Novos começos, velhos começos e aquele hype… A Fall Season chegou!

Imagem/Montagem: Arquivo Pessoal
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Indiscutivelmente a época do ano mais frutífera para a TV, a famigerada Fall Season finalmente começa a se desenrolar em sua totalidade e com ela, aquelas velhas preocupações de todo seriador. E embora este momento seja o paraíso do crítico da narrativa, faremos um passeio diferente hoje.

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Habitualmente, teríamos 700~1200 palavras sobre o quanto a TV não se recicla e perpetua esse ciclo de redundância e reboots e revivals desnecessários e ridículos. Mas, depois de consumir uma larga quantidade de episódios-piloto e premieres desta temporada, a verdadeira redundância seria precisar traçar argumentos sobre a falta de qualidade narrativa. Então, dessa vez, vamos seguir um rumo mais incomum e analisar o momento que a Fall Season 2016/2017 cria, e o que ele representa. Afinal, esta é a Fall Season que trouxe de volta grandes franquias, que foi precedida por altas traquinagens da Netflix e, pasmem, da Rede Globo. E embora as coisas estejam apenas começando, palavras de ordem sobre o que tipo de temporada que teremos já parecem se definir, e “nostalgia” parece ser a primeira da lista.

Séries já consagradas (independente da qualidade das mesmas) apostaram em reutilizar elementos de suas temporadas iniciais. Marvel’s Agents of S.H.I.E.L.D. – talvez para combinar com o tom das produções da Netflix que também compõem o MCU – apostou em trazer de volta um tom sombrio de espionagem e paranoia governamental que dominou o começo da série. Once Upon a Time trará de volta o lado Evil da nossa adorada Rainha. Grey’s Anatomy, mesmo que numa dose mais moderada, decidiu trazer certas relações mais antigas dos personagens de volta ao centro da trama e até mesmo a antológica American Horror Story, depois de fazer um charminho sobre o “tema” da temporada, parece disposta a mergulhar em níveis narrativos e num terror de estranhamento e pavor refinado, bem à moda da segunda temporada.

Estreantes também não ficaram de fora. The Exorcist – antes odiada e agora menina-dos-olhos da crítica (e ainda na fila para um cancelamento rápido) – aposta numa fotografia que é ótima (mas não é nada original) e em, como a própria Geena Davis já disse, “honrar o original”, para tentar superar a raiva dos fãs por essa adaptação desnecessária os números da audiência que não foram muito bons. Lethal Weapon tenta enfiar o todo da fronteira entre os anos 80 e 90 em uma produção que não se sustentará na nostalgia (e sim por ser mais um procedural mal acabado), mas só foi concebida por causa dela. MacGyver se vale daquilo que gostávamos na franquia original (e do sucesso de outras produções do canal), mas sendo o verdadeiro desperdício de orçamento que é, não rende muito que valha a pena comentar.

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Todas essas pequenas migalhas nos levam para conclusões perigosas, especialmente porque tenho certeza que a crítica mais “comercialmente” especializada terá outras definições para dar. Mas, esta é a Fall Season do cansaço. A curva de saturação daquilo que o expectador aceita das produções levou a TV a um ponto em que as produções antigas precisam resgatar os arquétipos mais básicos de suas narrativas para sobreviver enquanto as novas produções abandonam a ideia de criar para tentar lucrar com algo que já foi feito antes.

E isso é só o começo do problema. Esta é a Fall Season em que o #TGIT está incompleto. Esta é a Fall Season em que Dick Wolf não aumentará a sua já saturada (e um pouco superestimada) #OneChicago. Esta é a Fall que tenta juntar lucro a uma nostalgia absurda, tudo isso para acomodar o horizonte de expectativa de uma geração que se torna mais instantânea a cada novo episódio. Ao mesmo tempo, esta também é a Fall que já começou com o rumor de Joss Whedon dirigirá um episódio musical na CW, é a Fall Season que terá spin off de Doctor Who com participação do atual Doctor… Está é uma temporada de cansaço, mas também, é uma temporada de possibilidades.

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De tempos em tempos, uma época como essa surge na TV e no cinema. Quando a indústria está tão saturada consigo mesma que ela abre espaço para que toda sorte de ideia seja testada, para que grandes blocos de grandes estilos sejam reaproveitados. Então sim, talvez tenhamos que suportar uma temporada de erros e largas porções de reprodução de fórmulas que já estão muito gastas. Mas, talvez, esta também seja a Fall Season que gaste o suficiente desses formatos e receitas para que novas (e agradáveis) surpresas aconteçam. O charme da situação é exatamente esse: o brilhantismo daquilo que pode surgir do cansaço e da monotonia para ocupar um espaço com tudo o que pode ser feito para contrariar e transformar o que já temos é a promessa de recompensa justa pelas provações que teremos que aturar.

Além disso, considerem: o terror (de qualidade, pelo menos) sofreu um grande desfalque com o fim de Penny Dreadful. Não surge uma nova boa comédia temática há muito tempo, e até mesmo os procedurais que temos já não têm mais a mesma qualidade daqueles produzidos até o fim da década passada. Há espaço disponível para se fazer mais e já existe um padrão nos quesitos técnicos pronto para acomodar novidades. Talvez, só talvez, enquanto nos digladiamos com os dilemas de episódios acumulados, guilty pleasures e flops já esperados, enquanto nos emocionamos, nos aborrecemos e somos levados ao máximo de todas as emoções que a verossimilhança pode oferecer, pedir mais, esperar mais não só do texto ou do formato, mas da indústria pode mudar a maneira como encaramos todo o processo.

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Afinal, as palavras de David Lynch para a Revista Time Out“A TV é a nova casa para produções artísticas” – fazem ainda mais sentido na aurora de uma nova Fall Season. A TV foi e é um espaço de possibilidades narrativas muito variadas. Se estivermos dispostos a quebrar o ciclo de produções “by default”, talvez possamos criar algo de que, até agora, só tivemos vislumbres. Porque, não importa onde ou em qual língua, as pessoas sempre querem ouvir estórias, elas as consomem, as constroem e desconstroem repetidamente num entrelaçar narrativo que já é tão carnal… mas que ainda pode oferecer muito mais.

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