A nova temporada da antologia Monstro, de Ryan Murphy, intitulada Monstro: A História de Ed Gein, chegou à Netflix prometendo mergulhar na mente de um dos assassinos mais perturbadores dos Estados Unidos. Mas, ao contrário do que parece, a série prefere o sensacionalismo à precisão histórica.
Embora traga uma performance intensa de Charlie Hunnam como o fazendeiro de Wisconsin que inspirou personagens como Norman Bates e Leatherface, a produção altera ou exagera diversos fatos reais para criar mais impacto dramático.
A seguir, confira 10 erros e distorções da Netflix sobre o verdadeiro Ed Gein — e o que realmente aconteceu.
1. O número de vítimas foi inflado em Monstro: A História de Ed Gein
Na série, Ed Gein é retratado como um assassino em série com múltiplas vítimas. Na vida real, ele foi condenado por apenas dois assassinatos comprovados: o de Mary Hogan, em 1954, e o de Bernice Worden, em 1957.
A produção ainda o mostra matando a adolescente Evelyn Hartley, desaparecida em 1953, mas ele foi descartado como suspeito após passar por um teste de polígrafo.
2. Gein nunca usou uma motosserra
Na série, Gein assassina dois caçadores com uma motosserra — uma cena violenta e cinematográfica. Porém, não há nenhuma evidência de que ele tenha usado esse tipo de arma. O caso real dos caçadores Victor Travis e Raymond Burgess, desaparecidos em 1952, jamais foi ligado a ele.

3. A morte do irmão é um mistério, não um crime comprovado
Em Monstro: A História de Ed Gein, Gein mata o irmão Henry com um golpe na cabeça e depois incendeia o corpo. Na realidade, Henry morreu em 1944 tentando apagar um incêndio em uma plantação. O corpo foi encontrado com alguns hematomas, o que levantou suspeitas — mas a polícia nunca considerou o caso um homicídio.
4. Adeline Watkins não participou dos crimes
A personagem Adeline Watkins, interpretada por Suzanna Son, aparece como cúmplice de Gein em suas profanações de túmulos e fantasias macabras. No entanto, ela jamais teve envolvimento com os crimes.
Jornais da época registraram que Adeline conhecia Gein há cerca de 20 anos, mas negou ter mantido um relacionamento íntimo com ele.
5. Adeline não era uma assassina — e pode nem ter existido da forma mostrada
A série transforma Adeline em uma mulher obcecada pela morte, que chega a fazer listas de pessoas que gostaria de matar. Nada disso é verdadeiro.
O próprio ator Charlie Hunnam afirmou em entrevista ao Tudum que a personagem “é, em grande parte, uma criação da mente de Ed Gein”, servindo mais como representação simbólica de sua solidão e delírios.

6. Bernice Worden não teve romance com Gein
Um dos arcos mais chocantes da série é o suposto envolvimento amoroso entre Ed Gein e Bernice Worden, sua segunda vítima. Eles chegam a sair juntos e até dormir juntos, antes de ele assassiná-la.
Na realidade, eles nunca tiveram um relacionamento. Gein chegou apenas a convidá-la para patinar, pouco antes de matá-la dentro de sua loja.
7. A prisão de Gein não envolveu uma “caixa de presente”
Em Monstro, Gein é preso após a polícia encontrar uma caixa com seu nome na loja de Bernice. Na vida real, o que levou à sua captura foi um simples recibo de compra de anticongelante, que comprovava que ele voltaria ao local no dia seguinte. Esse detalhe levou os investigadores até sua casa — onde descobriram o verdadeiro horror.
8. As personalidades das vítimas foram trocadas
A série inverte as características de Mary Hogan e Bernice Worden. Hogan é mostrada como séria e rígida, enquanto Worden aparece vulgar e falante.
Na verdade, era Hogan quem tinha uma reputação mais “farrista”, dona de um bar e de língua afiada. Worden era uma mulher religiosa, metódica e respeitada na comunidade.
9. Gein negava ter cometido necrofilia
Embora a produção insinue que Gein mantinha relações sexuais com os corpos, ele sempre negou essa prática.
De acordo com uma reportagem da TIME de 1957, Gein disse que “os corpos cheiravam mal demais”. Ele realmente desenterrava cadáveres e usava partes deles para fazer máscaras e móveis, mas nunca houve prova de necrofilia ou canibalismo.

10. Gein nunca ajudou a prender Ted Bundy
O final da série Monstro: A História de Ed Gein faz uma conexão fictícia entre Ed Gein e os agentes do FBI que inspiraram Mindhunter, sugerindo que ele teria contribuído para capturar Ted Bundy.
Na vida real, o agente John Douglas chegou a conhecer Gein nos anos 1970, mas afirmou que o assassino era tão instável que “a conversa não rendeu nada de útil”. Gein passou o resto da vida internado em um hospital psiquiátrico e nunca colaborou com investigações de outros serial killers.
Monstro: A História de Ed Gein – Entre o horror e o mito
Monstro: A História de Ed Gein é eficiente como entretenimento, mas falha como retrato histórico. Ryan Murphy prefere explorar o “mito” do assassino que inspirou Hollywood a se ater aos fatos.
Na realidade, Ed Gein foi menos um gênio do mal e mais um homem isolado, doente e obcecado por sua mãe. Ao transformar sua história em espetáculo, a Netflix reacende o debate: até que ponto vale recontar tragédias reais se a verdade continua sendo a maior vítima?