo sua costumeira dose de uísque. O fato é que, mortos, velhos ou senis, os mad men viveram intensamente. Ninguém precisa de um anúncio para saber disso.

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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