Making a Murderer: quando a TV tem o poder de fazer a diferença

Makingamurderer

Continua após publicidade

[spacer size = “20”]

Parte 1 – A Verdade e a fuga

Continua após publicidade

[spacer size = “20”]

Documentários talvez sejam a forma mais poderosa de se contar uma história. Enquanto assistimos a um filme ou série de ficção, nós acreditamos no que vemos momentaneamente. Basta uma pequena cena, algum som, algo implausível para que sejamos retirados de nossa breve crença e jogados novamente à realidade. Ao nos emocionarmos com o incrível clímax de Titanic, por exemplo, sabemos de uma forma outra que aquilo é apenas uma representação de um fato. Ao assistirmos um documentário, porém, não temos essa margem onde podemos nos refugiar. Não temos o espaço para voltarmos e pensarmos, seguros: “era tudo mentira; era tudo ficção”.

Assim, é absolutamente aterrador quando nos deparamos com uma história como a contada em Making a Murderer, um dos maiores acertos da Netflix enquanto produtora de conteúdo. Quando comecei a assistir o programa, fui me surpreendendo pouco a pouco, fui mergulhando nos meandros complexos dos acontecimentos e passando a conhecer aqueles “personagens”. Confesso que muitas vezes lembrei-me daquela tal “fuga” que fazemos na ficção. Aquilo não era mentira. Aquilo não era ficção. E isso me dava calafrios na espinha. Ao ver a mãe de Steven Avery (foco do documentário) chorar por seu filho, emocionei-me de forma muito mais profunda por perceber, de imediato, que aquela não era apenas uma atriz forçando algumas lágrimas. Era uma senhora sofrida, que viu sua família ruir.

Continua após publicidade

Isto posto, declaremos: Making a Murderer é mais do que um soco no estômago; é uma obra-prima. Nenhuma outra série, ficcional ou não, em 2015 – ou em qualquer outro ano recente – foi tão impactante e levantou tanta polêmica fora das telas como esta. Assim, MaM vem para provar, mais uma vez, o importantíssimo papel social das produções midiáticas. Ao influenciar a vida para fora de seus episódios, o documentário acabou marcando seu nome na história não só pela qualidade, mas pela ação que gerou nos bastidores.

[spacer size = “20”]

Parte 2 – Criando um assassino

Continua após publicidade

[spacer size = “20”]

making

[spacer size = “20”]

Para quem não sabe, em linhas rápidas, Steven Avery é um homem que, após passar 18 anos na cadeia por um crime que não cometeu, é libertado e tenta recomeçar uma nova vida. Mas a vida de Avery chega a um novo e assustador capítulo e o sujeito se vê, novamente, envolto em um crime. Desta vez, ele é suspeito de assassinato. Making a Murderer, portanto, acompanha todo o julgamento e levanto inúmeros pontos relevantes do caso; do crime, passando pela investigação e chegando ao julgamento.

O grande ponto é que o programa revela diversas falhas na investigação e ainda aponta culpados poderosos dentro do governo do Wisconsin, da polícia e até mesmo do FBI. É uma rede conspiratória imensa que indica: Avery é inocente e provas foram plantadas para que ele fosse considerado o assassino; daí o nome “criando/moldando um assassino”. Não é preciso dissecar sobre o fato de que muita gente ficou bastante incomodada com os apontamentos da série e o caso tem recebido novos desdobramentos.

[spacer size = “20”]

Parte 3 – E agora?

[spacer size = “20”]

Os acontecimentos tomaram uma proporção tão grande que a própria Casa Branca se pronunciou. Uma petição foi criada e contou com mais de 130 mil assinaturas; a mesma foi encaminhada ao presidente Obama e requisitava o perdão a Avery e Brendan Dassey, outro suspeito no caso. A Casa Branca, porém, lavou as mãos e afirmou não poder conceder perdão aos suspeitos, pois este é um caso estadual e não federal. Não cabe a eles conceder a anistia. “Neste caso, o perdão teria de ser emitido a nível estadual pelas respectivas autoridades”, dizia a resposta. Outra petição com 359 mil assinaturas recebeu o mesmo tratamento.

