Mix Music: As trilhas sonoras de Divorce e Insecure

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Hoje o Mix Music vai fazer diferente. Não será uma trilha analisada, mas sim duas, trazendo duas comédias da HBO que estrearam na  Fall Season 2016, uma seguida da outra, e já conquistaram nossos corações: Divorce  e Insecure.

Mas como assim? Duas séries e uma mesma coluna? Pode parecer estranho mas as duas têm muito mais em comum em suas trilhas e essências do que parece. E querem outro motivo? Tentar fazer com que mais pessoas assistam-nas. Particularmente, tenho-as como exemplos de duas das melhores estreias desta temporada e acho que merecem esse destaque.

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Antes, porém, de falarmos de suas trilhas e o que as une, além do canal e do gênero, é claro, vamos conhecer cada uma delas! Começando por Divorce, a série criada por Sharon Horgan, traz como protagonistas Sarah Jessica Parker e Thomas Haden Church nos papeis de Frances e Robert Dufresne, um casal que depois de quase 20 anos de casamento e muitas crises conjugais decide se divorciar. Eles têm dois filhos adolescentes, Lila e Tom, e moram em um daqueles subúrbios norte-americanos mega tradicionais, nos arredores de Nova York.  São brancos e pertencem a uma classe média-alta. Ela trabalha no mundo corporativo e sonha em abrir uma galeria de arte. Ele já trabalhou no mundo corporativo e largou para abrir uma pequena construtora. Frances tem os dois pés na finesse, enquanto Robert fica entre Petruchio e Shrek. Obviamente que esse processo do divórcio não se dá de maneira simples tampouco amigável, apesar das tentativas do casal. À história se unem os excêntricos e problemáticos amigos do casal, que às vezes mais atrapalham do que tudo e dão um tom mais cômico às tramas. O que também não deixa de ser importante por ter um elenco primordialmente mais velho, na casa de seus 40/50 anos, e não deixa de ser uma crítica às relações conturbadas e histéricas da classe média.

Insecure nos leva para outros cantos dos EUA. Mais precisamente para a costa oeste, mostrando versões de uma Los Angeles, incluindo lugares não tão frequentes em outros shows que se passam na cidade. Criada por Issa Rae e Larry Wilmore, a história acompanha o dia-a-dia de duas amigas, Issa e Molly, interpretadas respectivamente pela própria Issa Rae e por Yvonne Orji. Passando por esse vínculo fraternal das duas, construído na faculdade que frequentaram, acompanhamos suas rotinas no campo profissional, pessoal e amoroso. Issa trabalha em uma ONG e mantém um relacionamento duradouro com Lawrance (Jay Ellis), morando com ele, inclusive, em um condomínio de apartamentos. Molly trabalha num escritório de advocacia e segue em busca de um namorado, seja paquerando ao vivo ou pelos aplicativos, tentando preencher o vazio de seu levemente luxuoso apartamento. As duas são as únicas negras em seus trabalhos. Essa diferença do ambiente de trabalho se reflete no figurino de Issa e Molly, porém o texto de ambas reflete uma igualdade de estilo interior, ao não abrir mão de gírias e palavrões naqueles momentos de confissões entre amigas. E em tempos de uma necessidade de representatividade, a série assume seu compromisso de abraçar e reforçar a cultura afro-americana pelos espaços de Los Angeles.

Mas afinal, o que as une pela trilha sonora, que é do que a gente veio falar aqui hoje? A simplicidade e o popularesco. Se pararmos para pensar, as duas tramas são bem simples e giram ao redor das relações interpessoais, correto? Cada uma trabalhando em cima de seu nicho e com suas  próprias proposições, roupagens essas transpostas para as telas através do texto, da arte e de quem? Da trilha sonora. O que ser quer com essas séries também é que os espectadores se identifiquem com as Issas, Mollys, Frances e Roberts da vida. E como se pode fazer isso? Através da música.

