A terceira temporada da antologia Monstro, criada por Ryan Murphy e Ian Brennan, continua a explorar os cantos mais sombrios da mente humana — desta vez, com Monstro: A História de Ed Gein. O novo capítulo da série da Netflix revisita o caso do assassino que inspirou alguns dos maiores clássicos do terror, como Psicose e O Massacre da Serra Elétrica. No entanto, além de mergulhar na psicologia de Gein, a produção surpreende ao introduzir outro nome infame do crime americano: Richard Speck, o “Birdman”.
A relação entre os dois serial killers é, em grande parte, uma criação dramática da série — mas funciona como uma ponte entre diferentes eras do crime real nos Estados Unidos e uma reflexão sobre sexualidade, poder e loucura dentro das prisões.
O “Birdman”: um assassino com vida dupla dentro da prisão
No episódio final de Monstro: A História de Ed Gein, intitulado The Godfather, a narrativa alterna entre Gein e um prisioneiro apelidado de Birdman, detido no centro correcional de Stateville, em Illinois. À primeira vista, ele chama atenção pelo comportamento extravagante e pela aparência ambígua, com seios aumentados e uma conduta abertamente sexual com outros detentos.
Com o desenrolar da trama, descobre-se que o “Birdman” é, na verdade, Richard Speck, o assassino responsável pelo brutal massacre de oito enfermeiras em Chicago, em 1966. Condenado em 1967, Speck escapou da pena de morte após uma decisão da Suprema Corte dos EUA em 1971 — um detalhe que a série faz questão de incluir.
Na prisão, Speck se tornou uma figura controversa e notória. Em Monstro, ele aparece como alguém que usa o sexo e as drogas como ferramentas de poder e sobrevivência. Essa escolha não é apenas provocativa, mas também simbólica: Murphy e Brennan parecem querer mostrar como a perversão e o controle se manifestam mesmo quando a liberdade é retirada.

A carta que liga Ed Gein a Richard Speck em Monstro: A História de Ed Gein
A ligação entre Speck e Gein em Monstro é puramente ficcional — mas extremamente interessante. A série sugere que Speck teria escrito uma carta a Ed Gein durante seu tempo na prisão, enviando junto uma fotografia de si mesmo com o peito nu, evidenciando sua transformação física após o uso de hormônios.
Esse contato imaginário cria uma ponte entre dois assassinos icônicos e suas diferentes formas de monstruosidade: Gein, o solitário obcecado pela morte e pela figura materna; Speck, o hedonista que transforma a violência e o prazer em um jogo de dominação.
O episódio usa essa correspondência como um artifício para discutir como o desejo reprimido, o isolamento e o abuso psicológico podem moldar a mente de um assassino. Em um momento onírico, Gein chega a sonhar com Speck tentando obter prazer sexual durante uma conversa, revelando o quanto a série está interessada em questionar o limite entre erotismo, violência e loucura.
A inspiração real por trás do “Birdman”
Embora a série exagere na relação entre os dois criminosos, o retrato de Richard Speck tem base em fatos reais. Um vídeo gravado em 1988 dentro da prisão, divulgado anos depois pela CBS News, mostrou o assassino se gabando de como sua vida atrás das grades era “divertida” e cheia de privilégios. Ele aparece usando drogas, com seios visivelmente desenvolvidos — resultado, segundo rumores, de terapia hormonal — e cercado de outros detentos.
A fala mais famosa do vídeo — “Se soubessem o quanto eu me divirto aqui, me soltariam” — é reproduzida quase literalmente na série, como um lembrete do cinismo de Speck e da complacência do sistema prisional.
O apelido “Birdman” também tem um toque real: Speck realmente cuidava de dois pardais dentro da penitenciária, que o visitavam com frequência. Esse detalhe bizarro serviu como inspiração direta para o personagem de Monstro, transformando-o em uma figura quase simbólica — uma mistura de crueldade, solidão e desejo de poder.
A visão de Ryan Murphy: o horror como espelho da sociedade
Ao inserir Speck na história de Ed Gein, Ryan Murphy amplia o escopo da série para além do retrato individual do assassino de Plainfield. Ele conecta diferentes figuras do crime americano — de Gein a Ted Bundy, também mencionado — para mostrar como o fascínio cultural pelo “monstro” evoluiu ao longo das décadas.
Mais do que um simples “encontro de assassinos”, a presença de Speck serve para refletir a banalização do mal e a forma como o público, a mídia e até o sistema prisional transformaram criminosos em mitos culturais. A sexualização de Speck, seu narcisismo e a correspondência inventada com Gein mostram que o horror, na verdade, não está apenas nas atrocidades cometidas, mas também na forma como a sociedade as consome.
Um crossover macabro e simbólico
Monstro: A História de Ed Gein encerra sua temporada com um dos cruzamentos mais ousados e perturbadores da franquia. Ao conectar Gein e Speck, Murphy cria uma espécie de “universo compartilhado” do mal, onde assassinos reais se tornam peças de uma narrativa maior sobre trauma, repressão e o legado do terror americano.
A ideia de que Speck tenha influenciado outros assassinos — inclusive Ted Bundy, como a série sugere de forma fictícia — funciona mais como metáfora do que como fato. Mas é uma metáfora poderosa: a de que o mal, uma vez libertado, encontra novas formas de se perpetuar.
No fim, Monstro: A História de Ed Gein não é apenas sobre um homem e seus crimes — é sobre como a cultura, a sexualidade e a loucura se entrelaçam para criar lendas vivas. E Richard Speck, o “Birdman”, surge como o espelho distorcido dessa herança: o monstro que sobrevive ao próprio confinamento.