Nossa Cidade | Vale a pena assistir a série turca da Netflix?

Nossa Cidade vale a pena? Minissérie turca da Netflix aposta em tensão, mas tropeça nas próprias escolhas

A minissérie turca Nossa Cidade (The Town), nova aposta da Netflix no suspense criminal, chega com uma premissa que chama atenção logo de cara: um grupo de pessoas comuns encontra milhões de dólares em um carro abandonado e decide ficar com o dinheiro. A partir daí, a pergunta que guia toda a experiência do espectador não é exatamente “o que vai acontecer?”, mas sim “por que eles fizeram isso?”.

E essa diferença faz toda a diferença na forma como a série é recebida.

Uma história de ganância, segredos e decisões questionáveis

A trama acompanha Efe, interpretado por Okan Yalabık, que retorna à cidade natal para o enterro da mãe. Ele reencontra o irmão Selim, que vive em Istambul com a esposa Begüm, e percebe que todos ali compartilham algo em comum: dificuldades financeiras e feridas antigas que nunca cicatrizaram.

O reencontro familiar é interrompido por um acontecimento que muda tudo. Durante uma viagem pela estrada coberta de neblina, um amigo de Efe encontra um carro que saiu da pista. Dentro dele, corpos sem vida… e bolsas cheias de dólares, somando cerca de 12 milhões.

A decisão tomada ali define o tom da série: apesar do choque inicial, Efe e Ahmet resolvem ficar com todo o dinheiro, mesmo diante da hesitação de Selim e Begüm. Não há denúncia, não há tentativa real de buscar ajuda. Apenas a certeza, estranhamente tranquila, de que podem se safar.

Nossa Cidade na Netflix
Imagem: Divulgação.

O maior problema de Nossa Cidade

É aqui que Nossa Cidade começa a dividir o público. A série quer ser um suspense sobre moralidade, ganância e consequências, mas falha em construir algo essencial: empatia.

O roteiro não dedica tempo suficiente para mostrar o quão desesperados esses personagens realmente estão. Sabemos que eles têm problemas financeiros, mas nada que justifique, de forma convincente, uma decisão tão extrema. O resultado é que, em vez de torcer por eles, o espectador frequentemente se pega questionando a lógica de cada escolha.

Diferente de séries como Ozark ou Breaking Bad, com as quais Nossa Cidade é frequentemente comparada, aqui os protagonistas não parecem encurralados. Eles parecem, muitas vezes, apenas imprudentes. E isso compromete o envolvimento emocional com a história.

Um suspense que gera mais frustração do que tensão

A presença do assassino de aluguel Yıldırım adiciona uma camada interessante à narrativa. Ele sabe que o dinheiro existe, percebe que algo deu errado na missão e passa a circular pela cidade, criando um clima constante de ameaça.



O problema é que o suspense raramente se transforma em tensão genuína. Muitas situações parecem depender mais da conveniência do roteiro do que de decisões bem construídas. Coincidências se acumulam, informações importantes são omitidas e algumas perguntas básicas ficam sem resposta por tempo demais.

Isso faz com que a série passe a sensação de que está sempre “quase chegando lá”, mas nunca entrega totalmente o impacto que promete.

Netflix Nossa Cidade
Imagem: Divulgação.

Begüm: a personagem mais interessante da série

Se existe um destaque claro em Nossa Cidade, ele atende pelo nome de Begüm, vivida por Büşra Develi. Inicialmente apresentada como uma figura mais contida, ela aos poucos se revela a mente mais estratégica do grupo.

É Begüm quem entende melhor o risco da situação e propõe planos para despistar possíveis perseguidores. Sua postura fria, calculista e silenciosa contrasta com a impulsividade dos demais personagens. Ela é, de longe, a figura mais intrigante da minissérie e a que mais se aproxima de um arco dramático consistente.

Infelizmente, a série nem sempre explora esse potencial como deveria.

Atuações competentes, mas limitadas pelo roteiro

O elenco entrega atuações sólidas dentro do que o texto permite. Okan Yalabık constrói um Efe abatido, carregado de culpa e frustração, mas o roteiro não ajuda a aprofundar seu estado emocional. Falta clareza sobre o quanto ele realmente precisa daquele dinheiro para sobreviver.

Os demais personagens orbitam em torno dessa mesma limitação: boas interpretações presas a escolhas narrativas que não se sustentam totalmente.

Para quem Nossa Cidade pode funcionar

Apesar de seus problemas, Nossa Cidade não é uma série completamente descartável. Ela pode agradar quem gosta de thrillers criminais mais simples, com episódios curtos, ritmo relativamente ágil e uma atmosfera sombria constante.

A produção tem bons valores técnicos, fotografia competente e uma ambientação que sabe explorar o isolamento da cidade e a sensação de perigo iminente. Para uma maratona despretensiosa, sem grandes expectativas, ela cumpre o papel.

Vale a pena assistir Nossa Cidade na Netflix?

A resposta curta é: depende do que você espera.

Se você procura um suspense profundo, com personagens complexos e decisões moralmente ambíguas bem construídas, Nossa Cidade provavelmente vai frustrar. A série levanta boas ideias, mas tropeça na execução, especialmente ao pedir que o público compre atitudes pouco críveis sem oferecer contexto suficiente.

Por outro lado, se a sua expectativa é assistir a uma minissérie de suspense com clima tenso, dinheiro sujo, criminosos à espreita e uma narrativa que flerta com o desastre anunciado, Nossa Cidade pode funcionar como entretenimento leve.

No fim das contas, a série deixa a sensação de uma oportunidade perdida. Há uma boa história ali, mas ela nunca é explorada com a profundidade necessária. Ainda assim, para quem gosta de thrillers internacionais e quer conhecer mais uma produção turca da Netflix, Nossa Cidade pode valer a tentativa — desde que você esteja disposto a relevar decisões que desafiam a lógica do bom senso.



Nossa Cidade | Vale a pena assistir a série turca da Netflix?
SOBRE O AUTOR
Matheus Pereira
Matheus Pereira é Jornalista e mora em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Escritor assíduo na época dos blogs, Matheus desenvolveu seus textos e conhecimentos em Cinema e TV numa experiência que já soma quase 15 anos. Destes, quase dez são dedicados ao Mix de Séries. Além disso, trabalha há mais de dez anos no campo da comunicação e marketing educacional, sendo assessor de imprensa e publicidade em grandes escolas e instituições de ensino.