Sobre a aurora do eSports no Brasil ou “Memórias de uma Lan House nos anos 2000”

Imagem/Montagem: Arquivo Pessoal

Imagem/Montagem: Arquivo Pessoal

Título longo, tema um tanto quanto fora da “curva” habitual dos meus Editoriais… decididamente esta promete ser uma conversa que levantará pelo menos curiosidade do leitor. E embora eu não proponha inicialmente falar sobre a TV e o cinema que tanto amamos, há aqui reflexões que podem (e serão) facilmente ser estendidas a essas mídias.

A verdade é que, depois de vários textos voltados para o tipo ou formato da ficção que consumimos, é um tanto complicado continuar no tema ou fazer análises dessa mesma natureza – originalmente, este seria um texto sobre a cultura de ambientação medieval das séries fantásticas e como isso pode aumentar (ainda mais) agora que Game of Thrones está com os dias contados – sem soar, no mínimo, redundante.  Então, movido pela necessidade de evitar a redundância (e por ter esbarrado numa Lan House numa esquina qualquer esses dias), decidi dedicar algumas linhas à nostalgia, mas sem só apresentar mais críticas a criatividade da TV. “Entretantos” deixados de lado, partamos para os “finalmentes” do texto em si.

Falar sobre nostalgia é sempre complicado quando o público é da Geração Y. Primeiro pela questão do valor da nostalgia desta geração, que ainda não viu o seu real auge tornando o saudosismo um tanto precoce. Há também os eternos confrontos de geração, nos quais não me aprofundarei, mas dos quais também faço parte. Na verdade, nostalgia é uma palavra que se torna cada vez mais perigosa ao ser usada. Mesmo assim, a parte dela que quero abordar é uma que até os millenials mais novos podem entender e chamar de “seu”. Afinal, se a cultura tão grande de eSports que vemos hoje, que arrasta milhões para jogar e outros mais que ficam grudados à tela (ou até mesmo vão pessoalmente aos eventos) durante campeonatos e finais – como recentemente aconteceu com League of Legends e como está acontecendo neste fim de semana com DOTA 2 – essa tradição deve às Lan Houses mais do que é possível dizer.

Quer um exemplo? Counter Strike, talvez um dos mais jogados FPS surgiu como uma variante de Half Life, rapidamente se popularizou nas lan houses e virou febre mundial. E outros nomes, associadas a franquias tão fortes quantos – vide Warcraft, GTA, Need for Speed são alguns dos títulos que circulavam entre os gamers (que naquela época nem sempre se denominavam assim) que habitavam as lan houses.

E embora a essa altura alguns dos leitores mais jovens já tenham abandonado o texto – e alguns dos mais velhos ou estejam relembrando suas próprias aventuras na lan house ou já me classificaram como “babaca!” e também já partiram (é o que eu faria…) – ainda há uma ou duas coisas para se dizer.

Sim, apesar de ser inegável o quanto ganhamos em comodidade agora que podemos fazer as nossas raides usando o poder de nossa conexão e um Skype ou TeamSpeak para coordenar as coisas, a efemeridade e impessoalidade que o ato de jogar adquiriu em retorno é um tanto deprimente. Certo, a comunidade ainda se reúne para acompanhar e torcer, ainda existem equipes para a maioria dos grandes jogos competitivos, e aqueles jogadores dispostos a levar o jogo aos seus níveis mais inusitados (como o Kharsek, que depois de nove anos, foi o primeiro a adentrar pela porta que esconde mistérios disponíveis apenas para aqueles que alcançam o nível 999 no Tíbia) vão sempre existir – assim como há aqueles seriadores que se recusam a abandonar barcos que já afundaram há muito tempo (como Pretty Little Liars, Dark Matter, Supernatural e outros títulos da CW que nem preciso mencionar Arrow)… Mas fora da comunidade correspondente ao game, todos nós sempre portamos “um ou dois” estigmas bem negativos atribuídos pela sociedade. Na verdade… é uma coisa que os seriadores também sofrem, e que ainda pesa tanto sobre os gamers que tem dominado as redes sociais no que toca ao Pokemon GO. E pior: muitos dos seriadores, que sofrem das mesmas críticas estão entre aqueles primeiros a atirar pedras.

No fim, era a isso que eu queria chegar. Passado o caminho tortuoso e consideravelmente desconexo do resto do texto, a “mensagem do dia” é talvez o que deva perdurar na memória de quem leu até aqui. Assim como as lembranças obscuras desses tempos são algo que parece impossíveis para os mais jovens, também parece impossível para mim a consequência não-dita causada pela onda de adaptações e revivals (que cresce exponencialmente) uma onda de babaquice de magnitude similar. A necessidade de julgar, movida por uma crítica que não consegue realmente se consumir para produzir algo novo (seja teoria, formato ou suporte crítico) e pelo acomodar que certas produções nos oferecem têm transformado esta geração – e todo o seu potencial para levar o universo nerd e todas as suas subdivisões “a novos mundos, novas formas de vida e civilizações, para audaciosamente ir onde ninguém jamais esteve” – em algo alquebrado, encolhido no escuro oceano de criticismos falhos, redundantes e desconexos por todos os lados.

Entretanto, ainda há – e espero que este seja um “entretanto” que nunca deixe de existir – tempo e espaço para que algumas das lições tiradas de recordações dos anos 2000 sirvam como molde para uma mudança necessária. Para que o entretenimento, em todas as suas formas, possa visto, entendido, apreciado, respeitado exatamente como aquilo que ele é: uma parte tão significativa e tão parte de uma Cultura – com “C” maiúsculo sim! – que precisa aceitar a si mesmo na pluralidade de suas camadas e ser aceita, com todas as suas muitas partes, por todos. Como seriador, como gamer… acima de tudo, como nerd, também é nosso dever dar esse primeiro passo. Abraçar o coleguismo que existia na época nostálgica trazida aqui para que realmente possa haver mudança. Porque cá pra nós, cada dia mais, ao pensar nessa situação, as palavras de Fannie Lou Hamer sempre apareçam como a minha resposta-padrão. Afinal, acho que todos nós chegamos a um ponto da discussão em que todos podemos dizer que estamos cansados de estarmos cansados dos mesmos argumentos (ou da falta deles) serem sempre aquilo que nos espera quando esse tipo de questão é levantada.

Tags Editorial
Richard Gonçalves

Richard Gonçalves

Estudante de Letras, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em séries desde sempre. Fã de carteirinha de Doctor Who, House, Battlestar Galactica, Sherlock, 24 Horas, The Borgias, Penny Dreadful, E.R. e Lost. Aqui no Mix de Séries é editor de reviews, além de escrever as reviews de Marvel's Jessica Jones, Marvel's Agents of S.H.I.E.L.D. e The Originals.

No comments

Add yours