Making a Murderer: quando a TV tem o poder de fazer a diferença

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Parte 1 – A Verdade e a fuga

Documentários talvez sejam a forma mais poderosa de se contar uma história. Enquanto assistimos a um filme ou série de ficção, nós acreditamos no que vemos momentaneamente. Basta uma pequena cena, algum som, algo implausível para que sejamos retirados de nossa breve crença e jogados novamente à realidade. Ao nos emocionarmos com o incrível clímax de Titanic, por exemplo, sabemos de uma forma outra que aquilo é apenas uma representação de um fato. Ao assistirmos um documentário, porém, não temos essa margem onde podemos nos refugiar. Não temos o espaço para voltarmos e pensarmos, seguros: “era tudo mentira; era tudo ficção”.

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Assim, é absolutamente aterrador quando nos deparamos com uma história como a contada em Making a Murderer, um dos maiores acertos da Netflix enquanto produtora de conteúdo. Quando comecei a assistir o programa, fui me surpreendendo pouco a pouco, fui mergulhando nos meandros complexos dos acontecimentos e passando a conhecer aqueles “personagens”. Confesso que muitas vezes lembrei-me daquela tal “fuga” que fazemos na ficção. Aquilo não era mentira. Aquilo não era ficção. E isso me dava calafrios na espinha. Ao ver a mãe de Steven Avery (foco do documentário) chorar por seu filho, emocionei-me de forma muito mais profunda por perceber, de imediato, que aquela não era apenas uma atriz forçando algumas lágrimas. Era uma senhora sofrida, que viu sua família ruir.

Isto posto, declaremos: Making a Murderer é mais do que um soco no estômago; é uma obra-prima. Nenhuma outra série, ficcional ou não, em 2015 – ou em qualquer outro ano recente – foi tão impactante e levantou tanta polêmica fora das telas como esta. Assim, MaM vem para provar, mais uma vez, o importantíssimo papel social das produções midiáticas. Ao influenciar a vida para fora de seus episódios, o documentário acabou marcando seu nome na história não só pela qualidade, mas pela ação que gerou nos bastidores.

Parte 2 – Criando um assassino

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Para quem não sabe, em linhas rápidas, Steven Avery é um homem que, após passar 18 anos na cadeia por um crime que não cometeu, é libertado e tenta recomeçar uma nova vida. Mas a vida de Avery chega a um novo e assustador capítulo e o sujeito se vê, novamente, envolto em um crime. Desta vez, ele é suspeito de assassinato. Making a Murderer, portanto, acompanha todo o julgamento e levanto inúmeros pontos relevantes do caso; do crime, passando pela investigação e chegando ao julgamento.

O grande ponto é que o programa revela diversas falhas na investigação e ainda aponta culpados poderosos dentro do governo do Wisconsin, da polícia e até mesmo do FBI. É uma rede conspiratória imensa que indica: Avery é inocente e provas foram plantadas para que ele fosse considerado o assassino; daí o nome “criando/moldando um assassino”. Não é preciso dissecar sobre o fato de que muita gente ficou bastante incomodada com os apontamentos da série e o caso tem recebido novos desdobramentos.

Parte 3 – E agora?

Os acontecimentos tomaram uma proporção tão grande que a própria Casa Branca se pronunciou. Uma petição foi criada e contou com mais de 130 mil assinaturas; a mesma foi encaminhada ao presidente Obama e requisitava o perdão a Avery e Brendan Dassey, outro suspeito no caso. A Casa Branca, porém, lavou as mãos e afirmou não poder conceder perdão aos suspeitos, pois este é um caso estadual e não federal. Não cabe a eles conceder a anistia. “Neste caso, o perdão teria de ser emitido a nível estadual pelas respectivas autoridades”, dizia a resposta. Outra petição com 359 mil assinaturas recebeu o mesmo tratamento.