Ken Kratz, o promotor responsável pela acusação de Avery, após o lançamento do documentário, logo veio a público afirmar que algumas evidências cruciais no caso foram deixadas de lado pelas criadoras da série. Entre os apontamentos do promotor, está o fato de que a vítima havia confessado a pessoas próximas que sentia medo de Avery e que não gostaria de retornar à sua casa para tirar mais fotos (ela era fotógrafa e tirava fotos do carro de Steven). Além disso, Kratz afirma que Avery ligou diversas vezes para a vítima no dia de sua morte e que havia requisitado a presença da mesma naquele dia. O promotor ainda disse estar sofrendo ameaças de morte após o lançamento dos episódios. As diretoras do documentário afirmam que tiveram de resumir o enorme caso e que algumas coisas ficaram de fora, mas nada que alterasse a interpretação de história ou que mudasse o curso dos fatos. E também sabemos que Kratz teve histórias cabeludas reveladas ao decorrer do processo de Avery, retratadas no documentário – aquele momento em que todos disseram “qual a sua moral para julgar esse caso?”.

Mas não para por aí: um dos jurados envolvidos disse que o veredito pode ter sido armado. Outro disse que não. Recentemente um grupo de hackers afirmou ter provas que inocentariam os suspeitos, mas nada foi mostrado. O xerife envolvido afirma que os fatos foram manipulados e colocados fora da ordem correta e a família da vítima repudia o fato de se fazer entretenimento acerca do caso. Para completar, o Investigação Discovery promete fazer outro programa sobre o caso.

[spacer size = “20”]

Parte 4 – A construção de uma história e os reflexos

[spacer size = “20”]

makingamurderercar[spacer size = “20”]

Para encerrar, basta fazer alguns apontamentos breves: Making a Murderer é, de certa forma, entretenimento. E dos bons. O fato é que o programa é uma das coisas mais viciantes e revoltantes que a TV produziu recentemente. Cada episódio conta com diversas reviravoltas. É como se tudo fosse realmente escrito por um roteirista competente, com total domínio de sua história. É tudo tão absurdo, emocionante, enlouquecedor e envolvente, que não parece verdade. Assim, é de se elogiar o trabalho das idealizadoras Moira Demos e Laura Ricciardi, que filmaram o documentário durante dez anos. As diretoras e roteiristas se beneficiam do formato seriado para envolver o espectador e contar a história aos poucos. Cada episódio termina com um enorme gancho para o próximo capítulo. A montagem, portanto, é genial, e constrói toda a intrincada trama de maneira irrepreensível. A vida, afinal, também tem plot twist.

Além de tudo, as diretoras ainda encontram espaço para compor belíssimas cenas. Note, por exemplo, as belíssimas sequências onde a câmera nos mostra diversos carros e objetos esquecidos pela cidade. Carros enferrujam aos pedaços enquanto a natureza/cidade vai os consumindo aos poucos, anos após ano. As plantas vão crescendo e cercando tudo, prendendo tudo ao solo. É impossível, portanto, não fazer a analogia ao próprio Avery, preso à cidade, preso àquele lugar que lhe suga as forças e a liberdade. Os objetos ficam ali, para sempre, decompondo-se com o passar das estações. E ele ainda está lá, preso.

É irônico, também, que o tribunal onde o julgamento acontece, tenha uma chaminé que constantemente libera uma fumaça escura. É como se as diretoras quisessem nos passar a imagem de que o inferno está lá dentro e o que ocorre lá pode não ser bom. Outros momentos brilhantes são quando a mãe de Avery confessa, desolada, que passou noites em claro e horas a fio para criar um enorme compilado de informações que poderiam inocentar seu filho em programas de televisão. Ao receber respostas negativas destes programas, a senhora Avery percebe ter perdido muito tempo construindo algo que não teve futuro. Outra cena de partir o coração é quando a mãe de Steven diz ter esperanças acerca de uma nova evidência e, ao falar, permanece longos segundos em silêncio, tentando talvez seja convencer de que coisas boas viriam a seguir, lutando contra o fato de que nada realmente iria mudar.

Ao fim, Making a Murderer tem aberto os olhos da sociedade para possíveis erros semelhantes a este. Pessoas presas injustamente, casos forjados, evidências manipuladas, etc. Parece que agora o povo acordou e percebeu a gravidade dos fatos: quantos já não passaram pelo mesmo e não tiveram suas histórias contadas? Além disso, o documentário parece reascender o caso que pode ganhar novo julgamento, Avery já conseguiu novos advogados. A mídia, a série em seu papel social, acabou afetando a realidade mais do que se suspeitava. E se você achava que documentários e programas apenas divertiam, assista Making a Murderer e tenha a certeza que eles são muito mais que isso. Eles mudam.

[spacer size = “20”]

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=qxgbdYaR_KQ[/youtube]

[spacer size = “20”]

Colaboração: Caroline Marques

Jornalista, curioso e viciado em cultura. Escreve há quase 10 anos no Mix e Six Feet Under é sua série favorita.