Não me odeie porque sou po-pu-lar!

Popular

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Quem é que nunca quis ser popular no ensino médio? Ou melhor, quem é que foi popular no ensino médio? Enquanto no século 21 a popularidade é mensurada em curtidas e compartilhamentos, lá na década de 90 uma pessoa idolatrada era aquela que impunha um estilo, tinha presença, lançava gírias. Enfim, pertencia ao topo da hierarquia escolar e contava com um monte de seguidores – não aqueles de hoje que só dá um follow. Era tudo muito próximo, quase sufocante.

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É assim o clima de Popular, série criada por Ryan Murphy e Gina Matthews. Ela foi exibida pela falecida Warner Bros. em 1999 e até desfilou na grade do SBT. Um drama teen de curta duração, sobrevivendo até 2001. Praticamente 16 anos depois, nada como cutucar essa memória em série e perceber que ainda me identifico com todo o contexto desse programa televisivo.

A série traz Brooke McQueen e Sam McPherson, duas garotas que representam os lados opostos da rotina estudantil. A primeira é popular e líder de torcida. A segunda é impopular e editora do jornal da escola. Ambas com perfis um tanto quanto clichês, mas, aos poucos, se revelam diferentes e inesperadas. Uma exposição feita por meio dos diálogos entre os membros dos respectivos grupos.

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Sam e Brooke

 

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Brooke lida o tempo todo com os preconceitos ditados, sem um pingo de receio, por sua melhor amiga Nicole, que tem veneno para dar e vender. Ao contrário da rainha da escola, ela não hesita na hora do bullying e acha que salva o planeta ao fazer qualquer um passar vergonha. Essa personagem saboreia a derrota de quem não pertence ao grupo dos populares enquanto a Queen B acha repugnante – mas não fala, afinal, para sobreviver ao ensino médio é preciso manter as aparências.

Na outra ponta, Sam tem Harrison como melhor amigo, que se sobressai como um grilo falante. Ele a aconselha sobre seu azedume que não passa de recalque do mundo popular que não pertence. O personagem tenta controlar a melhor amiga, especialmente por ela sempre partir para cima de Brooke com arrogância e certa agressividade. Enquanto a Queen da escola não fala sobre as atitudes medíocres e injustas de Nicole – e até de outros amigos –, a hater fala tudo e muito mais.

As diferenças ficam mais claras quando percebemos que Brooke não é uma megera. Ela é boa pinta, até demais se pensarmos que todas as rainhas do ensino médio tendem a ser sacanas. A personagem fica ainda mais interessante por ter um problema pessoal que, do pouco que me recordo, foi um duelo que a marcou em Popular. No caso, um distúrbio alimentar, algo que é entregue lentamente quando a vemos comer pouco e puxar as gordurinhas que não existem na barriga.

Sam não parece ter nenhum problema particular aparente, a não ser o luto permanente por causa da perda do pai. Ela bitola em quebrar o conceito de popularidade, se esforça para revelar a hipocrisia de todo mundo que pertence à nata da escola, especialmente de Brooke que, aos seus olhos, tem uma vida muito fácil. A personagem se tornou minha favorita à primeira vista por ter uma voz forte, que incomoda, que acentua a insatisfação com as divisões do ensino médio.

Murphy sempre soube conversar com o público adolescente e me atrevo a dizer que Popular foi o experimento – que não deu certo porque acabou cancelada – para fomentar o que viria a ser Glee. Essa série tem grande parte dos elementos do universo de Rachel Berry, como a importância musical e teatral, professores que tenho certeza que inspiraram os do McKinley High e viagens na maionese inseridas na narrativa que representam o que os personagens pensam.

Até a moral é a mesma: ser você mesmo quando o mundo inteiro diz quem você tem que ser. Pensando no contexto de Popular, é manter o seu caráter dentro da competitividade do ensino médio. Lidar com as pressões e se impor ao que se acredita. Combater julgamentos que colocam na corda bamba talentos, perspectivas, o distorcer da sua imagem diante do espelho.

 

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Popular é carregado de tropeções e de decepções que transformam os personagens principais de forma muito brusca. Uma das mais marcantes é Carmen, que só tinha o sonho de fazer parte do time de torcida e não foi escolhida por ser gorda. Sam a protege enquanto Brooke a machuca, criando uma tensão no tópico de problemas de autoimagem.

O mesmo vale para Jordan, a inspiração clara de quem viria a ser Finn Hudson. Ele duela com a vontade de fazer parte do musical da escola e se manter no time de futebol. Glee foi muito Popular no final das contas.