Parte desse processo de identificação entre personagens ficcionais e pessoas  de carne e osso, meu vizinho, por exemplo, para não falar só de mim, é ouvir o que eles ouvem. Não necessariamente essas músicas serão diegéticas, i.e., inseridas na narrativa de modo  que os personagens estejam ouvindo-as, mas elas fazem parte dos universos propostos. Isso veio que como um estalo. As Frances espalhadas pelo mundo em algum momento dos anos 80, nas festinhas que frequentavam, se acabaram na pista ao som de Supertramp e de Yes. As Issas espalhadas pelo mundo se enxergam nas canções de Erykah Badu e de Kendrick Lamar. Ou pode ser também tudo misturado e as identificações variadas. O que se pretende dizer é que uma cultura musical também é reflexo de um nicho comportamental, etário e étnico, de maneira alguma excludentes, e que esses elementos estão refletidos na trilha sonora de ambas as séries.

Um adendo: em Insecure a cultura do rap está presente não somente por músicas que compõem a trilha, mas porque nossa querida Issa expressa seus desejos e suas frustrações atráves  de versos declamados em frente ao espelho. Essa é sua forma de refletir e manifestar sobre os acontecimentos em sua vida e ao seu redor. Pode-se dizer que ela é, ao seu modo, uma rapper  amadora e que leva jeito para coisa. Desde os tempos de escola, Issa desenrola uns versos e, às vezes, quando a bebida bate, toma coragem de subir no palco e mandar um freestyle. Não se espante se alguma dessas apresentações cair na internet…Broken pussy

E vejam vocês as coincidências dessa vida: enquanto estava escrevendo esta coluna, vi a notícia de que ambas foram renovadas para uma segunda temporada (confira a notícia aqui). Manda mais que tá pouco!

Abarcada por essa tentativa de fazer diferente, vamos com seis músicas hoje, pinçadas dos três primeiros episódios de cada série, em vez do tradicional TOP 5. Bora?

TOP 3 – DIVORCE

1) Just Another Nervous Wreck – Supertramp (1×01 Piloto)

Sequência final do episódio em que Robert descobre sobre algumas coisas da vida de Frances e a confronta.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=OLb-ohfrkl4[/youtube]

2) Reminiscinng – Little River Band (1×02, Next Day)

Sequência de abertura do episódio, mostrando Frances tentando entrar em casa.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=gS4u3P2nFfg[/youtube]

3) Starship Trooper: A. Life Seeker, B. Disillusion, C. Wurm – Yes (1xo3, Counseling)

Um exemplo de uso diegético da música, em que Robert, para irritar Frances, escuta a músicas em alto volume no quarto da filha.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=t_HpI25wMbQ[/youtube]

TOP 3 – INSECURE

1) Alright – Kendrick Lamar – (1×01, Insecure as Fuck)

Sequência de abertura do piloto, mostrando a zona sul de Los Angeles.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=Z-48u_uWMHY[/youtube]

2) Sugah Daddy – D’Angelo and The Vanguard (1×02, Messy as Fuck)

Lawrence vasculha a seção de cartões no supermercado, pouco antes de dar de cara com Issa.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=vo3RAH0zLlU[/youtube]

3) I Been Going Thru It All – Erykah Badu (1×03, Racist as Fuck)

Sequência final do episódio. Issa e Lawrence depois de acertarem, se livram de seu sofá velho o colocando na calçada do condomínio em que moram.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=uwmoa1OjRS4[/youtube]

Melina Galante

Melina Galante

Produtora e realizadora audiovisual, no momento em processo acadêmico. 99% seriadora com aquele 1% noveleira. Divide as fases da vida em Buffy, a Caça-Vampiros, Gilmore Girls e Grey's Anatomy. Sua menina dos olhos, porém, é Penny Dreadful. No Mix de Séries escreve as reviews de Modern Family, Orange is the New Black, Scandal e o que vier.

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