“Novos começos” ou a inevitável tendência da TV de plagiar a si mesma

Imagem/Montagem: Arquivo Pessoal

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Alfred Hitchcock, um dos maiores mestres do suspense cinematográfico disse uma vez – ou não disse, considerando o quanto a internet credita coisas as pessoas indevidamente – que “estilo é plagiar a si mesmo”. E sendo dele ou não a frase (e claro, deixando de lado a sensibilidade e criminalidade do tópico plágio), a reflexão que ela nos oferece – mais ainda agora que a tão aguardada Fall Season está a nossa porta – me pareceu o suficiente para preencher os conceitos gerais que eu precisava para escrever estas linhas.

Quem está acostumado a acompanhar meus Editoriais sabe que não sou fã nem entusiasta da onda de reboots e revivals que têm dominado a TV, e que meu apoio a adaptação de certos materiais e certas franquias ao formato “serializado” da TV Americana é ainda menor – por inúmeras questões referentes a qualidade, ao problema de adaptação, a falta de criatividade… Mas não são essas coisas que quero discutir aqui. Afinal, esta é a Fall Season em que Kiefer Sutherland retornará a TV e não será no papel do agente especial Jack Bauer. Esta é também a Fall Season que trará franquias de grande renome, como MacGyver, Lethal Weapon e The Exorcist para o cotidiano das nossas grades (pelo menos pelos próximos meses). Como não falar sobre isso?

A grande questão é que, além destes grandes sucessos – que logo serão acompanhados por uma nova franquia de Star Trek e por um spin-off desnecessário e errado de 24 Horas – muito mais acontece na TV, assim como foi anteriormente e como será depois que esta Fall Season terminar. Então, nesse ponto, já deve passar pela cabeça de vocês que se tudo é um ciclo de repetição constante de processo e forma, qual a razão para questionar? E das muitas respostas que poderiam ser dadas, a banalidade é a minha melhor escolha.

Nós vivemos tempos em que muito e mais um pouco pode ser representado em uma mídia que permite formatos e estratégias tão variadas como é com a TV. Numa Era em que tantas questões que precisam ser discutidas não são por meras formalidades financeiras ou tetos de vidro de uma sociedade cada vez mais entregue a banalidade de uma distopia que até em ser distopia é distópica. E sim, é muito maravilhoso que tanta coisa que já esteve na TV – e que ajudou a fazer a TV Americana a indústria de expectativas elevadas e qualidade singular que conhecemos – possa retornar para marcar toda uma nova geração. Mas também é avassaladoramente cruel que tanta coisa seja deixada de lado para se aplicar mais uma vez uma fórmula de sucesso gasta, que vê cada dia mais seus pormenores se desmancharem.

Não pretendo condenar a indústria, nem exigir dela algo que sei ser econômica e logisticamente impossível de acontecer. Entretanto, é papel não só do crítico, mas de cada telespectador esperar mais. Aquilo que é lucrativo para a indústria é lucrativo porque há um consumidor para tal. Aquilo que é projetado e imaginado é feito para encontrar ou confrontar o horizonte de expectativa do público – público este que, mesmo tornando-se mais plural a cada dia, produz uma expectativa cada vez mais normatizada, mais singular.

Deixando de lado todos esses “entretantos”, o que realmente vale a discussão (e aquilo que espero deixar para o leitor) é a necessidade demandar mais, de se satisfazer menos. Não para criar uma onda de pseudo-críticos, feitos de e para uma sociedade que abraça a babaquice como mantra diário cada dia mais, mas para produzir um novo espectador, pronto para abraçar novos e antigos formatos, desde que eles existam para incentivar e continuar o que há de melhor na TV, e não só para ver uma constante repetição de tudo aquilo que já conhecemos.

Então sim, que venha uma Fall Season feita de procedurais, suspenses e comédias carregando ou não reputações e franquias consigo. Mas que também venha todo o incomum, todo o inovador, todos os nomes de quem nunca ouviu falar. Que tenhamos uma TV que é uma verdadeira selva antropofágica, disposta a consumir a si mesma para produzir uma nova arte que abrace e que leve além tudo aquilo que temos e já tivemos como padrão – Uma TV capaz de olhar para si mesma e produzir incansável e incessantemente até que todos possam ter orgulho disso e que seja capaz de fazer a cruzada “para audaciosamente ir onde ninguém jamais esteve” sua missão cotidiana. Afinal, se Matt Duffer e Ross Duffer nos ensinaram algo nos últimos tempos é que uma receita de nostalgia e modernizada com boas doses de desconhecido e a coragem para correr certos riscos (combinando muito do que já deu certo com uma cor de imaginação que bebe num desconhecido que nos é ao mesmo tempo estranho e natural) rende um resultado muito produtivo, principalmente ao juntar clássico e inovação com largas doses desse universo de possibilidades desconhecido que nunca deveria ser temido.

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Richard Gonçalves

Richard Gonçalves

Estudante de Letras, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em séries desde sempre. Fã de carteirinha de Doctor Who, House, Battlestar Galactica, Sherlock, 24 Horas, The Borgias, Penny Dreadful, E.R. e Lost. Aqui no Mix de Séries é editor de reviews, além de escrever as reviews de Marvel's Jessica Jones, Marvel's Agents of S.H.I.E.L.D. e The Originals.

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