O irreparável motivo que fez o final de The Boys falhar no Prime Video

O verdadeiro motivo que fez a 5ª temporada de The Boys falhar no Prime Video

O Prime Video criou em The Boys uma das séries mais importantes da televisão recente. Durante anos, a produção conseguiu desconstruir o gênero de super-heróis com uma violência absurda, humor ácido e um cinismo político que poucas séries tiveram coragem de abraçar tão completamente. Em muitos momentos, parecia até impossível imaginar que a história pudesse terminar de forma pequena. Só que foi exatamente isso que aconteceu na 5ª temporada.

O problema do último ano de The Boys não está em ser ruim. Muito pelo contrário. Ainda existe qualidade técnica, grandes atuações e momentos brilhantes espalhados pelos episódios. Capitão Pátria continua sendo um dos vilões mais fascinantes da televisão moderna, Billy Bruto ainda carrega um peso emocional gigantesco e a série continua visualmente impecável.

No entanto, a grande questão aqui é outra: a temporada final simplesmente não entregou aquilo que prometeu.

A temporada final de The Boys nunca teve cara de temporada final

Talvez esse tenha sido o maior problema desde o começo. A sensação constante era de assistir a uma temporada intermediária, não ao encerramento de uma das maiores séries do streaming. A narrativa parecia caminhar em círculos durante boa parte dos episódios, sem urgência real e sem aquela sensação desesperadora de fim inevitável que normalmente acompanha grandes temporadas finais.

O mundo de The Boys sempre prometeu uma explosão inevitável. Durante anos, a série repetiu que, se Capitão Pátria finalmente perdesse o controle, tudo queimaria junto com ele. A própria campanha promocional da quinta temporada vendia exatamente isso: uma narrativa de “terra arrasada”, quase apocalíptica.

Só que isso nunca aconteceu. A temporada inteira mantém Capitão Pátria relativamente isolado, distante de Billy Bruto e preso em discussões políticas, manipulações corporativas e debates internos da Vought. Enquanto isso, Billy passa grande parte da temporada hesitando sobre o que fazer com o vírus dos supers.

Ou seja: Faltou colisão e, principalmente faltou sensação de guerra iminente.

Grandes rivalidades da cultura pop sobrevivem justamente porque os personagens vivem em constante confronto psicológico. Batman e Coringa funcionam assim. Superman e Lex Luthor também. Em The Boys, parecia estranho assistir ao último ano mantendo Bruto e Capitão Pátria tão afastados emocionalmente.

The Boys teorias do final
Imagem: Prime Video

A série prometeu o caos… mas entregou burocracia

Diante disso, talve seja esse o ponto mais frustrante de toda a temporada. A publicidade vendia uma América dominada pelo terror dos supers. O famoso pôster de Capitão Pátria observando o planeta da órbita praticamente sugeria um cenário próximo de Vingadores: Guerra Infinita, onde o vilão finalmente pisaria no acelerador rumo ao colapso absoluto.



A expectativa era assistir ao mundo afundando junto com ele. Só que a série nunca abraçou completamente essa ideia.

Mesmo depois de Capitão Pátria consolidar influência política através do presidente fantoche, o universo da série continuava parecendo relativamente normal. Não existia estado de exceção verdadeiro, caos social amplo, perseguições públicas em massa ou colapso institucional real. Tirando alguns momentos isolados, parecia que o mundo inteiro continuava funcionando normalmente enquanto apenas Os Rapazes e os supers enfrentavam problemas.

Isso enfraqueceu completamente o peso da ameaça. Quando Capitão Pátria finalmente toma o V1 no penúltimo episódio, parecia inevitável que a série mergulharia num massacre sem limites. A expectativa era assistir à versão mais monstruosa do personagem. Só que a narrativa recua novamente e transforma tudo em mais uma disputa emocional envolvendo aprovação pública e insegurança narcísica.

No fundo, The Boys passou anos prometendo incêndio… mas teve medo de colocar fogo na própria história.

The Boys ator reage às críticas
Imagem: Prime Video

A série também teve medo de matar personagens

Talvez o erro mais surpreendente da temporada tenha sido justamente a falta de coragem narrativa. Durante meses, Eric Kripke, o criador, sugeriu que o final seria devastador, brutal e cheio de mortes importantes. A expectativa era assistir à destruição quase completa do grupo principal. Afinal, fazia sentido. O mundo de The Boys sempre funcionou baseado na ideia de consequências extremas.

Só que quase ninguém realmente importante morre. Francês acaba sendo a única perda significativa entre os protagonistas principais, e isso acontece muito tarde. Hughie, Luz-Estrela, Leitinho, Kimiko e praticamente todo o núcleo central passam pela temporada com uma proteção narrativa que enfraquece completamente o senso de perigo.

O resultado é que Capitão Pátria nunca parece tão assustador quanto deveria no último ano. E isso é um problema enorme.

Grandes vilões precisam deixar cicatrizes irreversíveis. Precisam provocar medo genuíno. Em vários momentos da temporada final, parecia impossível acreditar que Os Rapazes realmente corriam risco.

Ainda assim, The Boys continua sendo uma série importante

Nada disso, entretanto, apaga o impacto cultural de The Boys. A série continua sendo uma das produções mais inteligentes do gênero de super-heróis já feitas. Existe ousadia estética, comentário político, crítica social e performances memoráveis espalhadas ao longo das cinco temporadas. Antony Starr entrega um Capitão Pátria que provavelmente entrou para a história da televisão, enquanto Karl Urban transformou Billy Bruto em um dos anti-heróis mais carismáticos do streaming.

Só que finais importam. E talvez a maior frustração da 5ª temporada tenha sido justamente perceber que uma série tão corajosa passou seus últimos episódios parecendo cautelosa demais.

No fim das contas, The Boys ainda permanece como uma das melhores histórias de super-heróis da televisão moderna. Mas entrou pro seleto hall de produções que têm um final amargo e inferior a tudo o que ela representou.



O irreparável motivo que fez o final de The Boys falhar no Prime Video
SOBRE O AUTOR
Anderson Narciso
Criador do Mix de Séries, atua hoje como redator e editor chefe do portal que está no ar desde 2014. Autor na internet desde 2011, passou pelos portais Tele Séries e Box de Séries, antes de criar o Mix. Também é criador e editor do portal Folha JF, projeto regional voltado para Juiz de Fora e região. Séries favoritas da vida: One Tree Hill, Friends e ER.