Se você chegou até o final da série Mentirosos (We Were Liars), que estreou no Prime Video, já deve ter sido impactado pela grande revelação que sustenta toda a narrativa: sim, Mirren, Johnny e Gat estão mortos.
Mas o que talvez tenha deixado muitos espectadores intrigados não é exatamente se eles morreram, mas por que Cadence (ou Cady) continua vendo e interagindo com eles como se ainda estivessem vivos. Afinal, isso é uma história sobrenatural ou há algo mais profundo por trás?
A resposta é simples, mas igualmente dolorosa: Mentirosos não é uma série sobre fantasmas, e sim sobre luto, culpa e os mecanismos da mente para se proteger de traumas extremos. O que Cady vê são construções de sua própria mente. Eles não são espíritos que voltaram do além.
São projeções criadas como uma forma de sua psique lidar com uma verdade devastadora que ela não estava pronta para enfrentar.
A verdade sobre a morte de Mirren, Johnny e Gat
O mistério que permeia toda a temporada gira em torno do verão que Cadence não consegue lembrar. Quando ela volta à ilha da família Sinclair no verão seguinte, ninguém fala abertamente sobre o que aconteceu. Ninguém responde suas mensagens, não há cartas, e os primos simplesmente “sumiram”.
Aos poucos, o quebra-cabeça se encaixa. No verão anterior, Cadence, movida por uma mistura de revolta contra o patriarcado da própria família e a pressão de seus amigos, teve a ideia de incendiar a antiga mansão dos Sinclair. O objetivo era simbólico: destruir os bens materiais que representavam o controle, o racismo e o conservadorismo do avô e da própria dinâmica familiar. O problema é que o plano terminou em tragédia. Ela sobreviveu, mas Johnny, Mirren e Gat morreram no incêndio.
Então… os Sinclairs podem ver fantasmas em Mentirosos?
Não exatamente. A série Mentirosos nunca sugere que o que vemos é, de fato, sobrenatural. Tudo se explica dentro de uma lógica psicológica, ainda que muito cruel.
Quando Cadence retorna à ilha no verão seguinte, sua mente, completamente fragmentada pela dor e pela culpa, cria versões idealizadas dos amigos mortos. Eles aparecem, conversam e interagem com ela, mas só dizem aquilo que ela mesma deseja ou precisa ouvir. Não há criação de novas memórias, não há eventos que independam da perspectiva de Cady. É a mente dela preenchendo os espaços vazios, como se dissesse: “Se eles não estão aqui, eu simplesmente não sei viver.”
Mas há um detalhe que deixa tudo ainda mais complexo: a série sugere que essa tendência de ver pessoas mortas não é exclusiva de Cadence. Há indícios de que outros membros da família Sinclair também passaram por experiências parecidas — e talvez, não por coincidência, isso esteja diretamente ligado ao uso contínuo de remédios controlados.

As pílulas e o peso do trauma
A série Mentirosos deixa claro que, além do trauma, há um fator farmacológico contribuindo para os episódios de alucinação. Cady sofreu uma lesão grave na cabeça no incêndio e, desde então, faz uso de fortes analgésicos — possivelmente opioides como codeína ou Percocet — que, combinados ao trauma psicológico, podem provocar surtos dissociativo, confusão mental e até alucinações visuais.
Esse elemento se torna ainda mais evidente quando vemos, em uma das cenas, a tia de Cady, Carrie, tomar uma pílula e, logo depois, visualizar Johnny, seu filho morto. O roteiro, então, conecta não só a dor e o luto, mas também a dependência de medicamentos como catalisadores desse comportamento coletivo dentro da família. Não é uma questão espiritual. É um sintoma do trauma intergeracional que corrói os Sinclair há décadas.
Aliás, essa não é uma dinâmica nova. Um pequeno spoiler do livro que deu origem à série sugere que até a matriarca Tipper, avó de Cady, costumava ver o fantasma de sua filha mais nova, Rosemary, que também morreu jovem. Isso reforça a ideia de que a família construiu, ao longo de gerações, uma cultura de silenciamento, fuga da dor e recusa em enfrentar a realidade, escondendo as tragédias sob camadas de mentiras e dependências químicas.
O papel dos “fantasmas” em Mentirosos
Os “fantasmas” de Mirren, Johnny e Gat não estão lá para assustar. Eles são, na verdade, manifestações do desejo de Cady de não estar sozinha. Eles funcionam como espelhos, como caixas de ressonância para os pensamentos e dilemas internos dela. Cada conversa que tem com eles é, na verdade, um diálogo interno, uma tentativa de organizar os próprios pensamentos e buscar algum tipo de paz, mesmo que ilusória.
Quando, no episódio final, Cady finalmente aceita que eles estão mortos, esses fantasmas desaparecem. O ciclo de luto — que até então estava paralisado no estágio da negação — começa a se fechar. E é só então que ela decide romper com o padrão Sinclair: ela diz à mãe que precisa de ajuda, que quer parar com os remédios e que não deseja mais viver presa a esse looping de dor e autoengano.
A ilha como símbolo de trauma
O final da série Mentirosos também deixa claro que a ilha Beechwood, que sempre foi o palco das melhores lembranças de Cady com seus primos e com Gat, se transforma num lugar insustentável. É ali que ela revive o trauma, que vê os mortos, que se perde em devaneios e onde tudo de ruim aconteceu. Sua decisão de ir embora e, provavelmente, nunca mais voltar é simbólica. É um ato de sobrevivência.
Ali, ela não poderia construir uma nova vida. A ilha representa o passado, as mentiras, o ciclo doentio da família Sinclair. Ir embora é finalmente aceitar que as coisas não serão como antes, que o amor, as memórias e até as tragédias pertencem a outro tempo — e que seguir em frente é, agora, a única forma de honrar a memória de quem se foi.
Conclusão: é sobre luto, não sobre fantasmas
Mentirosos pode até parecer, em alguns momentos, uma história sobrenatural. Mas, no fundo, é uma série sobre como a mente humana é capaz de construir realidades paralelas para não sucumbir à dor. Os Sinclair não veem fantasmas. Eles veem as projeções dos traumas que escolheram não enfrentar. Eles são reféns de uma cultura familiar onde é mais fácil se anestesiar — seja com remédios, seja com mentiras — do que encarar a verdade de frente.
Cadence, no final, rompe esse ciclo. E, embora isso não traga de volta Mirren, Johnny e Gat, permite a ela, pela primeira vez, imaginar um futuro em que viver não precise ser uma forma de punição.
Se quiser, posso preparar uma análise sobre os significados ocultos do final e das metáforas que a série utiliza. Quer?