O que me fez uma eterna apaixonada pela série é que poucas da década de 90 e do mesmo gênero retrataram verdadeiramente como é a adolescência. Mesmo sendo nos moldes americanos, é uma certeza que grande parte dos adolescentes passou por conflitos semelhantes impulsionados pela necessidade de se enquadrar e de pertencer. É um jogo dentro das inseguranças de personagens que tentam mostrar que o importante é ser quem somos.

Um lema utópico na mente de muitos que estão nessa fase da vida, pois é dificílimo ser quem você é em um espaço que torna o seu verdadeiro eu em motivo de chacota. Por isso, é possível compreender e se ver em muitas decisões dos personagens.

Sam trabalha muito nesse ponto, embora seja uma megera de vez em quando. Ela olha para todas aquelas pessoas e percebe a necessidade de cada uma em fingir. De sobreviver pelas aparências. Ela os vê como um bando de ovelhas, todas iguais, com o mesmo dialeto, sem originalidade. Essa personagem é muito forte por vir com a proposta de ser diferente de todo o resto. Tudo bem que a história dela muda na S2, o grande erro, mas sua briga com a própria personalidade, de querer se manter fiel a quem foi no Piloto, coloca em cheque quem quer se tornar.

O mais tocante de Popular é que conhecemos os personagens em sua individualidade. Em Glee, vemos a turma andar em bando e trocar suas inseguranças entre si. Aqui, vemos cada um parando diante do espelho tentando entender o que diabos está acontecendo. É possível captar como tudo muda no menor segundo em que agem como são. E isso é bom, traz uma sensação de conforto, ainda mais quando revela que alguém na série não era tão ruim assim.

Popular também discutiu aquela falsa impressão de que ser pop é fácil e botou em cheque uma prática que muitos de nós não se dá ao trabalho: se botar no lugar do outro. Julgamos, o tempo todo, em qualquer fase da vida sem saber o que acontece. Sam representa o dedo em riste, que fala muito sobre o que desconhece, e é formidável quando a vemos dar de cara com o inesperado.

No fundo, não sabemos o que uma pessoa passa e, às vezes, nem nos atrevemos a perguntar. Quando se é adolescente, pior ainda! Só entendemos o que acontece quando crescemos, pois vemos que todas aquelas panelinhas, toda aquela maldade, todo aquele julgamento é um chamado desesperado para se enquadrar e para pertencer. Muitas vezes, é algo que vem de dentro. A necessidade de proteção, pois, de fato, no ensino médio estamos indefesos em todos os sentidos.

Brooke tem muito disso, de ser o que não aparenta, não só por sofrer com o distúrbio alimentar, mas por ter a necessidade de ser perfeita. Sentimento acarretado pelo abandono da mãe. Ela vive em função do estresse, algo que leva muitas adolescentes à loucura. Há bondade nessa personagem, mas a vemos se limitar a sombra de Nicole por ter que manter a pose de Queen B.

Além disso, almejamos o impossível nessa fase da vida. Muitos querem ser como fulana e fulano, e se esquecem de dar valor ao que tem de melhor. Popular resgata esse tópico, de se impor, de ser ouvido. Há até uma aula sensacional na primeira temporada em que a professora dita a importância de dar atenção a voz interior – que nada mais é Sandra Oh antes de Cristina Yang.

 

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Popular trabalha em cima de rótulos. De máscaras. No que todos escondem durante o período escolar e no que revelam em 4 paredes, sozinhos. É sobre algo que na década de 90 muitos falavam em alto e bom som: encontrar a sua tribo. Não encontrar a sua era o mesmo que ser um fracasso.

A série também tinha um clima muito gostoso de acompanhar. Um episódio era dividido pelos dias da semana até chegar ao conflito. Sam dá uma carinha nova por meio de gravações e do coletar de informações necessárias para o jornal da escola. Há muito da cultura dos anos 90, como as boy bands e o alucinante Leo DiCaprio em sua titânica juventude.

Posso ter todos meus problemas com Ryan Murphy, mas ele sabe conversar com o público adolescente e é por isso que sempre terei Popular na minha lista de melhores séries desse gênero. Vemos cada rosto infeliz, como se fosse de um dos nossos colegas de classe e queremos entender o por quê. Queremos entender as razões de ser tão difícil viver nesse teatro que é a vida escolar a partir do primeiro ano do ensino médio.

Chegamos perto de entender e de criar identificação com grande parte dos personagens. No fim, todos só querem ser aceitos pelo que são. Uma hora, viver de fachada cansa e vemos um a um despencar, revelando facetas inesperadas e desejos que nem imaginávamos que viviam dentro deles.

Popular não foi uma série popular, e sinto falta até hoje de Brooke McQueen e de Sam McPherson. Era um projeto que tinha tudo para vingar por mais tempo, mas a queda da audiência sinalizou seu fim.