Ken Kratz, o promotor responsável pela acusação de Avery, após o lançamento do documentário, logo veio a público afirmar que algumas evidências cruciais no caso foram deixadas de lado pelas criadoras da série. Entre os apontamentos do promotor, está o fato de que a vítima havia confessado a pessoas próximas que sentia medo de Avery e que não gostaria de retornar à sua casa para tirar mais fotos (ela era fotógrafa e tirava fotos do carro de Steven). Além disso, Kratz afirma que Avery ligou diversas vezes para a vítima no dia de sua morte e que havia requisitado a presença da mesma naquele dia. O promotor ainda disse estar sofrendo ameaças de morte após o lançamento dos episódios. As diretoras do documentário afirmam que tiveram de resumir o enorme caso e que algumas coisas ficaram de fora, mas nada que alterasse a interpretação de história ou que mudasse o curso dos fatos. E também sabemos que Kratz teve histórias cabeludas reveladas ao decorrer do processo de Avery, retratadas no documentário – aquele momento em que todos disseram “qual a sua moral para julgar esse caso?”.

Mas não para por aí: um dos jurados envolvidos disse que o veredito pode ter sido armado. Outro disse que não. Recentemente um grupo de hackers afirmou ter provas que inocentariam os suspeitos, mas nada foi mostrado. O xerife envolvido afirma que os fatos foram manipulados e colocados fora da ordem correta e a família da vítima repudia o fato de se fazer entretenimento acerca do caso. Para completar, o Investigação Discovery promete fazer outro programa sobre o caso.

Parte 4 – A construção de uma história e os reflexos

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Para encerrar, basta fazer alguns apontamentos breves: Making a Murderer é, de certa forma, entretenimento. E dos bons. O fato é que o programa é uma das coisas mais viciantes e revoltantes que a TV produziu recentemente. Cada episódio conta com diversas reviravoltas. É como se tudo fosse realmente escrito por um roteirista competente, com total domínio de sua história. É tudo tão absurdo, emocionante, enlouquecedor e envolvente, que não parece verdade. Assim, é de se elogiar o trabalho das idealizadoras Moira Demos e Laura Ricciardi, que filmaram o documentário durante dez anos. As diretoras e roteiristas se beneficiam do formato seriado para envolver o espectador e contar a história aos poucos. Cada episódio termina com um enorme gancho para o próximo capítulo. A montagem, portanto, é genial, e constrói toda a intrincada trama de maneira irrepreensível. A vida, afinal, também tem plot twist.

Além de tudo, as diretoras ainda encontram espaço para compor belíssimas cenas. Note, por exemplo, as belíssimas sequências onde a câmera nos mostra diversos carros e objetos esquecidos pela cidade. Carros enferrujam aos pedaços enquanto a natureza/cidade vai os consumindo aos poucos, anos após ano. As plantas vão crescendo e cercando tudo, prendendo tudo ao solo. É impossível, portanto, não fazer a analogia ao próprio Avery, preso à cidade, preso àquele lugar que lhe suga as forças e a liberdade. Os objetos ficam ali, para sempre, decompondo-se com o passar das estações. E ele ainda está lá, preso.

É irônico, também, que o tribunal onde o julgamento acontece, tenha uma chaminé que constantemente libera uma fumaça escura. É como se as diretoras quisessem nos passar a imagem de que o inferno está lá dentro e o que ocorre lá pode não ser bom. Outros momentos brilhantes são quando a mãe de Avery confessa, desolada, que passou noites em claro e horas a fio para criar um enorme compilado de informações que poderiam inocentar seu filho em programas de televisão. Ao receber respostas negativas destes programas, a senhora Avery percebe ter perdido muito tempo construindo algo que não teve futuro. Outra cena de partir o coração é quando a mãe de Steven diz ter esperanças acerca de uma nova evidência e, ao falar, permanece longos segundos em silêncio, tentando talvez seja convencer de que coisas boas viriam a seguir, lutando contra o fato de que nada realmente iria mudar.

Ao fim, Making a Murderer tem aberto os olhos da sociedade para possíveis erros semelhantes a este. Pessoas presas injustamente, casos forjados, evidências manipuladas, etc. Parece que agora o povo acordou e percebeu a gravidade dos fatos: quantos já não passaram pelo mesmo e não tiveram suas histórias contadas? Além disso, o documentário parece reascender o caso que pode ganhar novo julgamento, Avery já conseguiu novos advogados. A mídia, a série em seu papel social, acabou afetando a realidade mais do que se suspeitava. E se você achava que documentários e programas apenas divertiam, assista Making a Murderer e tenha a certeza que eles são muito mais que isso. Eles mudam.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=qxgbdYaR_KQ[/youtube]

Colaboração: Caroline Marques

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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